O dia em que Obama deixou Hollande para trás e desistiu de atacar a Síria

Gérard Davet e Fabrice Lhomme

  • Carlos Barria/Reuters

Em 2013, estava tudo pronto para uma intervenção na Síria, como atestam os documentos aos quais o "Le Monde" teve acesso. Mas, no último momento, o presidente americano voltou atrás

Sexta-feira, 30 de agosto de 2013. Eram 18h na Rua do Faubourg-Saint-Honoré, com um Sol leve de fim de verão iluminando o palácio presidencial. Dentro de exatos cinco minutos, a linha que liga o Palácio do Eliseu à Casa Branca, em Washington, seria aberta. Uma intérprete já estava presente no gabinete presidencial. "Eu falo e entendo inglês, mas queríamos ser precisos", explicou François Hollande, que nos recebeu logo após esse momento potencialmente histórico. Alguns assessores estavam sentados em frente ao chefe do Estado, com os rostos tensos, cada um avaliando a gravidade do momento.

O presidente se debruçava sobre sua mesa de trabalho, ocupado em reler e rabiscar anotações. Ele preparava a conversa possivelmente mais importante desse início de mandato. Dentro de alguns minutos, ele poderia ordenar às Forças Armadas que lançassem um ataque aéreo sobre a Síria. Pelo menos esse era o intuito dessa conversa com Barack Obama, programada desde o dia 26 de agosto: finalmente punir Bashar al-Assad, acusado de ter usado armas químicas contra a população civil síria, como havia documentado o "Le Monde" em 28 de maio de 2013.

Sobre a escrivaninha do presidente, repleta de dossiês, havia documentos, alguns deles com o carimbo "Confidencial". Hollande consultou um deles em especial, do qual obtivemos uma cópia. Redigido na véspera, no dia 29 de agosto, por seu chefe de gabinete particular, ele detalhava a "linha do tempo da incursão" futura. Era o verdadeiro manual de intervenção francesa, com tudo listado. Na véspera do ataque, os Rafales das bases de Abu Dhabi e de Djibuti deveriam ter finalizado seus últimos testes às 15h. O presidente da República deveria dar seu acordo final às 20h. As tripulações seriam informadas às 21h, para uma decolagem prevista às 22h40. A última contraordem possível, para o chefe do Estado, poderia chegar à 1h da manhã do dia do ataque. Depois, seria tarde demais. Cinco mísseis seriam lançados às 2h30, para atingir seus alvos, bases militares sírias, trinta minutos depois. Hollande fez anotações no documento e comparou as diferenças de horário, para se alinhar melhor com o aliado americano.

Seus assessores mais próximos, o general Benoît Puga, assessor militar da presidência, e Paul Jean-Ortiz, diretor da célula diplomática (morto em julho de 2014), prepararam observações para essa conversa de alto nível. Faltavam dois minutos.

Hollande releu as recomendações de sua equipe. Jean-Ortiz lhe aconselhou algumas frases para incluir na conversa com Obama: "A questão do cronograma é importante. Continuo acreditando que é preciso agir rápido por razões operacionais (envio de recursos militares do regime, evacuação dos locais-alvo) e políticas (volatilidade da opinião pública, obstrução das Nações Unidas)."

O chefe do Estado também deveria levantar duas questões essenciais: 'Qual é sua decisão a respeito do lançamento de operações militares? Qual é o seu cronograma?' Obama deveria assumir suas responsabilidades. Em caso de adiamento das operações, concluiu Jean-Ortiz, seria preciso "consolidar a questão das armas químicas e expor mais uma vez o entrave russo."

Outra observação primordial foi a do general Puga, confirmando a Hollande que os italianos haviam concedido a autorização de sobrevoo sobre seu espaço aéreo. "Consequentemente", ele afirmou, "você poderá dizer ao presidente Obama que seus recursos militares estão prontos para agir desde já."

François Hollande estava bastante seguro de si. Desde o dia 21 de agosto, e o bombardeio do Exército sírio sobre Ghout, o subúrbio agrícola de Damasco, ele queria obrigar Bashar al-Assad a sair. Uma "linha vermelha" havia sido ultrapassada, ele possuía fotos e vídeos mostrando crianças agonizantes, com o rosto deformado por efeito do gás sarin. Provas não faltavam. Havia chegado a hora de punir o regime sanguinário de Assad.

Mas cabia a Obama ditar o tom, dar início à ação. Seria impossível agir sem o acordo de Washington, de qualquer maneira. Às 18h05 a comunicação foi estabelecida e os dois presidentes começaram a deliberar.

Obama também garantia possuir elementos tangíveis sobre o uso de armas químicas por parte do regime sírio. Ele parecia determinado. "Existem duas soluções: ou agimos muito rápido, ou esperamos", resumiu. Em outras palavras, ou agiam imediatamente ou deixavam passar o G-20 que estava programado para a semana seguinte, a partir de 5 de setembro, em São Petersburgo, na Rússia, protetora histórica do regime sírio.

