Será que minha família é dona de uma pintura saqueada pelos nazistas?

Eve M. Kahn

  • Sotheby's via The New York Times

    Pintura de Jan Steen, datada dos anos 1660, que foi rejeitada por várias casas de leilão

    Pintura de Jan Steen, datada dos anos 1660, que foi rejeitada por várias casas de leilão

Por décadas, ela esteve pendurada na sala de jantar de uma casa de família: uma pintura de autoria de um mestre holandês, retratando um velho e sua mulher pesando e contando suas moedas de ouro. Avaliada como sendo uma obra genuína de Jan Steen e datada dos anos 1660, ela já teve seu preço estimado em US$ 400 mil.

Mas agora, a obra é quase impossível de ser vendida, rejeitada pela Sotheby's, Christie's e por um renomado marchand holandês, que foram desencorajados não por sua autenticidade, mas por sua história.

Em algum momento nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, quando as coleções de arte dos judeus na Alemanha já estavam sendo pilhadas, ela foi de propriedade, se é que esta é a palavra certa, de um colaborador nazista holandês e um aproveitador da guerra, Dirk Menten.

Teria ele a roubado ou comprado, e quando? Teria seu irmão, Pieter, um criminoso de guerra que assassinou judeus e saqueou suas coleções de arte, exercido um papel?

Essas são perguntas que o mercado de arte não gosta. Também são com as quais me deparei por quatro anos, enquanto tentava reconstruir a procedência da pintura.

Os nazistas eram soberbos mantenedores de registros. Mas não bons o bastante para me ajudar a solucionar a dúvida sobre se a obra saiu da Europa por meio de roubo ou de uma transação honesta. Em vez disso, ela se junta a um crescente número de pinturas cuja proveniência se encontra em um limbo.

Ela pertenceu ao companheiro de minha madrasta, Alan H. Posner, que morreu em 2011. Ele era judeu e, felizmente, nunca soube o que descobri sobre a obra de arte que pendurava em seu apartamento em Manhattan. Não importa quantas vezes eu conte esta história, sobre pessoas monstruosas cujas impressões digitais estão em uma pintura diante da qual minha família passava todo dia, sempre me arrepio. Em meu escritório em casa, tento não olhar para minhas cópias de cartas da família Menten que terminam em "Heil Hitler!"

Dei inúmeros telefonemas e enviei centenas de e-mails para pessoas espalhadas do México ao Japão, qualquer uma que pudesse saber algo sobre a pintura. Quanto mais escavava, mais escuridão encontrava. Talvez enterrado em alguma parte por aí estivesse o recibo de Menten de algum marchand respeitável, datado de antes dos nazistas invadirem a Polônia ou a Bélgica, dois países pelos quais a pintura parece ter passado. Ou talvez os descendentes de algumas vítimas do nazismo tenham visto o quadro em fotos do lar de seus antepassados.

Entre os pesquisadores de restituição do Holocausto, Menten é conhecido como um "nome bandeira vermelha", que sinaliza "procedência tóxica". Há milhares de objetos nessa situação, itens que mudaram de mãos sob circunstâncias não claras na Europa ocupada pelos nazistas. Mais estão entrando nesta área cinzenta à medida que registros pesquisáveis, listas de exposições da época da guerra, catálogos de leilões, arquivos de marchands, colecionadores e historiadores, aparecem online.

Lynn H. Nicholas, autora de "The Rape of Europa: The Fate of Europe's Treasures in the Third Reich and the Second World War" (O estupro da Europa: o destino dos tesouros da Europa no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial, em tradução livre, não lançado no Brasil), me disse ter ficado feliz por eu estar escrevendo este artigo para ilustrar as frustrações da pesquisa no campo. Não especialistas pensam com frequência que obras trocadas de mão durante a época da guerra podem ser restituídas facilmente, ela disse, mas o processo pode ser cheio de becos sem saída.

Títulos e descrições de pinturas mudam com o passar do tempo, de modo que pode ser difícil comparar descrições do que foi roubado com peças encontradas anos depois. Soldados aliados e especialistas que examinaram as pilhagens depois da guerra cometeram erros e rotularam telas com termos vagos, como "retrato nu" e "paisagem". E a cada dia, resta um número menor de sobreviventes que se recordam das coleções de suas famílias. Herdeiros legítimos se tornam cada vez mais difíceis de encontrar.

Anne Webber, fundadora e presidente da Comissão para Arte Saqueada na Europa, me contou sobre uma das tarefas mais difíceis de sua equipe: encontrar herdeiros para uma pintura que pertencia a um judeu alemão identificado em um catálogo de leilão da época dos nazistas apenas pela primeira letra de seu sobrenome.

Um colecionador privado também me disse que era dono de uma tela impossível de ser vendida. Especialistas apenas recentemente descobriram que ela fez parte da coleção de Hermann Goering. Não há prova de roubo ou de não roubo.

Os problemas da tela de Steen vieram à tona poucas semanas após a morte de Alan. Ele era dono de meia dúzia de obras de antigos mestres que os pais de sua mulher, Lillian, compraram antes da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Clarence Y. Palitz, foi um imigrante judeu russo que fez fortuna com leasing de equipamento industrial, entre outros empreendimentos. Ele e sua mulher, Ruth, viajavam muito e formaram uma coleção de arte para seus lares em Manhattan e Mamaroneck, Nova York, com a orientação de historiadores de arte judeus na Alemanha.

