Clima de medo amplia divisões na crise de imigração da Europa

Jim Yardley

Em Roma (Itália)

  • Santi Palacios/AP

Na Finlândia, milícias estão patrulhando cidades pequenas, alegando que estão protegendo as mulheres brancas finlandesas dos refugiados. Na Alemanha, manifestantes de extrema-direita invadiram Leipzig na última segunda-feira (11) e vandalizaram prédios numa manifestação "anti-islamização". Na Itália, na terça-feira (12), um governo regional contrário à imigração aprovou o texto de uma lei que dificulta a construção de novas mesquitas, enquanto refugiados muçulmanos se estabelecem na região.

Em toda a Europa, a crise de migração que tomou conta do continente desde o verão está provocando novos níveis de ansiedade depois dos ataques sexuais do Ano-Novo em Colônia, na Alemanha, onde testemunhas e a polícia descreveram gangues de predadores compostas principalmente por homens estrangeiros, entre eles alguns refugiados, que roubaram e agarraram mulheres jovens. A polícia de Colônia também está investigando alegações de estupro.

Embora a polícia diga que os ataques em Colônia foram cometidos por centenas de homens, este número é apenas uma fração muito pequena dos mais de um milhão de requerentes de asilo que entraram na Europa no ano passado. Ainda assim, a ansiedade provocada pelos ataques de Colônia se espalhou rapidamente, à medida que surgiram notícias de ataques semelhantes no Ano-Novo em outras cidades alemãs, bem como na Finlândia e na Áustria.

Embora os detalhes de alguns desses relatos sejam vagos, e nenhum deles se aproxime do que aconteceu em Colônia, eles tocaram num ponto excepcionalmente sensível, enquanto as sociedades europeias enfrentam o desafio de integrar os refugiados, a maioria deles muçulmanos, homens e solteiros.

Partidos políticos de extrema-direita, que há muito tempo invocam o estereótipo dos estrangeiros de pele escura que ameaçam a identidade e segurança europeia, aproveitaram esses relatos para capitalizar sobre a incapacidade da União Europeia de garantir a segurança de suas fronteiras externas e administrar de forma eficiente a movimentação de migrantes dentro do bloco.

"Esta é a questão óbvia que ninguém está preparado para admitir: que o maior medo é o medo do Islã", disse Alexander Betts, diretor do Centro de Estudos dos Refugiados em Oxford. Ele argumentou que a maioria dos políticos tradicionais fracassou em tratar dos temores públicos e não forneceu clareza suficiente ao debate sobre a migração, criando um vácuo que os lideres anti-imigração correram para preencher.

Betts advertiu que, a menos que os líderes possam articular rapidamente uma defesa ponderada da migração --que confronte os medos em relação à segurança e às diferenças religiosas, especialmente depois dos ataques terroristas de 13 de novembro em Paris--, o apoio da população à concessão de asilo para os refugiados pode ruir. "Ataques como os da Alemanha, de natureza sexual, cometidos por homens de evidente origem muçulmana, é simbolicamente devastador para o comprometimento da população com a oferta de asilo", disse ele.

Os sentimentos da população vêm mudando há semanas e já está influenciando as políticas. Agências de notícias europeias reportaram que, desde 1º de janeiro, a Alemanha tinha tornado mais rigorosa a triagem de imigrantes que tentam entrar no país a partir da Áustria. Muitos outros países europeus construíram cercas ou postos de fronteira no ano passado para bloquear ou desviar o fluxo de migrantes --ações que ameaçam destruir o sistema de fronteiras internas abertas da Europa. Na Dinamarca, o governo ainda está confiscando bens dos imigrantes que chegam ao país para custear as despesas de acomodá-los.

A chanceler Angela Merkel da Alemanha tem sido a principal defensora do acolhimento aos refugiados, enfatizando o imperativo humanitário e moral de se fazer isso, enquanto busca reunir os alemães com seu slogan: "Nós podemos!". Mas a Alemanha está arcando com o ônus de mais recém-chegados, e os críticos acusaram Merkel de não articular claramente um plano para o processo de integração que deve durar muitos anos.

