Editora de Hong Kong crítica à China registra desaparecimento de 5 integrantes

Michael Forsythe

Em Hong Kong (China)

  • Vincent Yu/AP

    Manifestantes protestam contra a reforma eleitoral proposta pelo parlamento chinês, em Hong Kong, em junho de 2015

    Manifestantes protestam contra a reforma eleitoral proposta pelo parlamento chinês, em Hong Kong, em junho de 2015

O recente desaparecimento de cinco homens ligados ao diretor de uma editora de livros provocativos sobre os dirigentes políticos chineses alarmou muitas pessoas na semiautônoma Hong Kong. Elas temem que o acordo histórico que conferiu à ex-colônia britânica um governo e um sistema jurídico próprios pode ter recebido um grave golpe.

No pior cenário sobre o qual se especula, os cinco foram sequestrados por emissários de Pequim e estão sendo mantidos na China continental para calar suas vozes e localizar suas fontes chinesas.

Na quarta-feira (30), Lee Bo, um diretor da editora Mighty Current Media cuja mulher é um dos três proprietários, tornou-se o último a desaparecer. Ele foi visto naquele dia saindo de um armazém. No sábado de manhã, telefonou para sua mulher, Choi Ka Ping, de Shenzhen, do outro lado da fronteira, no território continental, dizendo que estava ajudando em uma investigação, segundo Bei Ling, um escritor estabelecido nos EUA que acompanha o caso e conversou com Choi.

O desaparecimento de Lee ocorre depois que outros quatro homens ligados à Mighty Current e a uma livraria em Hong Kong desapareceram, em outubro passado. Um deles, o coproprietário Gui Minhai, que é cidadão sueco, foi visto pela última vez em sua casa em um balneário na Tailândia; o terceiro coproprietário, Lu Bo, sumiu quando estava em Shenzhen. Dois empregados, Zhang Zhiping e Lin Rongji, também foram vistos pela última vez no sul da China em outubro, segundo Bei, reportagens da mídia de Hong Kong e declarações de organizações de direitos humanos.

Os casos, que parecem estar todos relacionados, deram origem a inúmeras teorias. A Mighty Current escreveu, publicou e comercializou livros com fortes críticas a políticos chineses, cobrindo temas como a vida sexual e a corrupção de líderes destacados. Os títulos são proibidos na China, onde a mídia noticiosa e a indústria editorial são rigidamente controladas pelo Partido Comunista governante.

Mas em Hong Kong, onde uma série de direitos civis foi garantida por 50 anos pelo acordo que abriu caminho para o Reino Unido devolver sua antiga colônia à China em 1997, publicar esses livros não apenas é legal, como também um próspero negócio, voltado para visitantes do continente.

Embora não haja provas de que os cinco foram sequestrados pelas autoridades chinesas, a natureza dos livros que venderam levou muitos a suspeitarem de que a persistente repressão à sociedade civil na China está se espalhando para Hong Kong e que as autoridades chinesas tenham detido ilegalmente Lee, que é nativo de Hong Kong.

"É muito preocupante para a maioria dos habitantes da cidade, porque esse tipo de coisa não deveria acontecer aqui", disse Dennis Kwok, um importante advogado e membro do Conselho Legislativo de Hong Kong, em entrevista por telefone. "Se for confirmado, o envolvimento de autoridades agravaria ainda mais o caso."

A principal autoridade de Hong Kong, Leung Chun-ying, disse à imprensa na segunda-feira (4) que a polícia está investigando os desaparecimentos e acrescentou que só as autoridades de Hong Kong podem aplicar a lei na cidade. Leung e outras autoridades disseram que não se sabe o suficiente para apontar o dedo para qualquer pessoa que possa estar envolvida nos possíveis sequestros.

A polícia da cidade disse que não há registro de que Lee deixou Hong Kong, segundo uma reportagem no jornal em inglês de maior circulação na cidade, "The South China Morning Post".

