Opinião: A heresia de Bernie Sanders sobre Israel

Roger Cohen

  • Christophe Simon/AFP

    A explosão de um ônibus em Jerusalém, Israel, deixou ao menos 20 feridos. Segundo a polícia, uma bomba foi detonada na parte traseira do veículo

    A explosão de um ônibus em Jerusalém, Israel, deixou ao menos 20 feridos. Segundo a polícia, uma bomba foi detonada na parte traseira do veículo

Em Nova York, nada menos, dias antes de uma primária, um candidato à nomeação presidencial pelo Partido Democrata declara que Israel usou força "desproporcional" em Gaza em 2014, que "nós vamos ter de tratar o povo palestino com respeito e dignidade", que os EUA têm de exercer "um papel equilibrado" e que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, "não está certo o tempo todo".

Uau! Sensação! Parem as rotativas!

Esse candidato, é claro, é Bernie Sanders, um judeu no partido que é o lar político da maioria dos judeus americanos, e o fato de suas palavras serem consideradas chocantes ou mesmo dignas de nota reflete o grau em que, ao longo de muitos anos, as grandes organizações judaicas americanas puderam ditar a linha que diz que só há uma maneira de apoiar Israel e ganhar eleições --é sem críticas.

Na maior parte do mundo, a posição de Sanders seria indiscutível, refletindo um consenso. Na verdade, sua declaração no debate com Hillary Clinton de que ele é "100% pró-Israel em longo prazo" quase certamente teria causado mais comoção na Europa.

Muitas pessoas no Brooklyn aplaudiram Sanders. Ele tem o apoio majoritário dos jovens eleitores democratas, e é entre essas idades --18 a 29-- que um sentido de alienação do governo de direita de Netanyahu e do Israel que ele reflete vem crescendo mais rapidamente.

A constante expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada, as pesadas intervenções de Netanyahu na política eleitoral dos EUA e sua tentativa incansável (mesmo "in extremis") de deter o acordo nuclear com o Irã foram fatores que reforçaram a opinião de que não é traição criticar algumas políticas de Israel.

Como disse Sanders, Israel tem "todo o direito do mundo de destruir o terrorismo". Um atentado suicida a bomba em Jerusalém na segunda-feira (18) foi mais uma escalada na violência fervilhante do impasse israelense-palestino.

Nenhum Estado pode aceitar ataques de foguetes do tipo cometido contra Israel pelo Hamas a partir de Gaza, nem facadas aleatórias contra seus cidadãos. O Hamas esconde agentes entre os civis. Há muitas vezes algo nauseante no fato de o continente --a Europa-- onde os judeus foram assassinados censurar os descendentes dos que sobreviveram por absorverem a lição de que o poderio militar é importante. A liderança palestina está dividida e fraca. Ela aprova ou se envolve na incitação à violência.

Mas o pano de fundo de tudo isto ainda é um governo israelense que conduz o país diretamente à intolerância, à dominação permanente de outra população e sua perene humilhação. Um povo oprimido se erguerá. Os judeus conhecem, como ninguém, as provações lacerantes da ausência de um Estado.

O acordo com o Irã, concluído no ano passado, foi um divisor de águas na política de Israel dentro da política dos EUA. Ele dividiu a comunidade judia americana, foi ferozmente combatido pela poderosa Comissão Americana de Assuntos Públicos de Israel (Aipac na sigla em inglês) e rejeitado pelo governo israelense. Mas no final ganhou a aprovação do Congresso e o apoio de uma vasta maioria de senadores democratas.

Esse resultado sugeriu uma nova disposição de parte dos congressistas --pelo menos dos democratas-- a colocar uma certa clareza entre suas posições e as de Israel. Os votos judeus não ganham eleições nos EUA, embora possam ser importantes em um Estado, a Flórida.

Os judeus representam cerca de 2% da população dos EUA; a maioria deles vive em Nova York e na Califórnia, que há 25 anos votam nos democratas nas eleições nacionais. Diante disso, números modestos concentrados em Estados não indecisos não têm um peso significativo.

Mas votar é uma coisa, financiar é outra. Como me disse Jeremy Ben-Ami, presidente da J Street, um crescente grupo pró-Israel que critica o aumento dos assentamentos e a ocupação, "a antiga percepção era que a única maneira de conseguir dinheiro seria seguir a linha da Aipac. O Irã mostrou que algo mudou". Talvez ainda não seja fácil, mas não é mais um suicídio político dos EUA criticar Israel ou recusar as receitas da Aipac.

Sanders acertou um golpe importante para um debate mais honesto e aberto ao levantar questões raramente abordadas em uma campanha presidencial dos EUA --as casas e escolas palestinas "dizimadas" pela força israelense em Gaza, o fato de que "há dois lados na questão", a necessidade de um papel equilibrado dos EUA. Ele estabeleceu um marco na cidade americana judia por excelência.

Minha sensação é de que ele não pagará um preço político por sua posição, porque há um eleitorado emergente, especialmente entre os jovens americanos, a favor de uma abordagem diferente para Israel, uma que garanta sua segurança sem preencher um cheque em branco para todas as suas políticas. Se Sanders se beneficiará disso é outro assunto --a situação é fluida e a abordagem mais convencional de Hillary a Israel conserva um forte apoio.

David Ben-Gurion, o pai fundador de Israel, disse: "A paz é mais importante que o território". Yitzhak Rabin chegou à mesma conclusão e, ridicularizado por Netanyahu, foi assassinado por um israelense messiânico fanático. O governo de Netanyahu é do tipo que não cede um centímetro.

"Chega um momento", disse Sanders, "em que, se perseguirmos a justiça e a paz, teremos de dizer que Netanyahu" comete erros.

Um número crescente de americanos comprometidos com a segurança de Israel e seu caráter judeu e democrático acredita que o momento é agora.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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