Europa questiona como monitorar os "falsos arrependidos" de integrar o EI

Adam Nossiter

Em Paris (França)

  • France Presse/Divulgação

    9.dez.2015 - Foto postada em 2014 no Facebook mostra Foued Mohamed Aggad, 23, que foi identificado como sendo o terceiro terrorista do ataque ao Bataclan, em Paris

    9.dez.2015 - Foto postada em 2014 no Facebook mostra Foued Mohamed Aggad, 23, que foi identificado como sendo o terceiro terrorista do ataque ao Bataclan, em Paris

Dez jovens muçulmanos, entediados com a vida mundana na França e assombrados por um "sentimento de inutilidade", como um deles colocou, foram seduzidos por um recrutador do Estado Islâmico na Europa em 2013. Em poucos meses, eles estavam na Síria sob os olhares vigilantes de militantes encapuzados e empunhando fuzis Kalashnikov, fazendo flexões, aprendendo a manusear as armas e sendo impregnados de ideologia.

Mas o regime austero não era do agrado deles, a maioria disse aos investigadores, e não demorou para que voltassem correndo para suas famílias na região de Estrasburgo, onde quase imediatamente foram pegos pelas autoridades francesas.

O que fazer com centenas, talvez milhares, desses homens jovens por toda Europa agora está entre os maiores desafios enfrentados pelos governos e serviços de segurança.

Após os ataques terroristas em Paris e Bruxelas, que foram realizados em parte por europeus que passaram algum tempo na Síria com o Estado Islâmico, a França e outros países estão discutindo o quão longe ir no endurecimento das leis para processar, monitorar e restringir os movimentos daqueles que retornam.

No coração do debate está a discussão sobre a possibilidade de adotar uma ação legal preventiva contra pessoas que não cometeram atos terroristas ou nem estiveram envolvidas em algum plano, mas que apenas estiveram na Síria e possivelmente receberam treinamento nos campos do Estado Islâmico.

Vários fatores urgentes provocaram o debate: o aumento do risco de ataques terroristas, o fato de o simples monitoramento do grande número de pessoas que retornam está sobrecarregando os serviços de segurança, e a dificuldade de montar processos contra os suspeitos que podem ter sido treinados e doutrinados em terras distantes.

Pelo menos 14 países europeus transformaram em crime o recebimento de treinamento terrorista. Nove transformaram em crime viajar para as zonas de guerra da Síria e do Iraque.

Na França, mais de 900 pessoas deixaram o país para serem jihadistas, transformando o país na maior fonte da Europa de combatentes estrangeiros. O governo agora está debatendo se permite prisão domiciliar mesmo em caso de apenas "motivos sérios para achar" que alguém esteve em uma zona de guerra no exterior.

Dois julgamentos envolvendo células jihadistas francesas foram realizados em Paris neste mês, com os réus de um deles recebendo sentenças de até 10 anos pela acusação de "conspiração criminosa visando a preparação de atos de terrorismo".

O estabelecimento de políticas para lidar com os jihadistas que retornam é apenas um exemplo de como a Europa, assim como os Estados Unidos depois dos ataques do 11 de Setembro, está sendo forçada a pesar preocupações de segurança contra as liberdades civis.

Antes mesmos dos ataques em Paris e Bruxelas, casos como o de Estrasburgo acentuavam as escolhas difíceis provocadas pelo retorno de cidadãos europeus da Síria.

Pelo menos 1.300 jihadistas europeus voltaram ao continente, e esses são apenas os identificados pela polícia. Um número três vezes maior de europeus pode ter ido para a Síria, com alguns retornando sem serem detectados, com consequências desastrosas.

Um membro do grupo de Estrasburgo, Foued Mohamed-Aggad, voltou depois dos outros e não foi detectado pelas autoridades. Ele acabou sendo um dos três assassinos na casa de espetáculos Bataclan em Paris, onde 90 pessoas foram mortas em 13 de novembro.

Dos nove outros de Estrasburgo de que se tem conhecimento que foram para a Síria, dois foram mortos lá em janeiro de 2014, mas sete retornaram, foram rapidamente presos em maio de 2014 e agora aguardam julgamento.

As transcrições dos interrogatórios posteriores são uma dança de negação de que pretendiam causar algum mal na Europa.

