Cidade inundada é reconstruída no alto, e antigo local deixa saudade nos EUA

Julie Bosman

Valmeyer (Illinois, EUA)

  • Kile Brewer/The New York Times

    Casas da nova cidade de Valmeyer, em Illinois, cujos moradores se transferiram da várzea do rio para o alto de uma colina após uma inundação em 1993

    Casas da nova cidade de Valmeyer, em Illinois, cujos moradores se transferiram da várzea do rio para o alto de uma colina após uma inundação em 1993

Esta pequena cidade às margens do rio Mississippi quase se afogou na grande inundação de 1993. As casas se encheram com 5 m de água barrenta. Ruas se desintegraram e foram levadas pelas águas. Depois que os 900 moradores de Valmeyer acessaram os prejuízos, prometeram, cansados e de luto, que não deixariam isso acontecer novamente.

Então pegaram sua cidade e se mudaram. O povo de Valmeyer abandonou a rica planície ribeirinha onde seu vilarejo existiu por mais de 80 anos e escolheu um lugar no alto de uma colina, 2,5 km ao leste. Todos que estavam dispostos a viver em cima do morro construíram uma casa na nova cidade, com 200 hectares de florestas e plantações de milho. Eles abriram estradas, construíram uma escola e instalaram postes de luz.

E no mês passado, quando o rio começou a encher e depois inundou cidades de St. Louis, a 40 km rio acima, até Cape Girardeau, no sul do Missouri, os refugiados de Valmeyer assistiram à enchente de suas casas, empoleiradas em segurança nas terras mais altas. As pessoas que vivem aqui, que hoje somam quase 1.200, dizem que são gratas por não terem se molhado. Mas há apenas um problema.

Elas sentem falta de sua velha cidade à margem do rio.

"Eu pessoalmente gostaria de ainda estar lá embaixo", disse Laurie Brown, funcionária da cidade, sobre a Velha Valmeyer, como eles a chamam agora. "Lá em baixo, você conhecia todo mundo. Aquela camaradagem não vai voltar. Aqui em cima, não parece uma cidade natal."

Quase todos os que se mudaram para este lugar que os moradores mais antigos ainda chamam de Nova Valmeyer concordam que não tiveram escolha. Valmeyer foi especialmente atingida pela inundação de 1993, que fez o rio Mississippi romper um dique e encher a cidade como se fosse uma banheira. Ele destruiu as casas de madeira branca, o açougue Schneider's, as tabernas e a escola. A maioria das casas ficou inacessível por meses, mesmo de barco, por causa das correntes perigosas do Mississippi.

"Nossa cidade ficou basicamente debaixo d'água por dois meses", disse Dennis Knobloch, ex-prefeito e atual funcionário de Monroe County. "Tudo o que sabíamos é que a maioria das pessoas na cidade não queria voltar e consertar ou reconstruir as casas. Elas só queriam ir para um lugar mais alto."

Havia poucos precedentes para a mudança, o que fez com que os moradores fizessem planos à medida que as coisas aconteciam. Uma oportunidade surgiu quando um fazendeiro local, Walter Stemler, ofereceu-se para vender 500 acres de terra em uma encosta a menos de 4 km de distância, por cerca de US$ 3 milhões. Com a ajuda da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, os moradores venderam suas propriedades e começaram a planejar sua mudança para cima da encosta.

Comitês elaboraram sugestões de como projetar as ruas e contratar empresas. Moradores subiram na colina com tratores para inspecionar os lotes, marcados com estacas numeradas, e escolheram onde iam morar através de um sorteio. Mais do que tudo, eles disseram que foram movidos por um desejo de manter a cidade unida.

"Somos muito unidos, tradicionais", disse David Niebruegge, 40, morador que trabalha para o Departamento de Conservação do Missouri. "É por isso que todo mundo quis ficar."

Nos anos desde aquela enchente, outras cidades ao longo dos rios Mississippi e Missouri enfrentaram o dilema de partir ou ficar. Em Olive Branch, Illinois, uma pequena comunidade a 160 km rio abaixo de Valmeyer, mais de cem famílias concordaram em vender suas casas para o governo federal e afastar-se do rio. Moradores de Grafton, Illinois, venderam algumas propriedades sujeitas a alagamentos para o governo, que as transformou em espaço verde. Especialistas em gestão de inundações continuam analisando Valmeyer como um estudo de caso de resposta a um desastre.

"Eles são o exemplo clássico deste fenômeno", disse Nicholas Pinter, professor de geologia da Universidade da Califórnia, em Davis, que estuda comunidades que abandonaram áreas alagadas. "Este é um problema nacional abrangente, com apenas um punhado de histórias de sucesso. É necessário muita vontade e competência e, no clima atual, muita criatividade política para fazer isso acontecer."

A nova Valmeyer tem a aparência de um bairro suburbano organizado, o que nem todo mundo considera um elogio. "Boa parte do tempo, nos chamam de um grande loteamento", disse a bibliotecária Tammy Crossin. "Ninguém gosta disso."

Algumas casas têm varandas espaçosas com cadeiras de balanço brancas perto da porta da frente. Há uma filial dos correios, um posto de gasolina, dois bancos, três igrejas e uma escola. Uma placa na entrada da cidade proclama: "Bem-vindos a Valmeyer! Subindo para as alturas".

"As ruas são novas; as casas são novas", disse Linda Keller, assistente da biblioteca da escola. "Mas foi difícil para as pessoas. Muitos moradores mais velhos foram embora porque não queriam pensar em construir uma casa e começar de novo. E tudo era diferente. Os vizinhos antigos não estavam mais do seu lado."

Rick Roever, 62, proprietário de uma empresa de design gráfico em Valmeyer, disse que a mudança mudou a atmosfera da cidade. "Houve uma perda do senso comunitário", disse ele. "Demorou um pouco para isso voltar. Mas foi mais inteligente mudar. Mesmo que você ficasse lá, sua propriedade não valeria muito."

Cerca de 60 moradores de Valmeyer ainda vivem na área de várzea. "As pessoas podem perguntar: 'por que você mora na Velha Valmeyer?'", disse Christine Koch, que mora com seu marido, Bob, numa casa que foi inundada até as janelas em 1993. "Eu digo que ela faz parte de mim. Aqui é meu lar."

Snapper Knowlton, que é dono do único restaurante e taverna de Valmeyer, o Corner Pub, comprou um sobrado em 3,2 hectares de várzea há alguns anos.

O risco de inundação sempre existe, e nas últimas semanas, ele esteve ocupado mudando itens de valor para o primeiro andar para se preparar. Mas foi o ar desolado da planície que a tornou atraente para ele. "É tranquilo aqui embaixo", disse ele. "Meu vizinho mais próximo fica a 800 metros daqui."

A população de Valmeyer aumentou em 300 pessoas, resultado da chegada de novas famílias e da permanência de jovens que ficaram na cidade para se casar e ter filhos.

"É diferente para os jovens que não estavam aqui naquela época", disse Knobloch, o ex-prefeito. "Eles só sabem que existe uma Valmeyer no alto do morro."

Tradutor: Eloise de Vylder

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