Hollande queria atacar o mais rápido possível, no caso, na noite de domingo, 1º de setembro, uma vez que a missão de inspeção enviada pela ONU conseguisse deixar o território sírio. Durante seu discurso perante a conferência dos embaixadores, no dia 27 de agosto, Hollande não escondeu sua vontade de colocar um fim aos abusos do déspota sírio. "Nós temos essas duas opções, precisamos pensar sobre elas", concluiu Obama. "Volto a te ligar no domingo."

Então estávamos nós no gabinete de François Hollande naquela noite de sexta-feira, às 19h. Ele parecia preocupado. "Obama demora para tomar suas decisões", ele lamentou. A recusa do Parlamento britânico em autorizar David Cameron a ordenar os ataques fez com que o presidente americano parasse para pensar. Além disso, Obama havia demonstrado ruptura com a política do "belicista" George W. Bush, sendo extremamente relutante à ideia de envolver seu país em conflitos externos. O fiasco iraquiano havia deixado marcas. Por fim, a ONU não deu seu aval à operação, em razão do veto de Vladimir Putin.

Putin, justamente: como o presidente russo reagiria em caso de ofensiva aérea? "Putin vai usar isso para transformar Bashar al-Assad em vítima e para dizer que violamos o direito internacional, você não pode convencê-lo", acreditava Hollande, que disse ainda: "Putin só entende relações de força."

Isso criou muitos obstáculos. Hollande quis então acreditar que ele poderia removê-los. "É um ato de legítima defesa internacional", ele argumentou. "Não tenho dúvidas sobre a culpa do regime", disse o chefe do Estado. "Se não o punirmos por um ato como esse, não faremos mais nada depois."

Ao raiar do dia no sábado, 31 de agosto, os americanos informaram aos franceses que Obama deveria se comunicar sem falta no mesmo dia com Hollande, às 18h15. As coisas haviam mudado, na cabeça do presidente americano. Hollande convocou um conselho de defesa restrito, que acompanharia essa conferência telefônica. Ele acreditava que Obama iria solicitar um novo prazo, sendo que do lado francês estava tudo pronto. "Os alvos estavam identificados, os vetores estavam escolhidos, só faltava dar a ordem", ele lembrou diante de nossa equipe de reportagem, no dia 7 de outubro de 2013.

A conversa foi breve. Obama pegou seu interlocutor de surpresa: "Tem duas coisas: não temos a possibilidade de ter uma resolução do Conselho de Segurança na ONU, e Cameron havia acabado de consultar a Câmara dos Comuns, então para a legitimidade da operação prefiro ter a aprovação do Congresso." "E qual o prazo?", perguntou Hollande. "Em quinze dias deveremos conseguir", disse Obama. Foi um baque para os franceses. "Fiquei espantado por ele recorrer ao Congresso, sendo que o próprio Cameron havia acabado de sofrer os efeitos disso", nos explicou Hollande, em outubro de 2013. "Acho que ele encontrou uma solução, e não um pretexto, para ganhar tempo e se reforçar em sua determinação."

As tergiversações americanas irritaram Hollande e o colocaram em uma situação delicada. Será que então ele também deveria consultar o Parlamento? Ele pediu para que estudassem essa possibilidade. Ele poderia vencer, mas por pouco. "Uma pequena maioria", ele confirmou. "E era uma preocupação. O interesse de se votar sobre uma operação externa era ter uma ampla maioria."

Os dois se voltaram a ver no G-20. Hollande soube que Obama não conseguiria a aprovação do Congresso, ou que então seria muito difícil. "Entendi que era mais difícil do que ele mesmo havia imaginado". Um outro personagem captou a complexidade da situação: Vladimir Putin. "Putin lê os jornais, ele não precisa de informações confidenciais ou de grampos— o que aliás ele pode ter feito", disse Hollande. O presidente russo viu ali uma oportunidade de fazer uma "jogada" diplomática: ele propôs então a destruição das armas químicas sírias, com o aval do regime. Obama, em plena negociação com o Irã, outro apoiador de peso de Assad, agarrou com tudo a oportunidade.

"Foi frustrante"

Os Rafales poderiam lançar seus mísseis. No último minuto, os Estados Unidos abandonaram a França. Não haveria ataque aéreo. Isso porque Hollande nunca considerou agir sozinho. Do ponto de vista militar, era possível. Mas do ponto de vista diplomático, era arriscado demais. "A operação só poderia ser coletiva", ele confirmou. Por fim, ele viu nessa decepção algumas vantagens. "Os países que nos viram disseram: 'Olha, a França foi a única que se manteve firme', os países do Golfo, os países árabes, conseguimos sua consideração", queria acreditar o chefe do Estado.

Seria um magro consolo. Do ponto de vista de Hollande, a reviravolta de Obama contribuiu indiretamente para a ascensão da organização Estado Islâmico (EI) na Síria. Se tivessem atacado, "o regime teria se enfraquecido, a oposição ficaria mais forte e o EI não teria crescido desse jeito, ainda que ele já existisse no Iraque", ele nos contou. Hollande não se conforma. "Foi frustrante a questão da Síria", ele contou em 30 de abril de 2015. "Não sei o que teria acontecido se tivéssemos atacado, talvez voltássemos a nos ver e vocês me diriam: 'Vocês atacaram e o EI está aí, a culpa é sua'.  O que posso dizer é que não atacamos.... e o EI está aí."

Tradutor: UOL

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