Destruída pela guerra síria, Aleppo oscila entre vida "normal" e bombardeios

Declan Walsh

Em Aleppo (Síria)

  • Ameer Alhabi/AFP

    28.abr.2016 - Família anda no meio de edifícios destruídos após bombardeio em Aleppo

    28.abr.2016 - Família anda no meio de edifícios destruídos após bombardeio em Aleppo

Na borda da antiga cidadela de Aleppo, Zahra e sua família estavam agachados em um apartamento que já foi imponente, mas hoje está diante das linhas rebeldes. Folhas plásticas cobriam as janelas altas para ocultar o espaço da visão de um franco-atirador. Bombas ecoavam à distância.

Zahra, 25, que só quis dar seu prenome, olhava alternadamente para duas fotos em seu telefone. A primeira era de seu marido, um soldado do Exército sírio e pai de seu filho, ainda em gestação. "Estou de sete meses", disse ela, tocando a barriga.

Na segunda foto, seu marido está esparramado no chão, com sangue escorrendo do nariz. Há dois outros soldados caídos ao seu lado. Ele morreu há duas semanas. "Que os homens que fizeram isso também morram", disse Zahra com uma tranquila determinação.

Quatro anos de guerra endureceram os corações em Aleppo, uma cidade dividida e cenário de lutas impiedosas na última semana.

Uma trégua frágil, negociada pelos EUA e a Rússia, desmoronou na Síria, levando à pior violência em muitos meses. Jatos de combate russos rugem pelo céu, atacando alvos nas áreas ocupadas por rebeldes. Estes disparam rodadas de morteiros e mísseis caseiros que caem em bairros populosos. A guerra atiçou as tensões sectárias e se tornou uma batalha por interesses regionais e globais.

A maior parte dos mortos são civis --pelo menos 202 na semana passada, cerca de dois terços em áreas nas mãos de rebeldes no leste e as restantes no lado controlado pelo governo, a oeste, segundo grupos que monitoram as baixas. A violência mostra "uma monstruosa desconsideração pela vida dos civis", declarou na sexta-feira (29) o chefe de direitos humanos da ONU, Zeid Ra'ad al-Hussein.

Uma das cidades mais antigas do mundo, Aleppo é conhecida há séculos como uma encruzilhada de impérios, com influências otomanas, armênias, judaicas e francesas. Hoje a única maneira de entrar, no lado do governo, é por uma estrada solitária que corta território hostil: uma faixa de asfalto esburacado que passa por aldeias desertas e destacamentos isolados do governo.

Eu viajava com meu intérprete e um monitor do governo sírio. O tráfego se movia em ritmo rápido: rebeldes sírios detinham território a leste da estrada e militantes do Estado Islâmico, a oeste.

Nossa primeira visão de Aleppo foi de seus bairros arrasados, no sul --uma vista de devastação que se tornou uma imagem familiar no conflito que já dura tantos anos na Síria.

Como muitas zonas de guerra, outras partes se agitavam com uma aparente normalidade. Guardas de trânsito orientavam os veículos, crianças sorridentes saíam das escolas e compradores lotavam as lojas de comida e perfumes artesanais. A população parecia estranhamente imune ao ruído das explosões ao fundo --surdos, roucos ou estridentes--, que constituem um metrônomo mortal em sua existência cotidiana.

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Essa atitude descontraída, porém, é pouco mais que uma espécie de roleta cansada da guerra. A morte assobia, na forma de morteiros e foguetes, e pode cair do céu em qualquer canto da cidade a qualquer momento. Durante nosso primeiro jantar, em um restaurante caro, fomos assustados pelo disparo de um foguete, seu motor roncando segundos antes do lançamento, aparentemente de um parque próximo.

O enorme bazar medieval da cidade velha, considerado um dos melhores do mundo árabe --e um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco--, hoje é uma terra de ninguém. Em uma rua deserta, uma mulher de uniforme militar, sentada em um abrigo antiaéreo, contou que antes cuidava de tigres no zoológico da cidade. A mulher, que usa o nome de guerra Rose Abu Jaffer, fez fotos de si mesma sendo lambida por um leão, com uma serpente enrolada no pescoço, ao lado de um urso e com um filhote de tigre segurando sua cabeça com as duas patas. "Esse é o Docinho", disse ela, apontando para o filhote. "Meu bebê."

Sua carreira de nove anos como tratadora no zoológico foi interrompida quando os rebeldes ocuparam o lugar há quatro anos, levando-a a aderir à luta, disse ela. Hoje é uma combatente na linha de frente.

A posição rebelde mais próxima, explicou Rose, estava a cerca de 30 metros --agora em silêncio, o que provavelmente não duraria. "Eles só têm coragem de sair à noite", disse ela. "São como morcegos, morcegos covardes."

Um projétil se chocou com um prédio próximo, com um estouro ensurdecedor. Um veículo passou em disparada pela rua, dirigido por um soldado. Jaffer não se moveu, mas aconselhou que eu e meu intérprete saíssemos dali.

