Em meio ao avanço do Taleban em província, general afegão planta flores em base

Rod Nordland

Em Camp Bastion (Afeganistão)

  • Adam Ferguson/The New York Times

Os generais tendem a criar muita excitação quando se movimentam pelo campo de batalha, especialmente em um lugar tão central para a guerra no Afeganistão quanto a província de Helmand. E foi o que aconteceu enquanto o major-general M. Moein Faqir se preparava para embarcar em seu helicóptero para voltar a Camp Bastion, o venerável complexo britânico que hoje ele comanda.

Como comandante do 215º Corpo do Exército Nacional Afegão, Faqir é o principal militar na província de Helmand, mais da metade da qual foi dominada pelo Taleban no último ano. Depois de uma visita duas semanas atrás a Lashkar Gah, a capital da província, ele estava no campo de pouso com toda a sua comitiva: assessores de campo, guarda-costas, seguidores em campo --e jardineiros, com muitos vasos de plantas.

Todos se amontoaram no helicóptero de fabricação russa MI-17, um dos quatro que servem para transporte de pessoal e como ambulâncias, seu piloto também um general que restou da era comunista. Então a equipe de solo carregou o espaço central com os vasos, uma dezena deles floridos com margaridas africanas, begônias, bons-dias, nastúrcios e algo que pareciam petúnias roxas.

Faqir explicou: "Helmand é um deserto. Precisamos de um pouco de cor lá".

De volta a Camp Bastion, enquanto ele se sentava para uma entrevista em seu quartel-general, soldados foram trabalhar lá fora, colocando pás de esterco de carneiro em canteiros arranjados ao redor do mastro de bandeira do corpo e molhando tudo com água trazida em um caminhão.

Faqir foi indicado comandante do corpo há quatro meses, com dois dos 14 distritos administrativos de Helmand nas mãos do Taleban. Os insurgentes estavam tão próximos de Lashkar Gah que as autoridades da capital retiraram parte de suas famílias, enquanto garantiam ao público que não havia nada a temer.

Esses avanços do Taleban coincidiram com um escândalo sobre soldados fantasmas --milhares de homens listados entre os do 215º batalhão aos quais se pagavam salários, pelo menos a alguns, mas que nunca responderam às chamadas. O antecessor de Faqir foi demitido por isso, e Faqir veio consertar as coisas, o que, segundo ele, fez com sucesso.

Os sucessos no campo de batalha, porém, foram mais tênues. Desde a chegada de Faqir, o Taleban tomou mais três distritos, incluindo Now Zad e Musa Qala. Ambos são importantes zonas agrícolas e grandes fontes de papoulas (para a produção de ópio), e Musa Qala é um centro de refino de ópio e produção de heroína.

A reação de Faqir a isto foi considerar publicamente "sem importância" Now Zad e Musa Qala, pelas quais tropas americanas e britânicas lutaram acirradamente nos últimos dez anos.

"Mudei minha tática contra o Taleban", disse o general. Em vez de usar armas pesadas contra eles em locais densamente povoados, Faqir disse que mudou a ênfase para batidas noturnas.

Equipes de soldados de suas forças especiais, geralmente com assessores americanos, disse ele, têm vasculhado residências suspeitas de abrigar membros do Taleban. O resultado, segundo ele, foi uma redução de 70% nas baixas entre suas tropas.

"Costumava haver de 30 a 40 feridos no hospital aqui de cada vez", disse. "Não há números parecidos agora."

Um de seus oficiais, porém, o criticou abertamente. "O combate diminuiu porque o comandante do corpo parou de lutar com o Taleban", disse o coronel Mohammad Ahmadzai, um dos pilotos do helicóptero. "Ele perdeu três distritos desde que chegou aqui."

Faqir desdenhou, dizendo que os distritos mudam de mãos o tempo todo em Helmand e poderão facilmente mudar de novo amanhã.

No mês passado, militares americanos reforçaram Helmand com um número não especificado de tropas da 87ª Divisão de Infantaria do Exército. Faqir calculou seu número em "mais que um batalhão" (os batalhões dos EUA geralmente têm de 700 a 800 soldados). Outras estimativas de oficiais afegãos e analistas variaram de 700 a mil novos americanos.

As novas tropas devem reforçar o treinamento dos afegãos, com 1.500 novos recrutas hoje em Camp Bastion, destinados a substituir alguns dos soldados fantasmas, assim como as fortes perdas do ano passado.

No apogeu, Camp Bastion e os postos avançados vizinhos, incluindo Camp Leatherneck, dos fuzileiros navais, abrigaram 22 mil americanos, britânicos e soldados da coalizão, mais empreiteiras e tropas afegãs.

Apesar de o 215º corpo ter 18 mil soldados em seus registros, a maioria deles está mobilizada pela província, deixando as tropas da guarnição, novos recrutas e forças especiais afegãs, não mais que 5 mil ao todo, espalhados pela extensa instalação de sólida construção.

A mudança mais evidente é a remoção de todas as placas de limite de velocidade de "5 mph" (5 milhas por hora, ou 8 km/h), típicas das bases em zona de guerra.

Com o retorno do batalhão da 87ª Divisão de Infantaria, mais um número desconhecido de tropas de Operações Especiais dos EUA, há provavelmente 2.000 americanos ou mais aqui agora. Eles são mantidos em separado dos afegãos e principalmente fora de vista, exceto quando vêm para o lado afegão para realizar sessões de treinamento.

O comandante da guarnição afegã, coronel Nasimullah Alishangai, já está aqui há quase dez anos. O jardim de rosas em sua residência pessoal mostra isso.

Arbustos enormes com meia dúzia de variedades --algumas já florescendo-- rodeiam um pavilhão coberto com duas esteiras rolantes Life Fitness, deixadas pelos americanos quando se retiraram em 2014 e aparentemente não usadas desde então. Na outra ponta do jardim há um belo grupo de bétulas brancas, altas e esguias, arranjadas em forma de ferradura em torno de uma área para descanso.

"Quando cheguei a este lugar, quase não havia forças de segurança", disse Alishanghai. "Tínhamos só a Terceira Brigada. Hoje temos um corpo inteiro do Exército aqui, e a situação continua piorando dia após dia."

Faqir e seus oficiais graduados estão contentes de ver o retorno de tropas americanas, mesmo limitado. "Não precisamos delas agora, mas é claro que são nossos colegas soldados e vão lutar ombro a ombro conosco, se nós precisarmos", disse ele.

Enquanto isso, os oficiais afegãos têm seus jardins de flores para cuidar. Antigamente, disse o coronel Shah Wali Zazai, chefe do centro de treinamento dos novos recrutas, alguns dos mentores militares e treinadores americanos zombavam dos jardineiros de Camp Bastion.

"Vê aquele renque de árvores?", perguntou Zazai, apontando para uma longa fileira de salgueiros ao longo da estrada que leva ao campo de treinamento. Ele os plantou em 2004, e seu mentor americano perguntou por quê. "Eu disse: 'Espere para ver. Um dia os soldados estarão sentados à sombra dessas árvores, economizando ar-condicionado nos dormitórios."

O coronel fez uma pausa à sombra dos salgueiros, altos e com espessa folhagem. "É uma longa guerra", disse ele. "Entende o que estou dizendo?" 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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