Você é um depósito de lixo tóxico?

Nicholas Kristof

  • Brett Carlsen/Getty Images/AFP

    Morgan Walker, 5, moradora de Flint, (Michigan, EUA), faz exames para checar a quantidade de chumbo em seu sangue. A cidade norte-americana é o centro de um escândalo de contaminação de água por chumbo

    Morgan Walker, 5, moradora de Flint, (Michigan, EUA), faz exames para checar a quantidade de chumbo em seu sangue. A cidade norte-americana é o centro de um escândalo de contaminação de água por chumbo

Mesmo que você não esteja em Flint, Estado de Michigan (centro-norte dos Estados Unidos), existem substâncias tóxicas na sua casa. Em você também.
Cientistas identificaram mais de 200 substâncias químicas industriais --de pesticidas, retardadores de chamas, combustível de jatos--, além de neurotoxinas como chumbo, no sangue ou no leite humanos em todo o planeta, na verdade.

Essas substâncias foram relacionadas ao câncer, a deformidades genitais, baixa contagem de sêmen, obesidade e QI reduzido. Organizações médicas que vão do Painel Presidencial sobre o Câncer à Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia pediram uma regulamentação mais estrita ou advertiram as pessoas a evitá-las, e o Painel do Câncer advertiu que, "em um grau perturbador, os bebês nascem 'pré-poluídos'".

Todos foram abafados pelos lobistas da indústria química. Assim, temos uma situação incrível:

  • Os políticos estão (tardiamente!) condenando a catástrofe da contaminação por chumbo em Flint. Mas poucos reconhecem que, em diversos lugares dos EUA, essa contaminação é muito pior que em Flint. As crianças têm maior probabilidade de sofrer intoxicação por chumbo na Pensilvânia ou em Illinois, ou mesmo na maior parte do Estado de Nova York do que em Flint. Voltarei a isso mais tarde.
  • Os norte-americanos estão entrando em pânico sobre o vírus da zika, transmitido por mosquitos, e a perspectiva de que uma infecção generalizada possa atingir os EUA. É uma preocupação legítima, mas especialistas em saúde pública dizem que as substâncias tóxicas que nos rodeiam parecem representar um perigo ainda maior.

"Não posso imaginar que o vírus da zika prejudique mais que uma pequena fração do número total de crianças que são afetadas por chumbo em casas pobres e deterioradas dos EUA", disse o doutor Philip Landrigan, um importante pediatra e reitor de saúde global na Escola de Medicina Icahn, no Hospital Monte Sinai, em Nova York.

"Chumbo, mercúrio, circuitos eletrônicos, retardadores de chamas e pesticidas causam danos cerebrais pré-natais em milhares de crianças neste país todos os anos", comentou ele.

Mas uma medida da imperfeição do nosso sistema político é que as empresas químicas, ao gastar vastas somas em lobby --US$ 100 mil por membro do Congresso no ano passado--, bloqueiam uma supervisão séria. Quase nenhuma das substâncias encontradas em produtos que usamos diariamente teve sua segurança testada. Talvez, apenas talvez, a crise em Flint possa servir para galvanizar uma revolução de saúde pública.

Em 1854, um médico britânico chamado John Snow começou uma revolução semelhante. Milhares de pessoas estavam morrendo de cólera na época, mas os médicos se resignavam à ideia de que tudo o que podiam fazer era tratar os doentes. Então, Snow imaginou que uma bomba de água na Broad Street, em Londres, fosse a origem do cólera. A companhia de água rejeitou furiosamente essa conclusão, mas Snow impediu o uso da bomba e o surto de cólera praticamente terminou.

Essa revelação levou à teoria da transmissão de doenças por germes e a investimentos em saneamento e água potável. Milhões de vidas foram salvas.

Hoje precisamos de uma revolução de saúde pública semelhante, enfocada nas raízes originais de muitas patologias.

Por exemplo, é escandaloso que 535 mil crianças norte-americanas de 1 a 5 anos ainda sofram intoxicação por chumbo, segundo os CDC (sigla em inglês para Centros de Controle e Prevenção de Doenças). O envenenamento resulta principalmente de tinta à base de chumbo descascada em casas antigas ou terra contaminada por chumbo que é levada para dentro das casas, embora algumas áreas de Flint também tenham água poluída nas torneiras.

