Opinião: Nicolas Sarkozy está de volta, mas a França mudou

Sylvie Kauffmann*

Em Paris (França)

  • Christophe Ena/AP

Será que o país realmente deseja um divisor incendiário combatendo seus incêndios?

Um dos itens mais populares nas redes sociais quando Nicolas Sarkozy lançou sua nova candidatura presidencial, no mês passado, foi um vídeo de uma entrevista que ele deu ao canal de notícias francês "BFM-TV", em 8 de março de 2012. Ainda presidente na época, Sarkozy estava buscando um segundo mandato de cinco anos, tendo François Hollande como adversário. Ao ser perguntado se abandonaria a política caso fosse derrotado, ele respondeu firmemente que sim. O jornalista ficou surpreso. "Você abandonará a política?" ele perguntou de novo, incrédulo. "Pode me perguntar uma terceira vez", respondeu o presidente. "Estou lhe dizendo: sim."

Quatro anos depois, "Sarko" está de volta. Assim como seu entrevistador naquele dia, ninguém na França acreditou que aquele homem, que admitiu em 2003 que pensava o tempo todo em concorrer à presidência, conseguiria viver sem a adrenalina de uma vida na política. Em 2012, ele precisou de alguns poucos meses para se recuperar da derrota, mas logo estava manobrando para retomar seu partido de direita, o rebatizando de Les Républicains e colocando seu pessoal no comando. Em um livro publicado em janeiro, "La France por la vie" (A França por toda a vida, em tradução livre, não lançado no Brasil), um Sarkozy aparentemente humilde reconheceu alguns erros e tentou retratar a si mesmo como um novo homem. Essa foi o primeiro passo de sua campanha.

Um segundo livro, publicado na semana passada, "Tout pour la France" (Todos pela França, em tradução livre, não lançado no Brasil), serviu como trampolim para início formal de sua candidatura para a eleição presidencial de abril do ano que vem. Escrito em julho na privacidade da mansão na Riviera de propriedade de sua mulher, Carla Bruni, tão às pressas que erros ortográficos foram ignorados, o livro argumenta que Nicolas Sarkozy tinha que voltar, por um simples motivo: a França precisa dele, assim como a França precisou de Charles de Gaulle em 1958.

De certa forma, isso é tranquilizador: ele não mudou. A imagem do político humilde e apologético teve curta duração, ainda mais por não ter lhe ajudado nas pesquisas de opinião. É melhor voltar ao original. O Sarko que conhecíamos está de volta com força total.

Não é fácil concorrer de novo após ter sido removido do cargo por uma maioria clara dos eleitores (ele perdeu para Hollande por mais de três pontos percentuais). Nem é fácil concorrer de novo quando todas as pesquisas desde sua volta à política mostram uma intensa rejeição entre um grande grupo de eleitores e um percentual elevado de opiniões negativas. Mas uma coisa que Nicolas Sarkozy, 61, não carece é de ambição política. Por mais impopular que seja, ele fará tudo o que for necessário para voltar.

A luta será mais difícil desta vez, apesar da péssima posição do presidente Hollande nas pesquisas de opinião. O problema de Sarkozy é que precisa primeiro vencer uma primária em novembro. Ele não é mais o campeão da direita, mas sim o desafiante: seu ex-ministro das Relações Exteriores, Alain Juppé, 71 anos, lidera na primária. E um ex-primeiro-ministro, François Fillon, que também está concorrendo, está crucificando seu ex-chefe por se comparar a De Gaulle. ("Você consegue imaginar De Gaulle sob investigação?" ele atacou recentemente, em uma referência às antigas acusações contra Sarkozy de financiamento ilegal de campanha.)

Logo, por que a França precisaria de Sarkozy em 2017 se não o quis em 2012? Por que, como ele explica em seu novo livro, este não é mais o mesmo país. O argumento é de que a situação criada pela recente onda de ataques terroristas exige um homem forte e experiente no comando. "Sinto que tenho a força para liderar esta batalha em um momento tão atormentado de nossa história", ele escreveu. Alguns viram no título "Todos pela França" uma referência ao livro escrito por Jacques Chirac para sua campanha de 1995, "La France pour tous" (França para todos, em tradução livre). Ao inverter a proposta, Sarkozy espera que seu novo espírito patriótico apague as más lembranças que deixou, de seu ego obsessivo, sua arrogância, sua bravata e belicosidade.

Ele terá sucesso? Convencido de que a eleição do ano que vem será disputada na direita, em vez de no centro, o ex-presidente está fazendo uma alta aposta. A questão Nº 1 de sua campanha, ele acha, não será a economia, que ele não teve coragem de reformar quando ocupou a presidência, mas França, guerra e Islã: é a identidade, idiota.

Trata-se de uma aposta arriscada. Enquanto Juppé busca unir e pacificar, Sarkozy é descaradamente divisor. A imigração, ele diz, tomou o rumo errado em 1976, quando o presidente Valéry Giscard d'Estaing permitiu às famílias se juntarem aos imigrantes econômicos na França. De lá para cá, ele argumenta, as coisas saíram de controle. Ele defende a suspensão da imigração econômica por cinco anos, argumentando que integrar os imigrantes é um conceito antigo que fracassou. Ele pinta a França como um país "forçado" pelos "ideólogos do multiculturalismo e pelos sociólogos da desigualdade" a desistir da missão de assimilação dos recém-chegados. "Assimilação significa não apenas adquirir cidadania francesa, mas também os valores, cultura e modo de vida da França", ele escreveu. "Não somos anglo-saxões que permitem que comunidades vivam lado a lado ignorando uma à outra."

Assim como Donald J. Trump quer tornar a "América grande de novo", Nicolas Sarkozy deseja tornar a França "orgulhosa de novo". Os livros didáticos, ele diz, devem "tornar nosso país amado, não fazer com que se sinta culpado". Ele defende um "Islã à francesa, não o Islã na França". E aproveitando, sim, é claro que ele quer proibir o burquíni.

A questão é se, mesmo em tempos tão tensos, os franceses estão prontos para outra dose de Sarko. O patriotismo está de fato crescendo, mas não de uma forma divisora. Imigração e Islã certamente valem a pena ser debatidos, e provavelmente dominarão a campanha nos próximos meses, mas o país precisa de bombeiros, não de incendiários. Política incendiária é território de Marine Le Pen; o plano de Sarkozy, obviamente, é desviar o máximo de votos que puder da Frente Nacional dela. Mas ele já percorreu essa estrada antes e o resultado não foi bom para ele. De fato, o sentimento mudou na França desde que a atual onda de ataques terroristas teve início em janeiro de 2015. Mas a mudança não foi na direção do confronto e Nicolas Sarkozy pode muito bem tê-la julgado mal.

*Sylvie Kauffmann, é diretora editorial e ex-editora-chefe do "Le Monde"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos