Venda de maconha medicinal começa de forma lenta em Nova York

Jesse McKinley e Eli Rosenberg*

Em Albany, Nova York (EUA)

  • Brett Carlsen/The New York Times

    Pacote com produtos de maconha medicinal em dispensório da erva em Albany, Nova York, com um vaporizador, um conta-gotas e um spray oral

    Pacote com produtos de maconha medicinal em dispensório da erva em Albany, Nova York, com um vaporizador, um conta-gotas e um spray oral

Nova York se juntou às fileiras de quase metade dos Estados americanos na quinta-feira (7), ao permitir o uso de maconha medicinal com a abertura de oito dispensários em todo o Estado, que fornecem uma variedade de tinturas, concentrados, vapores e outras formas da droga. 

Mas quantos pacientes receberão de fato o medicamento desses dispensários é incerto; vários endereços no Estado foram visitados por clientes, mas não está claro quantos de fato compraram a droga, ou se estavam qualificados para fazê-lo de acordo com as regras rígidas do Estado. Na quinta-feira, as autoridades do Departamento de Saúde estadual disseram que apenas 51 pacientes foram certificados pelo programa até agora, apesar desse processo ter começado em 23 de dezembro e exigir a aprovação de um médico registrado junto ao Estado. 

Mesmo assim, vários dispensários foram abertos formalmente na manhã de quinta-feira, incluindo um na Rua 14 Leste, em Manhattan, um espaço elegante repleto de câmeras de segurança e espremido entre uma clínica médica e um estabelecimento de falafel.

O dispensário, dirigido por uma empresa chamada Columbia Care, que também opera dispensários no Arizona e em Washington, D.C., atraiu vários clientes potenciais, inclusive um homem que mostrou aos repórteres seu cartão estadual branco e roxo de maconha medicinal do Estado de Nova York. 

"Eu vim pesquisar o preço, pesquisar a disponibilidade, pesquisar como funciona", disse o homem de 53 anos, que se recusou a dizer seu nome por razões de privacidade, mas disse sofrer de neuropatia. "Eu falei com o farmacêutico, falei com as pessoas. Elas ficaram felizes em me ver tanto quanto eu fiquei feliz em vê-las." 

Um dispensário em White Plains deverá abrir na quinta-feira, assim como dois na área de Buffalo e dois na região de Finger Lakes, inclusive perto de Syracuse. Uma empresa, a Etain, abriu suas portas em Kingston por volta das 8 horas da manhã e então abriu um segundo dispensário em Albany na tarde de quinta-feira. A expectativa é de que outros também abram nas próximas semanas, à medida que o programa cresça. 

Autorizada por uma lei de 2014 sancionada pelo governador Andrew M. Cuomo, a entrada de Nova York no mercado de maconha medicinal ocorre após anos de lobby por legisladores em prol de pacientes, inclusive crianças, para os quais a droga é um paliativo para doenças debilitantes.

Mas mesmo após a adoção da lei, alguns defensores do conceito criticaram a rigidez das regras, inclusive a de que apenas um número limitado de condições esteja qualificado ao uso medicinal da maconha e por ser vendida apenas em 20 endereços em todo o Estado. A droga também não pode ser fumada em Nova York, como estipulado na aprovação por Cuomo, e deve ser processada em outras formas pelas empresas que a cultivam. 

Tudo isso deixou até mesmo os defensores mais ardorosos da maconha medicinal soando um tanto amargos diante do início das vendas na quinta-feira. 

"Eu acho que trata-se de um copo apenas três quartos cheio, talvez dois terços, e vai beneficiar muita gente seriamente doente", disse o deputado estadual Richard N. Gottfried, democrata de Manhattan, o primeiro a apresentar um projeto de lei para legalização da maconha medicinal em meados dos anos 90. "Mas acho que podemos fazer melhor." 

Adotando tardiamente uma tendência que já completa 20 anos, Nova York, ao permitir a maconha medicinal, se junta a Estados tão diversos como o conservador Montana e a liberal Califórnia, que em 1996 se tornou o primeiro Estado a legalizar o uso da droga como medicamento. Alasca, Colorado, Oregon, Washington e o Distrito de Columbia também permitem a droga para uso recreativo. 

Mesmo assim, como Nova York é lar da chamada lei antidrogas Rockefeller, que estabeleceu um tom punitivo ao uso de drogas e aos usuários nos anos 70, até mesmo uma aceitação limitada da maconha aqui parece significativa para antigos defensores do relaxamento das penas duras para uso de drogas. 

"O que faz disso importante é a proeminência da cidade de Nova York –nacional e internacionalmente– e a importância da abertura de estabelecimentos legais de maconha medicinal aqui", disse Ethan Nadelmann, diretor executivo da Aliança de Políticas para Drogas, que faz lobby por mudanças na política nacional para drogas. Ele disse que Nova York estava "atrasada" em relação à maconha medicinal. 

Cuomo, um democrata, intermediou o acordo para permitir a maconha medicinal no final da sessão legislativa de 2014, mas o fez com uma forte ênfase na segurança, pedindo por um artigo que permitiria ao Estado suspender o programa a qualquer momento caso a segurança ou a saúde pública venham a ser ameaçadas pela droga, que ainda é considerada ilegal pelo programa federal. 

O programa permite a maconha medicinal para pacientes certificados que possuem câncer, HIV/Aids, mal de Parkinson, esclerose múltipla, espasticidade intratável causada por danos no tecido nervoso da coluna vertebral, epilepsia, doença inflamatória intestinal, neuropatias e doença de Huntington. 

Também incluída na lista de males aprovados está a esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehrig. Hillary Peckham, a diretora de operações de 24 anos da Etain, disse que abriu o negócio com sua mãe, Amy, e sua irmã, Keeley, a horticultora da empresa, depois que a matriarca da família, Frances Keeffe, morreu de ELA. 

A Etain foi selecionada pelo Estado em julho como um dos cinco grupos para distribuir a droga, e recebeu um prazo de seis meses pelo Estado para dar início às suas operações. Hillary Peckham disse que deu os retoques finais a um dos dispensários que a empresa abriu na quinta-feira, em uma área industrial no norte de Albany. 

O dispensário recém-pintado ainda não apresentava placas, mas oferecia uma sala de espera esparsamente mobiliada para obtenção da droga. Os pacientes qualificados entram em uma área traseira para consulta com um médico, que então entrega uma das 10 marcas aprovadas que incluem sprays, tinturas e vaporizadores semelhantes a cigarros eletrônicos. 

Peckham estimou que os pacientes podem vir a gastar em média US$ 300 a US$ 1.200 (cerca de R$ 1.215 a R$ 4.855) por mês em maconha medicinal. E apesar de ainda não ter feito nenhuma venda até a tarde de quinta-feira, ela disse que estava empolgada com a abertura do negócio. 

"Eu sempre quis ter um impacto na vida das pessoas", disse Peckham. "Mas nunca imaginei que seria dessa forma." 

*Reportagem de Jesse McKinley, em Albany, e de Eli Rosenberg, em Nova York

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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