Enquanto os conjuntos de dados são fracos, muitas partes dos EUA têm índices ainda mais altos de intoxicação de crianças que Flint, onde 4,9% das crianças testadas têm níveis elevados de chumbo no sangue. No interior do Estado de Nova York, o índice é de 6,7%. Na Pensilvânia, 8,5%, em parte de Detroit, 20%. As vítimas muitas vezes são negras ou pobres.

As crianças que absorvem chumbo têm maior probabilidade de crescer com cérebros menores e QIs mais baixos que o ideal. Elas têm maior probabilidade, como jovens adultos, de se envolverem em comportamento sexual arriscado, abandonar a escola e cometer crimes violentos. Muitos pesquisadores acreditam que o declínio mundial dos crimes violentos a partir dos anos 1990 é em parte consequência da eliminação do chumbo da gasolina no final dos anos 1970. Há muito em jogo, para oportunidades individuais e para a coesão social.

Felizmente, temos alguns novos Snows no século 21.

Um grupo de acadêmicos liderado pelo doutor David L. Shem, da Saúde Mental América, afirma que o mundo necessita hoje de uma nova revolução de saúde pública enfocada nas crianças, semelhante à que foi montada para o saneamento depois das revelações de Snow sobre o cólera em 1854. Mais uma vez, temos informação sobre como evitar as doenças, não apenas tratá-las, se agirmos.

O motivo para um novo esforço é a vasta quantidade de pesquisas recentes que mostram que o desenvolvimento do cérebro no início da vida afeta a saúde física e mental décadas depois. Isto significa que é preciso proteger o cérebro em desenvolvimento de substâncias perigosas e também do "estresse tóxico" --muitas vezes um subproduto da pobreza-- para evitar altos níveis do hormônio do estresse, o cortisol, que prejudica o desenvolvimento cerebral.

Um ponto de partida dessa revolução de saúde pública deveria ser proteger os bebês e fetos das substâncias tóxicas, o que significa atacar as empresas que compram legisladores para evitar a regulamentação. Assim como as companhias de água tentaram obstruir os esforços no século 19, a indústria tentou bloquear o progresso recente.

Ainda em 1786, Benjamin Franklin comentou amplamente os perigos da intoxicação por chumbo, mas a indústria os ignorou e comercializou o chumbo de forma agressiva. Na década de 1920, uma publicidade da National Lead Co. [Companhia Nacional do Chumbo] declarava: "O chumbo ajuda a proteger sua saúde", elogiando o uso nas residências de encanamentos e tinta à base do metal. E o que as companhias de chumbo fizeram durante décadas, e as de tabaco também, as companhias químicas fazem hoje.

A intoxicação por chumbo é "a ponta do iceberg", diz Tracey Woodruff, uma especialista em saúde pública na Universidade da Califórnia em San Francisco. As substâncias que servem para retardar incêndios têm efeitos muito semelhantes, diz ela, e estão nos sofás em que nos sentamos.

O desafio é que as baixas não são evidentes, como são as do cólera, mas disfarçadas e em longo prazo. São epidemias silenciosas, por isso não geram tanto alarme público quanto deveriam.

"Substâncias químicas que prejudicam o cérebro em desenvolvimento" foram relacionadas a condições como autismo e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), comentou a publicação médica "The Lancet Neurology". Mas ainda não temos uma sensação suficientemente clara do que é seguro, porque muitas substâncias químicas não são testadas para segurança antes de serem postas no mercado. Enquanto isso, o Congresso emperra as iniciativas para reforçar a lei de controle de substâncias tóxicas e testar a segurança de mais substâncias.

O Painel Presidencial do Câncer recomendou que as pessoas comam alimentos orgânicos quando possível, filtrem a água e evitem aquecer alimentos em embalagens plásticas no micro-ondas. São bons conselhos, mas é como dizer às pessoas que evitem o cólera sem oferecer água limpa.

E é por isso que precisamos de outra revolução de saúde pública no século 21.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos