Cidadãos sofrem enquanto líderes disputam divisão territorial no Sudão do Sul

Jacey Fortin

Em Terekeka (Sudão do Sul)

  • Carl De Souza/AFP

    21.abr.2016 - Crianças brincaram na carcaça de um avião de combate em Juba, Sudão do Sul, país que enfrenta uma guerra civil

    21.abr.2016 - Crianças brincaram na carcaça de um avião de combate em Juba, Sudão do Sul, país que enfrenta uma guerra civil

À sombra de uma loja de equipamentos de pesca à beira do rio, um grupo de jovens tem pouco a fazer além de conversar, tomar leite açucarado e esperar caminhões que chegam raramente.

Alfred Lado, 29, e seus amigos costumavam ganhar dinheiro descarregando produtos transportados de Juba, a capital do Sudão do Sul, a cerca de 80 km ao sul. Mas desde que começou a guerra civil, em dezembro de 2013, o comércio foi interrompido e os caminhões se tornaram escassos.

"Não há empregos, nem boa comida e nada para trabalhar", disse Lado.

A guerra brutal custou dezenas de milhares de vidas e desalojou mais de 2 milhões de pessoas. Mas em abril Riek Machar, o líder rebelde e ex-vice-presidente do Sudão do Sul, voltou a Juba para se tornar vice de seu antigo rival na guerra, o presidente Salva Kiir, como parte de um governo de transição.

Essa frágil paz poderia trazer os comerciantes de volta a Terekeka. Mas primeiro os dois lados que estavam em guerra devem concordar sobre o que é Terekeka: um município ou um Estado.

As partes aceitaram um acordo de paz em agosto, mas Kiir atrapalhou sua implementação em outubro, quando anunciou a formação de 28 Estados, em vez dos dez que existiam antes. O Estado da capital, Central Equatoria, por exemplo, foi dividido em Yei, Jubek e Terekeka.

Os rebeldes reclamaram, afirmando que Kiir dividiu a terra de maneira que favoreceu os membros do grupo étnicodinka, do qual ele faz parte.

Mas o presidente agiu depressa para tornar seu decreto realidade. Governadores e ministros foram nomeados em dezembro para administrar cada um dos novos Estados, apesar de o número de autoridades e funcionários públicos do Sudão do Sul já ser enorme. Devido a um forte declínio na receita do petróleo nos últimos anos, a maioria dos funcionários do governo não recebe há meses.

O decreto presidencial deixou Terekeka em um limbo. Membros do que costumava ser o governo do município ainda percorrem as estradas empoeiradas em um barulhento comboio de veículos 4x4, enquanto os civis lutam para sobreviver com pequenos terrenos, sem saber quais autoridades representarão seus interesses.

Terekeka, que ocupa cerca de 10 mil km2, também é o lar do grupo étnicomundari, cujos membros são conhecidos por dependerem do gado ankole-watusi, espécie de bois grandes com longos chifres curvos.

Os agricultores, que vivem em pequenas cabanas de barro sem eletricidade, queixam-se de que suas colheitas de sorgo, amendoim e feijão têmsido magras depois das chuvas decepcionantes. E com o aumento da inflação os preços dos produtos básicos estão subindo depressa demais para as famílias acompanharem. A pobreza, a insegurança alimentar e a mortalidade infantil crescem sem freios em todo este país cronicamente subdesenvolvido.

Lado gostaria que Terekeka continuasse sendo um Estado, mas hesita em endossar totalmente essa ideia. "Ainda não é reconhecido pela comunidade internacional", disse ele. "Não sabemos se a decisão do presidente será revertida."

Desde 2011, quando o Sudão do Sul se tornou o mais jovem país do mundo, Terekeka teve muitos conflitos sobre recursos, muitas vezes colocando em confronto os mundari e os dinka e outros grupos étnicos.

A capital, Terekeka, fica a três horas de carro de Juba, ao longo de uma estrada de terra esburacada. Ela fica exatamente a oeste de onde o rio Nilo Branco se divide em uma série de tributários, e é o ponto médio entre a capital e a cidade de Bor, marcada por conflitos.

A principal atração da cidade não é mais o campo de futebol. Mundaris e dinkas se misturam aqui, mas muitas das pequenas lojas são dirigidas por estrangeiros, como ugandenses e etíopes. Os restaurantes locais servem principalmente pão e feijão, embora às vezes não tenham nada.

Os únicos prédios de substância pertencem ao governo, ostentando bandeiras que se penduram imóveis no ar parado.

Eles incluem as escolas primárias de blocos de cimento à beira da cidade, onde uma equipe dedicada de professores luta para adaptar o currículo árabe para o inglês. Eles dizem que não têmideia de quando seus salários atrasados serão pagos.

O novo governador, Juma Ali Malou, tem um escritório com ar-condicionado em Juba e fica em uma hospedaria quando visita Terekeka. Ele diz que a área tem potencial para exploração de petróleo e desenvolvimento agrícola. Ele também imagina transformar a cidade à margem do rio em atração turística, apesar de ela não ter infraestrutura, estradas pavimentadas ou eletricidade, exceto de geradores privados.

O vice-governador e o ministro da Informação renunciaram em maio, acusando Ali de nepotismo e malversação de fundos.

Durante a guerra civil do Sudão do Sul, Terekeka experimentou conflitos por apenas alguns dias. Ela foi poupada da escala de atrocidades que atingiram Juba, onde começou o conflito, e Bor, onde batalhas territoriais levaram a massacres de civis.

Mas nos últimos meses o anúncio da condição de Estado causou problemas aqui. Em 7 de maio, uma cerimônia de hasteamento da bandeira em Mongalla, um município que faz fronteira com Terekeka mas hoje fica dentro dos limites de Jubek, foi interrompida por atacantes armados, em uma disputa territorial. Quatro pessoas morreram.

Os seguidores de Kiir continuam firmes. James Mori, 37, um agricultore funcionário público, afirmou que um sistema de governo localizado poderia tornar as autoridades mais responsáveis. "Se o governo for grande no topo e pequeno embaixo, não é bom", disse ele.

Por enquanto, a ONU não reconhece formalmente os 28 Estados, disse Ellen Margrethe Loj, chefe da missão da ONU no Sudão do Sul.

"Está muito claro que há desafios em todo o país em relação a como as fronteiras foram traçadas na proposta de 28 Estados, e isso levou a tensões étnicas", acrescentou ela, destacando as áreas ao redor de Malakai, no norte.

Caberá ao governo transitório chegar a um acordo sobre esses limites. Uma comissão de 15 membros foi formada este mês para decidir sobre a divisão dos Estados até o início de julho.

Mas a confusão ainda reina. Defensores do presidente dizem que a comissão só existe para redesenhar os limites dos 28 Estados, enquanto os adversários afirmam que um retorno ao sistema de dez Estados está sobre a mesa.

Os moradores de Terekeka esperam que quem ficar no comando de sua área traga o desenvolvimento logo."As pessoas comuns estão muito felizes com a criação deste Estado", disse Mori. "Mas os políticos no alto não se importam com a população aqui. Eles estão complicando tudo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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