Como a Arábia Saudita cultiva terroristas em países pacíficos, como Kosovo

Nicholas Kristof

Em Peja (Kosovo)

  • Visar Kryeziu/AP

    Homem reza em mesquita no Kosovo

    Homem reza em mesquita no Kosovo

Primeiro, três perguntas:

Que país muçulmano celebra como herói nacional um cristão do século 15 que combateu os invasores muçulmanos?

Que país muçulmano é tão pró-Estados Unidos a ponto de ter uma estátua de Bill Clinton e uma loja de roupas femininas chamada "Hillary" no Bill Klinton Boulevard?

Que país muçulmano conta com mais cidadãos per capita que partiram para o exterior para lutar pelo Estado Islâmico do que qualquer outro na Europa?

A resposta para as três perguntas é Kosovo, no sudeste da Europa, e aí há uma história de alerta. Sempre que ocorre um ataque terrorista de autoria de extremistas islâmicos, nós olhamos para nossos inimigos, como o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda. Mas talvez devêssemos olhar para nossos "amigos", como a Arábia Saudita.

Por décadas, a Arábia Saudita financiou e promoveu de forma imprudente a versão wahabista austera e intolerante do Islã por todo o mundo, consequentemente produzindo terroristas. E não há melhor exemplo dessa imprudência saudita do que nos Bálcãs.

Kosovo e Albânia eram modelos de moderação e tolerância religiosa, e como a estátua de Clinton atesta, os kosovares reverenciam os Estados Unidos e o Reino Unido por terem evitado um possível genocídio pelos sérvios em 1999. (Há muitos adolescentes kosovares chamados Tony Blair!). Mas a Arábia Saudita e outros países do Golfo despejaram dinheiro na nova nação nos últimos 17 anos e nutriram o extremismo religioso em uma terra onde originalmente havia pouco.

O resultado final é que, segundo o governo de Kosovo, 300 kosovares viajaram para lutar na Síria ou no Iraque, a maioria para se juntar ao Estado Islâmico. Como minha colega Carlotta Gall notou em um artigo pioneiro sobre a radicalização aqui, o dinheiro saudita transformou uma sociedade muçulmana antes tolerante em uma produtora de jihadistas.

Em um sinal dos tempos, no ano passado o governo teve que suspender temporariamente o fornecimento de água para a capital por temor de que o Estado Islâmico tivesse envenenado a água da cidade.

"A Arábia Saudita está destruindo o Islã", me disse com tristeza Zuhdi Hajzeri, um imã de uma mesquita de 430 anos aqui na cidade de Peja. Hajzeri é um moderado no estilo tradicional tolerante de Kosovo (ele é o mais recente de uma longa linhagem de imãs em sua família), e disse que, consequentemente, ele tem recebido mais ameaças de morte por extremistas do que pode contar.

Hajzeri e outros moderados responderam com um site na internet, Foltash.com, que critica a interpretação severa wahabista saudita do Islã. Mas eles dizem que são sobrepujados pelo dinheiro proveniente da Arábia Saudita, Kuait, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, que apoiam versão severas do Islã por meio de uma enxurrada de publicações, vídeos e outros materiais.

"Os sauditas mudaram completamente o Islã aqui com seu dinheiro", disse Visar Duriqi, um ex-imã em Kosovo que se tornou jornalista e escreve sobre as influências extremistas. Duriqi cita a si mesmo como exemplo: ele disse que sofreu lavagem cerebral e passou por uma fase extremista, na qual pedia pela imposição da lei Shariah e pelo uso da violência. Essas posições agora o horrorizam.

Este não é um problema de Kosovo, mas um problema global. A primeira vez que encontrei a perniciosa influência saudita foi no Paquistão, onde as escolas públicas são uma desgraça e os sauditas preencheram a lacuna financiando madrassas linhas-duras, que atraem alunos por serem gratuitas, oferecerem refeições de graça e bolsas de estudo completas para que os melhores alunos estudem no exterior.

Igualmente, em países tradicionalmente moderados e pacíficos, como Mali, Burkina Faso e Níger, no oeste da África, vi essas madrassas com financiamento estrangeiro introduzirem interpretações radicais do Islã. Nos Bálcãs, a Bósnia é particularmente afetada pelo apoio do Golfo aos extremistas.

Não quero exagerar. Vi menos lenços de cabeça em minha viagem pela Macedônia, Kosovo e Albânia do que vejo em Nova York, e qualquer jihadista arrancaria os cabelos ao ver mulheres com cabeças e ombros descobertos, sem falar de usando shorts.

Ainda há pilares de sentimento pró-americano e ecumenismo (há uma grande reverência entre os muçulmanos albaneses por Madre Teresa, que era albanesa). Além disso, após uma série de prisões de imãs radicais em Kosovo e na Albânia, a situação pode ter estabilizado, e os jihadistas não mais partem daqui para a Síria.

Mas o mundo precisa ter uma conversa dura com a Arábia Saudita sobre seu papel. Não se trata de estar disseminando intencionalmente o caos, mas sim se comportando de modo temerário. Ela obteve algum progresso na coibição do financiamento ao extremismo, mas de forma lenta demais.

Isso é particularmente desanimador porque grande parte do financiamento ao extremismo vem de caridade: um dos aspectos mais admiráveis do Islã é a ênfase na caridade, mas em países como a Arábia Saudita, esse dinheiro não é direcionado ao combate à desnutrição ou à mortalidade infantil, mas para realizar lavagem cerebral nas crianças e semear conflito em países pobres e instáveis.

Eu perguntei a Hajzeri, o imã, se ele se preocupava com as ameaças estrangeiras ao Islã, como o cartunista dinamarquês que zombou do Profeta Maomé. "Cartunistas podem apenas nos chatear", ele bufou. "Mas manchar a reputação do Islã? Isso não é o obra de cartunistas. Isso é o que a Arábia Saudita está fazendo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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