"Parece que chegou o momento de um amplo debate sobre o futuro da Alemanha --e o mantra "Nós Podemos" de Merkel não é mais suficiente para suprimi-lo", escreveu a revista alemã Der Spiegel, que descreveu o fracasso da polícia em impedir os ataques em Colônia como um "símbolo da impotência do Estado diante do caos e do crime".

Ao mesmo tempo, as pesquisas mostram que os partidos de extrema-direita estão ganhando apoio na França, Alemanha e outras partes.

Na Áustria, Herbert Kickl, secretário-geral do Partido da Liberdade, de extrema-direita, clamou pela suspensão imediata dos pedidos de asilo, enquanto outros membros do partido pediram para fechar as fronteiras da Áustria após os ataques em Colônia. Muitos austríacos que rejeitam as posições do Partido da Liberdade admitem que o influxo de refugiados causou uma onda de medo, muito embora tenha havido pouca violência no país.

"Há uma divisão na sociedade --na nossa redação, na mesa do almoço, nos círculos de amigos", disse Florian Klenk, editor-chefe do Falter, um semanário de esquerda com sede em Viena. "É uma polarização, mas nós tivemos pouca violência."

Mesmo assim, Peter Hacker, nomeado coordenador para os refugiados em Viena, disse que a cidade desenvolveu estratégias para coordenar as ondas de migrantes em setembro passado. "Decidimos que teremos a presença máxima e visível da polícia nos lugares onde estavam os migrantes, como estações de trem", disse ele.

Hacker acrescentou: "aqui em Viena, temos uma posição política clara em relação aos refugiados e migrantes. Há décadas Viena entende que os migrantes devem ser ajudados."

Muitos analistas observam que os ataques em Colônia são especialmente prejudiciais porque os críticos contrários à imigração e os extremistas de direita os estão utilizando para taxar todos os migrantes de criminosos e vândalos, muito embora a grande maioria deles, composta de refugiados da guerra na Síria, seja pacífica e cumpridora da lei.

Mas as distinções mais sutis foram borradas em meio ao clima de ansiedade e insegurança na Europa, que ampliou as divisões na política, na mídia e na sociedade.

Na Finlândia, o Departamento de Polícia de Helsinque divulgou uma declaração em 7 de janeiro afirmando que havia impedido que um grupo de refugiados iraquianos molestasse mulheres na noite de Ano-Novo --um anúncio que deixou muitos finlandeses surpresos. Mas outras testemunhas, além de um policial do Escritório Nacional de Investigação da Finlândia, mais tarde refutaram qualquer similaridade com os ataques de Colônia.

Mesmo assim, milícias finlandesas, incluindo uma chamada Soldados de Odin, estão patrulhando as cidades em nome da proteção das mulheres. Muitos desses grupos têm ligações com organizações de extrema-direita, e a presença deles se tornou um grande problema político.

Políticos da oposição criticaram a relutância do governo de direita da Finlândia em condenar as patrulhas das milícias. O ministro da Justiça do país, Jari Lindstrom, membro do partido populista anti-imigração, causou furor quando disse que as patrulhas não o preocupavam.

A Europa já atravessou um 2015 tumultuado que incluiu a crise de migração, a crise da dívida grega e duas ondas de ataques terroristas em Paris. Para a União Europeia, nenhuma crise foi mais ameaçadora do que o influxo de refugiados, que colocou país contra país e expôs as vulnerabilidades institucionais da União para lidar com questões como a segurança externa e interna. Muitos analistas disseram que os ataques de Colônia só intensificaram a pressão por reformas drásticas no sistema da UE.

"A única forma de lidar com esse problema é através da União Europeia", disse Sergio Fabbrini, diretor da escola de administração pública da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma. "Ainda assim não está claro se a União Europeia não tem as ferramentas institucionais ou a vontade política para lidar com isso."

Tradutor: Eloise De Vylder

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