Hong Kong funciona como uma região semi-independente, com seu próprio governo e um sistema jurídico herdado dos britânicos sob um modelo chamado de "um país, dois sistemas". E apesar de ter feito acordos de cooperação legal e de extradição com vários países, inclusive os EUA, nos mais de 18 anos desde seu retorno à soberania chinesa não houve um acordo semelhante assinado com a China continental, segundo Simon Young, professor de direito na Universidade de Hong Kong.

"Esse é um dos buracos negros no relacionamento jurídico entre Hong Kong e a China", disse Young por telefone.

Choi, a mulher de Lee, não pôde ser localizada por telefone. Mas os homens não ficaram totalmente fora de contato. Além da ligação de Lee para sua mulher no sábado, Gui contatou a dele, que vive na Alemanha, por meio do Skype, por várias vezes, sendo a última em 24 de dezembro, segundo Bei. Ele também disse que houve uma remessa de dinheiro da conta de Gui para sua filha.

Bao Pu, um editor de Hong Kong cuja empresa também publicou livros proibidos na China, disse que Gui e Lee vendiam títulos pouco documentados sobre líderes chineses há cerca de uma década, às vezes no ritmo de um por semana.

A Mighty Current controla um grupo de editoras, algumas difíceis de localizar, que são responsáveis por algo em torno de 30% a 60% dos livros políticos chineses à venda em bancas de jornais e livrarias, disseram Bao e Bei, o que significa que, se fossem eliminados, o número desses livros não diminuiria muito.

Desde que Gui e seus colegas publicam livros, ele abordou a vida sexual de Mao Tsetung, suspeitas de corrupção por parte do ex-presidente do Partido Comunista Jiang Zemin e diversos livros sobre o atual presidente, Xi Jinping. Os títulos incluíram "Amantes Estrangeiras do Partido Comunista Chinês", "Segredos de Mulheres de Autoridades do Partido Comunista Chinês" e "Mulheres da Gangue de Xangai", segundo Bei.

Os livros são vendidos aos milhares no aeroporto de Hong Kong e em outros lugares na cidade, incluindo a loja da empresa no bairro de Causeway Bay. Eles podem não ser muito verossímeis, mas com frequência são considerados verdadeiros pelos compradores da China, que devem retornar a um ambiente intelectual fechado, onde as discussões políticas são substituídas por boatos, dando aos livros maior influência porque qualquer debate sobre eles --mesmo para refutá-los-- é censurado.

"Se isto acontecesse nos EUA e houvesse um livro sobre Obama e amantes, as pessoas poderiam dizer que era absurdo", disse Bei.

Bei é cofundador do Centro PEN Independente Chinês, grupo que faz pressão pela liberdade de expressão. Ele disse que os cinco homens podem ter sido detidos para descobrir as fontes no continente que Gui, Lee e os outros usaram para escrever seus livros.

Apesar de o governo chinês não confirmar nem negar que os cinco estejam em solo chinês, um editorial no "Global Times", um tabloide conduzido pelo "Diário do Povo", a principal publicação do Partido Comunista, tratou da livraria da Mighty Current em um editorial na segunda-feira (4), dizendo que seu modelo empresarial depende de "instigar problemas no continente".

"Temos de dizer que ela interfere com os assuntos na China continental de maneira disfarçada, e prejudica os interesses vitais da China em manter sua harmonia e estabilidade", disse o editorial, assinado por Shan Renping, que segundo relatos na imprensa chinesa é o pseudônimo do editor-chefe Hu Xijin.

Alguns dos "problemas" que está provocando parecem visar diretamente Xi. Nos dois meses entre o desaparecimento dos primeiros quatro empregados e o dele próprio, Lee supervisionou a publicação de pelo menos três livros sobre os líderes chineses, disse por telefone Bei, que foi exilado da China em 2000.

"Eu acho que todas as ligações do caso são muito incisivas em termos das conexões políticas lá", disse Kwok, o advogado e legislador de Hong Kong.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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