Em 50 anos em seu táxi, italiano só lamenta não ter um papa como passageiro

Elisabetta Povoledo

Em Roma (Itália)

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    Alberto Tomassi

    Alberto Tomassi

De seu posto no assento do motorista, Alberto Tomassi, taxista romano há 50 anos, é tanto um bisbilhoteiro quanto um confessor. Ele já fez o papel de guia turístico improvisado, impediu assaltos e levou correndo inúmeros clientes ao pronto-socorro.

E consolou mulheres abandonadas com uma dose de sabedoria caseira. "Eu disse a uma mulher cujo marido a trocou por uma mulher mais jovem: 'Como dizemos em Roma, quando um papa morre, você escolhe outro'."

Percorrendo com conhecimento as ruas estreitas e esburacadas de Roma, muitas concebidas séculos antes do motor de combustão interna, ele desenvolveu a calma inabalável de um monge zen.

"Se você conseguir suportar os primeiros 15 anos sem ficar realmente furioso, você pode fazer isso para sempre", disse Tomassi. "Eu apenas lido com as coisas quando e como aparecem."

Apenas um punhado de taxistas conseguiu enfrentar o notório trânsito de Roma, uma mistura de ruas ruins e aversão dos motoristas a regras (que é uma característica nacional), por cinco décadas.

"É um trabalho difícil, alternando turnos noturnos e diurnos, enfrentando poluição, trânsito, estresse, motoristas indisciplinados", disse Loreno Bittarelli, presidente da cooperativa de rádio-táxi de Tomassi.

"E depois de 50 anos, nem mesmo recebe uma boa pensão", disse Bittarelli. "Você corre o risco de morrer de fome caso se aposente cedo."

Na Itália, os taxistas contribuem como trabalhadores autônomos para o sistema nacional de previdência social, que calcula as pensões com base nas contribuições.

Bittarelli também se irrita pelos taxistas romanos serem com frequência difamados como sendo um lobby privilegiado, que combate coisas como a liberalização das licenças.

"Eu desconheço quantos serviços públicos funcionam tão bem quanto o nosso", ele disse. "Alberto sacrificou muito para continuar trabalhando. É humilhante alguém considerar seu trabalho como sendo privilegiado."

Por sua vez, Tomassi ficou decepcionado por seu feito não ter sido reconhecido oficialmente neste ano (nenhuma festa, nenhum relógio de ouro, nenhum tributo), de modo que decidiu colar um adesivo prateado redondo escrito "50 anos de táxi" no vidro traseiro de seu veículo.

Tomassi começou a dirigir em 5 de fevereiro de 1966, após comprar uma licença de táxi por 5 milhões de liras italianas.

"Era muito dinheiro", ele disse, quase o mesmo que o preço de um apartamento de tamanho médio.

Em meados dos anos 60, Roma passava por um momento vertiginoso. Em meio ao longo boom econômico do pós-guerra, a capital era uma encruzilhada de estrelas e caçadores de celebridades, cardeais e socialites, aristocracia decadente e crescente empreendedorismo.

Na época, como agora, as celebridades eram forragem para um público ávido por fofocas, e os paparazzi percorriam as ruas em vespas patrulhando as casas noturnas, como Milleluci e Grotte del Piccione, há muito fechadas, atrás de suas presas.

"Aqueles eram os tempos antes das selfies", disse Tomassi.

Desdobrando um saco plástico, ele retirou cuidadosamente um velho recorte de jornal emoldurado: uma lembrança daqueles tempos passados em que Roma era conhecida como a Hollywood no Tibre.

Uma foto mostrava Tomassi enquanto guiava Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo por Roma.

"Minha cabeça ainda era cheia de cabelo", ele disse, rindo e olhando para o alto, para a atual calvície.

Ele lembrou que naquele verão de 1967 os dois atores "estavam apaixonados".

Entre seus passageiros estiveram o diretor neorrealista Vittorio De Sica ("Ladrões de Bicicletas") e os atores Ugo Tognazzi ("A Gaiola das Loucas") e Alberto Sordi ("Um Americano em Roma").

O diretor Federico Fellini tinha uma rota regular, entre sua casa, perto da Piazza del Popolo, e o Cafe de Paris na Via Veneto. Tomassi conhecia o endereço privado da atriz Sophia Loren e o ator Marcello Mastroianni certa vez o convidou para um café, ele disse.

Na época, ele podia dirigir seu Fiat 600 Multipla, o primeiro de seus oito táxis, em torno do Arco de Constantino, ao lado do Coliseu, cruzar a Ilha Tiberina, correr em torno da Piazza Navona ou entrar na Praça de São Pedro, áreas que de lá para cá se tornaram exclusivas para pedestres.

"Era uma época em que as pessoas riam, viviam a bella vita", ele lembrou com afeto. "Foram belos anos."

Uma decepção foi perder a chance de ser o motorista do papa Paulo 6º nos Jardins do Vaticano. Provavelmente foi bom que a oportunidade não deu certo, ele disse.

"Se eu dissesse às pessoas que levei o papa, elas achariam que sou louco", ele disse. Hoje, ele provavelmente poderia dizer isso, ele riu, lembrando as ocasionais tentativas do papa Francisco de escapar e agir como um cidadão normal.

Quando Tomassi começou a trabalhar como taxista, a cidade estendia apenas algumas poucas gavinhas ao rodoanel que a cerca. Hoje, a cidade se espalha para a região rural ao seu redor.

Apesar de não usar um aparelho de GPS, ele disse que pode encontrar qualquer endereço na cidade, do centro histórico, um labirinto de ruas de mão única que precisa ser percorrido para se aproximar do Panteão, da Fonte de Trevi e das Escadarias da Praça da Espanha, até a periferia.

"Posso apostar com você que sei onde está qualquer rua", ele disse.

Ele também disse achar que o trânsito em Roma melhorou. Anos atrás, ele disse, havia menos estradas, de modo que os motoristas seguiam pelas rotas conhecidas, congestionando as artérias principais. Por exemplo, não havia uma estrada ligando a cidade ao Aeroporto Fiumicino, que fica na costa, entre Fregene e Ostia, dois destinos praianos populares.

Aos domingos, quando as famílias romanas preparavam um lanche e seguiam para a praia, aqueles que esperavam pegar um avião sofriam.

"Era apenas um longo congestionamento", ele lembrou.

Tomassi, que completa 75 anos em setembro, decidiu que é hora de se aposentar. Ele tem algumas pessoas interessadas em comprar sua licença, que atualmente vale cerca de 130 mil euros (cerca de R$ 510 mil).

"Você não enriquece fazendo esse trabalho, mas é um trabalho honesto", ele disse. "Você pode criar uma família, pagar a escola das crianças." Sua filha mais velha é, por acaso, uma policial de trânsito em Roma.

"Meus colegas brincam que possa fazer o que quiser, porque nunca serei multado", ele disse. "Em vez disso, eu não meço esforços para não infringir nenhuma lei."

Mas ele reconhece que foi multado uma vez, no início, por ter se esquecido de vestir o colete e boné amarelos que os taxistas de Roma antes tinham que usar.

Por ora, ele apenas está desfrutando suas últimas viagens, e reconhece orgulhosamente seu adesivo prateado para os clientes que perguntam.

"Alguns dizem: 'Coitado, 50 anos no trânsito de Roma'", ele disse. "Outros ficam contentes, porque significa que também podem suportá-lo." 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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