Apesar de a revolta na Síria ter começado como um protesto contra o governo autoritário do presidente Bashar al Assad, cuja família governa o país há 46 anos, ela instigou as tensões sectárias e disputas históricas que já duram séculos.

A maior parte da população armênia da cidade, conhecida por seus ourives, fugiu para a Europa ou o Canadá. Muitos dos que ficaram são defensores fiéis de Assad, que consideram sua única esperança contra os combatentes islâmicos, que não os deixariam viver em paz.

O reverendo Iskander Assad, um sacerdote ortodoxo-grego, vive em Maidan, um bairro na linha de frente que hoje está semideserto. Na véspera, um morteiro atingiu sua casa, abrindo um grande buraco no teto. Sua mulher chorou a noite toda, segundo disse, mas ele não estava interessado em gestos de simpatia. "Desculpas não adiantam", disse. "Precisamos de uma solução. Desculpas não resolvem nada."

Iskander Assad nos conduziu pelos cinco andares de escadas até seu apartamento no último andar. "A trégua foi um erro", disse, referindo-se ao cessar-fogo ineficaz, enquanto observava uma sala cheia de entulho e poeira.

"O que nós ganhamos com isso?", perguntou. "Os terroristas agora vêm em grupos maiores, com armas mais sofisticadas. Essa gente é mercenária. Eles tiveram tempo para se reagrupar, e agora somos nós que sofremos --não eles."

Nenhum lado tem o monopólio do sofrimento, ou da culpa, na terrível guerra na Síria.

O presidente Assad enfrentou novas acusações de crimes de guerra depois dos ataques aéreos que atingiram o hospital de Al Quds, no lado rebelde de Aleppo, na noite de quarta-feira (27). Na sexta, socorristas disseram ter retirado 55 corpos dos destroços, incluindo 29 crianças e mulheres, algumas das quais estavam em trabalho de parto, segundo um grupo de ajuda. A Médicos Sem Fronteiras, que vinha cuidando do hospital, denunciou o bombardeio como "abominável".

O desrespeito pela vida civil é universal. Na quinta-feira (28), depois do ataque ao hospital, choveram foguetes rebeldes em todos os bairros controlados pelo governo em Aleppo, em uma barragem de artilharia que custou dezenas de vidas.

Táxis e ambulâncias freavam ruidosamente diante do hospital Al Razi, enquanto familiares desesperados corriam, carregando pessoas ensanguentadas e cobertas de poeira, muitas delas crianças, para o pronto-atendimento.

No dia seguinte, forças do governo atingiram três instalações médicas no leste da cidade.

Ninguém tem certeza de quanto resta da população de Aleppo anterior à guerra, de 2 milhões de pessoas. Muitas já fugiram para a Europa, o Líbano ou outras partes da Síria. Os que ficaram se arranjam com sistemas improvisados de eletricidade e água. Qualquer escalada no combate traz o potencial de um "desastre humanitário", advertiu Valter Gros, que dirige o Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Aleppo.

"Está muito pesado nestes dias", disse ele. "Cada um sente a coisa de maneiras diferentes."

Nossa entrevista terminou quando um morteiro caiu em uma rua próxima, sacudindo as janelas do escritório de Gros. Ele nos levou, com sua equipe, para uma área segura no centro do edifício --o antigo consulado turco--, onde esperamos durante dez minutos. Mas assim que ousamos sair outra explosão ecoou.

Alguns moradores de Aleppo estão decididos a levar sua vida adiante. Horas depois, cerca de cem jovens se reuniram em um restaurante para uma animada festa de casamento. O sol da tarde penetrava pelas paredes de vidro enquanto os convivas, muitos usando túnicas, comiam frutas servidas em bandejas, fumavam narguilé e dançavam "dabke", a dança folclórica tradicional --incapazes de ouvir os ocasionais estouros lá fora, abafados pela música.

"Há a guerra e há a vida", disse Omar Hretani, 21, um estudante de economia e padrinho do casamento. "Temos dois corações neste país --um para a dor e outro para a alegria. Tudo tem sua própria história."

O restaurante se chama Matryoshka --as bonecas russas que se encaixam--, em um sinal dos antigos laços comerciais da cidade com a Rússia. Após quatro anos de guerra, os alepanos aprenderam a levar a vida em frente, disse o gerente do lugar, Nadim Bsata, 27, que também havia ficado noivo na véspera.

Uma hora depois, porém, houve uma lembrança dos perigos do governo linha-dura de Bashar al Assad. Um esquadrão de homens da inteligência militar, vestidos de preto, parou diante do restaurante, agarrou Bsata pela camisa e o censurou por permitir que seus clientes cantassem e dançassem em um dia de tamanha violência.

A conversa passou para uma mesa no terraço, onde Bsata garantiu ao comandante que apoiava totalmente os soldados. "Não quero deixar que terroristas destruam a cidade", disse ele. "Vocês devem matá-los e permitir que nós vivamos."

Aparentemente satisfeito com a resposta, o comandante beijou Bsata nas duas faces e saiu. No andar de cima, a festa de casamento continuou pela noite afora --mesmo enquanto bombas caíam nas ruas, algumas bem perto do Matryoshka.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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