Opinião: Derrubando o mito da "Hillary desonesta"

Nicholas Kristof

  • Adrees Latif/Reuters

    20.abr.2016 - A pré-candidata à presidência dos EUA Hillary Clinton comemora a vitória nas prévias eleitorais do partido democrata em Nova York

    20.abr.2016 - A pré-candidata à presidência dos EUA Hillary Clinton comemora a vitória nas prévias eleitorais do partido democrata em Nova York

Depois da primária em Nova York, os sites de apostas na web estão dando a Hillary Clinton cerca de 94% de probabilidade de ser a nomeada democrata, e a Donald Trump uma chance de 66% de terminar como o nomeado republicano.

Mas o grande desafio de Hillary é o problema da confiança: a parcela de eleitores que têm sentimentos negativos em relação a ela subiu de 25% no início de 2013 para 56% hoje, e um motivo disso é que eles desconfiam dela. Só um pouco mais de um terço dos eleitores americanos consideram Hillary "honesta e confiável".

De fato, quando o Instituto Gallup pergunta aos americanos qual é a primeira palavra que vem a sua mente quando ouvem "Hillary Clinton", a resposta mais comum pode ser resumida como "desonesta/mentirosa/não confio nela/ladra/deve ser presa".

Tudo isso é uma narrativa enganosa, creio eu.

Um dos riscos do jornalismo é a tendência do cérebro humano a separar a informação em narrativas. Até as falsas narrativas podem ganhar vida própria porque sempre há novas informações que podem confirmar uma narrativa.

Assim, quando nós da mídia noticiosa declaramos Gerald Ford um "desajeitado" (na verdade ele era um atleta gracioso), sempre havia na televisão novas cenas dele tropeçando. De modo semelhante, injustamente transformamos Jimmy Carter em uma piada infeliz, e temo que a narrativa da "Hillary desonesta" se arrastará por muito mais tempo do que os fatos autorizam.

Essa é uma narrativa que remonta há muito tempo, e que este jornal ajudou a confirmar: meu falecido amigo e colega no "Times" William Safire apelidou Clinton em 1996 de "mentiroso congênito".

Mas eu acho que essa narrativa vai longe demais.

Um teste básico da honestidade de um político é se essa pessoa me diz a verdade quando está em campanha, e por esse critério Hillary se sai bem. O site de verificação de fatos PolitiFact, ganhador do prêmio Pulitzer, calcula que 50% das declarações de Hillary examinadas por ele são verdadeiras ou na maior parte verdadeiras.

Isso pode ser comparado com 49% de Bernie Sanders, 9% de Donald Trump, 22% de Ted Cruz e 52% de John Kasich. Aqui temos uma rara medida da integridade entre os candidatos, e ela sugere que, ao contrário das impressões populares, Hillary é relativamente honesta -- pelos padrões políticos.

É verdade, é claro, que Hillary está calculando -- todos os políticos estão, mas ela mais que alguns. Ela adaptou suas opiniões sobre o comércio e o salário mínimo para arrecadar votos, assim como Sanders adaptou sua opinião sobre as armas.

As posições de Sanders parecem menos testadas por grupos de opinião que as de Hillary, e ela pode ser irritantemente evasiva. Isso é em parte porque ela é mais agressiva que alguns democratas, e em parte porque ela percebe que provavelmente enfrentará os eleitores em novembro e está preservando espaço de manobra para que possa voltar ao centro na ocasião.

Isso a torna calculista e sem princípios? Talvez, mas sinônimos poderiam ser "pragmática" e "elegível". É isso o que os candidatos presidenciais fazem.

Depois há a questão de Hillary obter centenas de milhares de dólares com discursos no Goldman Sachs e em outras empresas. Para uma pessoa que pretende disputar a Presidência, isso foi loucura. Também criou potenciais conflitos de interesse, mas não há sinal de qualquer equívoco (em um sentido mais amplo, as empresas preenchem cheques para comprar acesso e influência, mas se isso é corrupto todo o nosso sistema de financiamento de campanha também é). Bill Clinton, Colin Powell e outras figuras proeminentes falaram por altos honorários, e Hillary pensou que também pudesse se safar com isso.

Jill Abramson, que passou décadas como jornalista investigando Hillary Clinton ou supervisionando investigações dela, e que certamente não é suave com os Clinton, concluiu em "The Guardian": "Hillary Clinton é fundamentalmente honesta e confiável".

Depois há os e-mails do Departamento de Estado, que são o alvo de uma investigação do FBI (Agência Federal de Investigação). O que ela estava pensando ao usar um servidor de e-mails privado? Por que no mundo faria uma coisa tão idiota?

Hillary tem pele fina, é privativa, controladora, ferida por ataques contra ela e totalmente desconfiada da mídia noticiosa. Onde Bill Clinton encanta, ela ferve. Minha aposta é que Hillary e sua equipe queriam impedir que seus e-mails fossem divulgados por meio de solicitações pela Lei de Liberdade de Informação.

Tudo isso são danos autoinfligidos, que Hillary Clinton reforçou com evasões e meias verdades, parecendo artimanhas de advogada. Uma política mais dotada poderia ter se safado, mas Hillary não é uma política natural. Sua afetividade pode se transformar em distanciamento na televisão, sua cautela em algo escorregadio.

Quanto à questão fundamental de se Hillary arriscou a segurança nacional dos EUA com seu servidor de e-mail, suspeito que o problema foi exagerado. Como colocou o presidente Barack Obama, "ela não ameaçou a segurança nacional dos EUA".

O servidor privado de e-mail de Hillary pode ter sido invadido pelos russos, embora não saibamos isso. Mas sabemos que o sistema de e-mail oficial não sigiloso do Departamento de Estado foi realmente invadido pelos russos, juntamente com o sistema de e-mail não sigiloso da Casa Branca.

Resultado final: se ela tivesse seguido as regras e usado seu endereço oficial de e-mail, Vladimir Putin poderia ter tido maior facilidade para ler sua correspondência.

Assim, conforme seguimos para o duelo na eleição geral, vamos denunciar as opiniões e posições políticas de Hillary, mas nos concentremos nas questões reais. Ela não é uma santa, e sim uma política, e para mim essa ideia de que é fundamentalmente desonesta é narrativa fraudulenta.
 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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