EUA já receberam imigrantes como Fermi, Sinatra e DiMaggio. E Capone

Roger Cohen

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    Frank Sinatra

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O presidente Obama apresentou um imigrante sírio, Refaai Hamo, durante seu discurso do Estado da União como evidência de "nossa diversidade e nossa abertura", qualidades que há muito definem e sustentam os Estados Unidos.

Mas diante do grau de abertura que os Estados Unidos têm oferecido aos refugiados sírios ao longo de quase cinco anos de guerra, na qual um quarto de milhão de pessoas foi morta, essa coreografia política poderia ser qualificada seriamente como um desplante.

Hamo, que perdeu sua mulher e filha na guerra, é um dos cerca de 2.500 refugiados que Washington recebeu desde 2012. Isso representa cerca de 0,06% dos 4,4 milhões de sírios que fugiram de seu país, a maioria deles encalhada nos países vizinhos do Oriente Médio, muitos seguindo de modo cambaleante para a Europa.

Na verdade, Hamo, em seu relativo isolamento neste lado do Atlântico, poderia ter sido apresentado como símbolo do estreitamento da mente americana –sua suscetibilidade pós-11 de Setembro de temer o terrorismo, sua ansiedade com o declínio social, sua incerteza com o futuro, sua fadiga pós-guerra, sua rejeição amaldiçoadora às guerras sem vitória no Oriente Médio.

Obama tentou injetar esperança. Foi assim que o mundo começou com Obama. Sim, podemos. Na verdade, após sete anos na Casa Branca, ele próprio parece exausto, lutando para encontrar convicção.

Como o mundo já sabe a esta altura, o temperamento de Obama é mais inclinado à explicação do que à exortação. O presidente está preparado para combater o Estado Islâmico com a razão –eles querem isto, então faremos aquilo– como se a razão ao menos flertasse com as galáxias externas do universo Raqqa. Mas quando o sentimento assume, como no apelo passional de Obama neste mês para que os Estados Unidos refreiem sua loucura de armas de fogo, o efeito é particularmente poderoso, por ser raro.

Os republicanos buscaram bloquear Obama em todas as oportunidades, não menos na questão da imigração, rejeitando até mesmo seu plano de aceitar 10 mil refugiados sírios neste ano. As políticas de preconceito antimuçulmano não estarão longe da superfície durante este ano eleitoral americano.

Para todos –de Donald Trump aos partidos de extrema-direita na Alemanha e Suécia– dispostos a fechar fronteiras, os ataques sexuais a mulheres em Colônia, no Ano Novo, foram um grande momento "eu te disse". A Alemanha recebeu no ano passado 1,1 milhão de refugiados e requerentes de asilo, dentre os quais perto de 40% são sírios. Trata-se de um número imenso. A Suécia recebeu no ano passado até 190 mil refugiados, um número também substancial em relação à sua população.

Em cidades pequenas, quando centenas de recém-chegados aparecem abruptamente, as tensões sociais são inevitáveis. As forças da extrema direita –o movimento Pegida da Alemanha ou o Partido Democrata sueco– acreditam que podem se beneficiar.

O fluxo de refugiados dificilmente vai parar. A Arábia Saudita acertou com um machado os esforços de paz internacionais já desoladores por meio de uma execução em massa que enfureceu o Irã. Nenhuma paz será possível na Síria até que tanto sauditas quanto iranianos a queiram.

Ainda assim, eu apostaria que Alemanha e Suécia, sociedades que absorveram números substanciais de refugiados no passado, provarão ser resistentes, e que os países europeus em envelhecimento mais abertos à imigração se tornarão mais dinâmicos com o passar do tempo. O que aconteceu em Colônia foi vil. A chanceler Angela Merkel falou acertadamente em "atos criminosos repugnantes" e respondeu com endurecimento das leis. Ela deveria ir além. Na condição de uma mulher que atingiu o pináculo, dirigindo-se a refugiados que fugiram de países muçulmanos onde as mulheres costumam ser rebaixadas, ela está em uma posição singular para tratar da relação direta entre sociedades bem-sucedidas e a dignidade, liberdade e independência da mulher.

Enquanto isso, vamos manter alguma perspectiva. Até mesmo a estimativa mais agressiva do número de requerentes de asilo envolvidos nos incidentes de Colônia ainda deixa mais de 1.099.500 refugiados recém-admitidos na Alemanha que não têm nada a ver com o que aconteceu.

Merkel fez o certo. Onde a Europa estaria hoje com 1,1 milhão de pessoas desesperadas marchando penosamente de uma fronteira fechada a outra? A responsabilidade do Ocidente no desastre sírio é imensa. A decisão dela, sozinha entre os líderes, reconhece implicitamente esse fato. A Alemanha, ao longo do último quarto de século, absorveu 16 milhões de ex-alemães-orientais e os livrou da mentalidade paranoica, subjugada, do império soviético. Sua grande comunidade turca é integrada de forma desigual, mas está em condição melhor com o passar dos anos. A Alemanha saberá lidar com o atual afluxo.

A imigração é um desafio, mas também uma medida da confiança de uma sociedade, de sua preparação para uma autorrenovação. Essa confiança está baixa nos Estados Unidos no momento. "A dignidade de uma pessoa é intocável" –assim começa a Constituição da Alemanha do pós-guerra, com palavras extraídas da experiência amarga. Merkel mostrou que a convicção dessa ideia pode eventualmente ser absorvida por todos os que atualmente estão na Alemanha. Ela será justificada.

Os Estados Unidos, entre os anos 1880 e 1924, receberam cerca de 4 milhões de imigrantes italianos. Como me disse Leon Wieseltier, um membro sênior do Instituto Brookings: "Nós recebemos Enrico Fermi, Frank Sinatra, Joe DiMaggio, Antonin Scalia –e Al Capone. Quem em seu juízo perfeito sugeriria que a imigração italiana não foi uma grande bênção para nosso país?"

Chame de Princípio Capone: os custos da imigração são superados em muito pelos benefícios.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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