Você gastaria US$ 800 em um corte de cabelo? Alguns homens em Nova York gastam

Laura M. Holson

Quando os parisienses descobriram na semana passada que o presidente François Hollande pagava a seu cabeleireiro mais de US$ 10 mil (R$ 32,5 mil) por mês para cortar seu cabelo, o espantou correu desde Montmartre até o Marais. As madeixas de um chefe de Estado não causavam tanta celeuma desde que o presidente Bill Clinton fechou duas pistas de um aeroporto em 1993 para um corte de US$ 200 a bordo do Air Force One.

Mas à medida que a manutenção masculina foi tomando o mesmo caminho que a feminina, com Botox, tratamentos faciais e depilação, bem, lá embaixo, também foi aumentando o preço de um corte de cabelo.

Pergunte a Tim Rogers, um cabeleireiro do estúdio de Sally Hershberger, no centro de Nova York, que cobra um mínimo de US$ 400, chegando a até US$ 800, por um corte masculino ultimamente.

Ele voa regularmente de helicóptero até os Hamptons para cuidar de uma panelinha de gestores de hedge funds e banqueiros de investimentos, visitou a casa de uma celebridade às 22h e também tem uma coleção de clientes que vão até o salão, entre eles o campeão de tênis Roger Federer e John Kennedy Schlossberg, neto do ex-presidente.

"Eu defendo a ideia de que os preços para os homens devem ser os mesmos que para as mulheres", disse Rogers na semana passada, em uma entrevista a partir de sua casa em Connecticut.

Segundo ele, muitas vezes os homens são mais exigentes que as mulheres. "A principal necessidade é a consistência", disse. "Você precisa estar disponível a qualquer hora, em qualquer lugar." Mesmo que isso signifique estar à disposição 24 horas por dia. "Não existe hora ruim para eles", ele diz sobre seus clientes. "E tudo tem um preço."

O estrelado cabeleireiro Frédéric Fekkai chocou as pessoas no final dos anos 1990 quando começou a cobrar US$ 300 por um corte feminino. Por volta de meados dos anos 2000, ele foi suplantado por Hershberger, famosa pelo corte de 'esfregão' de US$ 600 que definia o estilo desencanado de Meg Ryan na época. Mas foi só nos últimos anos que o custo de um corte masculino se equiparou ao feminino.

Hoje em dia não é raro em Nova York que sejam cobrados US$ 300 por um corte de cabelo em um salão famoso. E isso não inclui reflexos, alisamento ou finalizadores.

Martial Vivot, um ex-parisiense que fundou o Salon Pour Hommes em 2008, cobra US$ 320 por um de seus cortes característicos. Ele contou ter visto recentemente um cliente seu ensacando compras no Whole Foods, mercado que vende alimentos orgânicos e saudáveis, de Columbus Circle. "Eu pensei, 'Caramba'. Pensei se ele tinha condições de pagar pelo corte."

Lakshman Achuthan, diretor de operações do Economic Cycle Research Institute, cuida de seu cabelo curto com April Barton, famosa pelas madeixas repicadas de roqueiros do centro de NY. Ele diz que paga pouco menos que a tarifa normal de US$ 300, por visitar o salão a cada quatro semanas, mais ou menos. "Estou bem longe de ser um Hollande", ele disse. "Não me considero um gastador extravagante."

Ele é seu cliente desde os anos 1990 e disse que pede pelos conselhos de Barton tanto quanto pelo corte de suas tesouras. "Dez anos atrás ela me disse que eu estava perdendo cabelo", ele explicou recentemente em uma tarde, observando que hoje em dia há muito menos o que cortar. "Ela disse: 'Contanto que você o mantenha limpo e não ganhe peso, estará bem'."

Achuthan aparece frequentemente na televisão, o que significa que ele sempre deve estar preparado para as câmeras. "Acho que seria fácil para alguém que tem cabelo curto simplesmente raspar com a máquina", ele disse. "Mas assim como todo nova-iorquino, somos muito ocupados e não queremos que dê algo de errado."

Barton disse que embora esteja tendo um boom de barbearias de luxo, homens com cabelos mais longos ou rebeldes costumam se dar melhor com um serviço mais cuidado. "A maioria dos barbeiros não parecem ser muito hábeis em penteados", ela disse.

Ela já ensinou a banqueiros de investimentos como cobrir os cabelos grisalhos. Na semana passada, ela teve um cliente que pagou US$ 670 por um corte, alisamento e tonalizante para restaurar a cor. E isso não incluiu produtos e uma generosa gorjeta. "O tipo de cara que paga isso são empresários do setor de tecnologia", ela disse.

Rogers, do salão de Sally Hershberger, diz que Federer, que corta com vários cabeleireiros pelo mundo todo, tem uma atitude tranquila em comparação com outros clientes. "Tem muito mais a ver com o que Mirka quer", ele conta, referindo-se à mulher de Federer. "Ele não quer o cabelo caindo nos olhos". Ele diz que Federer "adora seu cabelo. E eu o adoro."

Mas pagar US$ 10 mil por mês a um cabelereiro não é meio ridículo, falando sinceramente? Por décadas, muitos banqueiros da Goldman Sachs cortaram seu cabelo com Salvatore Anzalone, um barbeiro italiano com um salão no saguão do Hotel Conrad, nas redondezas. Ele cobra US$ 30 por um corte seco. (Shampoo custa US$ 7 a mais).

Até que não, diz Vivot. "A França é a capital da moda, e ele é presidente do país", ele diz de Hollande. O cabelereiro fica à sua disposição, como um médico. "Talvez se estivesse na Coreia, ele só teria um corte escovinha", diz.

Robin Capili, um cabeleireiro do salão de Sally Hershberger que teve sua formação em uma barbearia (e que cobra um preço relativamente mais acessível,  de US$ 200), disse que nunca gastaria US$ 10 mil por mês. "Eu investiria em imóveis", disse. "Talvez um apartamento em um condomínio".

Um de seus clientes, Drew O'Connell, que vive em Dallas, disse que US$ 800 também seria um exagero. Mas depois de fazer as contas de um voo para Nova York a cada seis semanas (cerca de US$ 400) e outros custos, ele ri. "Sei lá", diz. "Só não quero pensar nisso."

Barton diz que em determinado momento ela teve vontade de cuidar do cabelo do candidato republicano à presidência, Donald Trump. Mas agora, diz, "Não quero nem vê-lo."

Trump dedicou uma parte de seu livro "Trump: Como Ficar Rico" para "A Arte do Cabelo", onde ele fala sobre sua filosofia capilar. Ele escreve que se ficasse careca, arrumaria uma peruca. "Nunca disse que meu cabelo era meu ponto forte", ele disse.

É pouco provável que ele vá visitar Barton tão cedo.

Tradutor: UOL

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