"Isso é um Islã radical, extremista, que não tem nada a ver com o Islã básico e que desaprovo", disse Karim, o irmão de Foued, aos investigadores, segundo os documentos que registram os interrogatórios.

Não há nenhuma política que cubra toda a Europa e, em alguns casos, os jihadistas que retornam não são levados imediatamente para a cadeia. Apesar de serem quase sempre colocados sob alguma forma de monitoramento, isso provoca grande estresse à polícia e aos serviços de inteligência.

São necessários 15 a 20 agentes por jihadista para vigilância constante, disse Magnus Ranstorp, do Colégio de Defesa Nacional da Suécia, um país para onde cerca de 80 retornaram. Na Bélgica, a maior fornecedora de jihadistas per capita da União Europeia, entre 50 e 120 retornaram.

Mas após os ataques recentes, e com o Estado Islâmico prometendo mais ataques terroristas, o período de relativa frouxidão acabou, disseram analistas.

"Eles serão presos e evidência será obtida", disse Edwin Bakker, diretor do Centro para Terrorismo e Contraterrorismo da Universidade de Laiden, na Holanda.

Mais processos estão sendo abertos preventivamente, mesmo quando há pouca evidência de um plano, como mostram exemplos franceses.

Mas os casos em Estrasburgo ilustram as dificuldades de montar um processo.

O grupo de Estrasburgo, todos homens na faixa dos 20 anos, se encontrava em bares de narguilé e restaurantes fast food. Eles incluíam um entregador de comida, um frentista de posto de gasolina, um professor de educação física, vários desempregados e um autor de pequenos delitos.

A partida deles para a Síria, em dezembro de 2013, foi bastante divulgada. Logo, quando retornaram, entre fevereiro e abril de 2014, a agência de segurança interna da França, a DGSI, sabia quem procurar e onde.

Após o retorno deles, os investigadores ficaram na escuta e observando, finalmente agindo em 13 de maio de 2014, no mesmo bairro de classe trabalhadora do qual partiram.

Aos olhos das autoridades, o crime deles foi simples: serem alistados por um conhecido recrutador francês, viajarem para a Síria e para refúgios e centros de treinamento do Estado Islâmico, treinarem no uso de fuzis Kalashnikov e outras armas, e retornarem à França.

Mas em seus interrogatórios, nenhum dos homens admitiu ter feito algo errado e vários insistiram que foram para a Síria por razões humanitárias.

Os sete suspeitos de Estrasburgo retratam a si mesmos como arrependidos de terem feito a viagem à Síria.

"Não fui criado com essa forma de pensar e sou totalmente contrário a ela", disse um dos homens, Miloud Maalmi, aos interrogadores em 2014.

"Quando estava lá, eles me mantiveram isolado e me submeteram a coisas realmente abomináveis", disse Maalmi. "Eu quero virar a página."

Outro deles, Radouane Taher, disse: "Assim que cheguei lá, percebi rapidamente em que encrenca tinha me metido e que me envolvi com um bando de loucos".

Até mesmo escapar foi um risco, disse Karim Mohamed-Aggad. "Cada um de nós precisou jogar jogos para poder fugir do país, porque nossas vidas estavam em risco", ele disse.

Mas os investigadores disseram ter encontrado fotos no Facebook, nos telefones e computadores mostrando alguns dos homens posando com a bandeira do Estado Islâmico, usando equipamento militar e empunhando fuzis. Também havia fotos de cadáveres decapitados, disseram os investigadores.

É difícil dizer a partir das respostas brandas nas transcrições quão radicalizados os suspeitos se tornaram, apesar dos investigadores terem conseguido pegá-los dando respostas inconsistentes e evasivas.

"Este interrogatório contradiz os dois anteriores; não há lugar nesta parte da história para 'humanitarismo'", apontaram os investigadores em seu resumo das declarações de Ali Hattay, outro suspeito.

Juristas franceses de mentalidade liberal criticaram o que chamam de "criminalização das intenções". Mas a França permanece sob estado de emergência após os ataques de 13 de novembro.

"As pessoas que retornarem agora provavelmente serão caçadas", disse Bakker, do Centro para Terrorismo e Contraterrorismo.

"A abordagem geral é realmente tentar condenar essas pessoas", ele acrescentou. "No passado havia a postura de deixar passar. Mas realmente passamos dessa fase."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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