Os arquivos de Alan continham páginas datilografadas listando alguns dos antigos donos da pintura, incluindo um "D. Menten, Lwow" (parte da Polônia durante a guerra, é agora Lviv na Ucrânia) e um "Dirk Neutens, Bruxelas". (Neutens, como a pesquisadora de procedência Victoria Sears Goldman me apontou, era provavelmente uma interpretação errada de alguém de uma versão manuscrita pouco legível da palavra Menten.)

(Para que fique claro, realizei minha pesquisa gratuitamente, pela emoção intelectual e como um favor para minha família. Não tenho e nunca tive propriedade ou direito a uma parte em sua venda potencial.)

O que descobri com clareza é que nos anos 1850, um historiador de arte alemão escreveu sobre uma obra assinada por Steen, de um casal velho admirando suas moedas "avidamente", em exposição no lar em Londres do advogado e escritor Edmund Phipps. Ela estava pendurada ao lado de obras de Rubens, Frans Hals, Canaletto, Hogarth e Watteau. Em 1859, a viúva de Phipps leiloou a coleção dele, incluindo o Steen.

Então o rastro esfria. Não está claro como ou quando Menten o obteve. Os Palitz parecem tê-la adquirido em algum momento depois de 25 de abril de 1933, quando foi autenticada por Max J. Friedlander, um diretor de museu em Berlim. Eles certamente eram seus donos em 1942, quando a emprestaram ao Walker Art Center em Minneapolis.

Palitz conhecia Dirk Menten como um colecionador de arte e o enviou à Polônia em 1933 para procurar por obras. Ao lado de Menten na viagem estava Julius Held, um respeitado historiador da arte que tinha acabado de ser forçado a deixar seu emprego em Berlim, juntamente com a maioria dos outros intelectuais judeus.

Em 1933, Pieter Menten já estava vivendo em tempo integral na Polônia, enriquecendo com negócios incluindo uma madeireira. Ele e Dirk mantinham casas cheias de pinturas na Holanda, França e Bélgica. (Eles podem ter obtido arte por meio de seu primo Hubert Menten, um colecionador e marchand em Berlim cuja clientela incluía Goering.)

Dirk tinha uma fábrica de produtos de couro na Bélgica que acabou fornecendo cintos para os uniformes nazistas. (Ele foi condenado por colaboração econômica depois da guerra, mas sofreu poucas consequências.) Na Polônia, durante a guerra, Pieter enchia seus vagões de trem de arte roubada e liderava gangues nazistas, que fuzilavam centenas de aldeões e os jogavam em valas comuns.

Depois da guerra, Dirk se estabeleceu na Riviera Francesa, com as pinturas dos antigos mestres em suas paredes e vistas do mar e mimosas. Pieter adicionou uma cara casa na Irlanda ao seu portfólio imobiliário. Apenas nos anos 70, quando Pieter buscou publicidade para um leilão de sua coleção de arte em Amsterdã, é que ele foi desmascarado como um criminoso de guerra.

Os túmulos dos aldeões foram exumados como evidência para seu julgamento. Ele alegou que as testemunhas estavam equivocadas, que o verdadeiro assassino era Dirk. Mas então Dirk testemunhou de forma convincente que era o oposto.

(Hans Knoop, o jornalista holandês que investigou Pieter nos anos 70 e reuniu evidências posteriormente usadas em seu julgamento criminal, agora está atualizando seu livro a respeito, "The Menten Affair" , ou "O caso Menten", em tradução livre, não lançado no Brasil.)

O paradeiro de muitas obras que estiveram em posse de Dirk e Peter Menten permanece um mistério, mas seus nomes aparecem como procedência de pinturas presentes em numerosos bancos de dados, livros e catálogos de leilão. Algumas das obras de procedência questionável acabaram sob custódia do governo holandês, postadas no site da agência Origins Unknown (origens desconhecidas). Perry Schrier, o pesquisador sênior da agência, disse que eles estão ampliando suas listas de relatos de roubo, adicionando documentação e na esperança de entrarem em contato com mais herdeiros.

Mesmo assim, Victoria Reed, a curadora de procedência do Museu de Belas Artes, em Boston, disse que para algumas obras órfãs, "poderemos nunca ser capazes de montar todas as peças do quebra-cabeça".

Evie T. Joselow, uma avaliadora de arte de Nova York, me disse para não perder a esperança em meu próprio quebra-cabeça; com o surgimento de novas fontes, ela disse, "as procedências não estão definitivamente seladas".

Assim, continuo enviando e-mails para arquivistas e digitando em ferramentas de busca. Talvez algum dia eu consiga encontrar ouro. Enquanto isso, a pintura está pendurada na parede do lado de fora de uma sala de jantar, em uma casa de um parente no Meio-Oeste.

Seu tema, pessoas medindo sua riqueza, ainda é relevante hoje e era especialmente popular no século 17, como um alerta contra a obsessão por dinheiro. No fundo, Steen pintou uma ampulheta, um fêmur e um crânio, empilhados em uma prateleira de canto.

Após meus anos de pesquisa, o significado da pintura se tornou mais claro para mim: sua ligação com os Mentens pode ter prejudicado seu valor, mas acentuou sua habilidade de retratar a ganância.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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