Não violar os interesses nacionais é um dos votos de casamento na China

Kiki Zhao

Em Pequim (China)

  • Michael Dalder/Reuters

Provocará bloqueio de trânsito? Perturbará a vida cotidiana? A lista de convidados é longa demais? O banquete será opulento demais? 

Essas são algumas das perguntas nas quais as autoridades do Partido Comunista devem pensar ao planejar casamentos ou funerais, disse nesta semana a Comissão Central para Inspeção da Disciplina do partido. 

"Nós recomendamos que padrões claros sejam estabelecidos para a escala de casamentos e funerais, assim como outros banquetes, e quanto dinheiro pode ser dado ou recebido", disse a comissão em um artigo postado em seu site na quarta-feira, detalhando como fiscalizar as diretrizes emitidas no final do ano passado para uma vida reta dos membros do partido. 

O artigo reafirma as cláusulas das diretrizes para casamentos, funerais e eventos semelhantes, e explica em detalhes como devem ser aplicadas às cerimônias, geralmente ocasiões na China para banquetes opulentos e presentes em dinheiro. Por exemplo, diz a comissão, entre as formas de as autoridades evitarem provocar "impactos sociais negativos" é não pedir a seus subalternos que prestem serviços nesses eventos. 

E como exatamente alguém não "viola os interesses nacionais, comunitários ou das pessoas" em casamentos e funerais? A comissão explica que os eventos não devem "interferir ou atrapalhar a produção, vidas, trabalho, ensino, pesquisa ou o trânsito normais". 

Desde que assumiu o poder no final de 2012, o presidente Xi Jinping trava uma campanha abrangente contra a corrupção oficial, com milhares de pessoas afastadas de seus cargos ou processadas, com frequência em casos que contam com exibições escancaradas de riqueza inexplicada ou abusos de poder. 

Em dezembro, o presidente do prestigioso Conservatório Central de Música em Pequim, Wang Cizhao, foi afastado de seu cargo, após obter um desconto para o casamento de sua filha em um centro de artes com laços estreitos com o conservatório, informou a comissão. 

Na província de Shaanxi, vários secretários locais do partido receberam reprimendas por aceitarem "somas relativamente altas de presentes em dinheiro" em casamentos ou funerais, notou a comissão. 

Alguns governos locais já especificaram como seus membros devem realizar suas cerimônias de família. Na cidade de Harbin, no nordeste, o governo especificou no ano passado que para um casamento, o número de convidados não pode ultrapassar 200, e para um funeral, o número máximo de pessoas presentes não deve passar de 100. Nos banquetes para quaisquer outras ocasiões familiares, ele disse, apenas "parentes próximos" podem ser convidados. 

Nas redes sociais, as mais recentes explicações da comissão do que constitui conduta imprópria atraíram comentários críticos. Um comentarista no Weibo escreveu: "Esses comportamentos são descritos de forma vaga demais, de modo que não há como saber se há uma violação". 

Outro escreveu: "Quando meu primo se casou, ele não se atreveu a ter mais que apenas 10 mesas no casamento. Mas em nosso pequeno condado, temos tantos parentes e amigos que precisávamos de pelo menos 30 mesas!" 

"Isso faz vocês parecerem um culto", escreveu sobre as regras uma comentarista usando o nome de LuoyingLee. Outro escreveu que parecia que os chineses estavam se tornando "mais parecidos com os norte-coreanos". 

Outro viu uma possível vantagem para as autoridades inescrupulosas. "Os líderes ficarão muito felizes agora", escreveu um comentarista usando o nome Fuzeyuji. "No passado, eles precisavam realizar banquetes para receber presentes. Agora poderão receber presentes sem precisar realizar os banquetes." 

Algumas autoridades podem considerar os padrões mais rígidos intimidantes. No ano passado, mais de 36.600 membros do partido foram punidos por violação das diretrizes de austeridade, segundo a "Xinhua", a agência de notícias estatal. 

Em novembro passado, um líder de vilarejo na província de Shaanxi renunciou, depois que a comissão de inspeção disciplinar do diretório local do partido se recusou a permitir que ele convidasse o número de pessoas que desejava para o casamento de seu filho, noticiou o "Beijing Youth Daily". O líder disse que tinha muitos amigos e parentes, de modo que a única forma de realizar um casamento apropriado para seu filho era deixar seu cargo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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