Irã corre para fechar contratos de exploração de petróleo antes da posse de Trump

Thomas Erdbrink e Clifford Krauss

Em Teerã (Irã) e Houston (EUA)

  • Raheb Homavandi/ Reuters

O presidente Hassan Rouhani do Irã está correndo para assinar o maior número possível de acordos de exploração de petróleo com empresas ocidentais, antes que linhas-duras de seu país e o presidente eleito Donald Trump tenham uma chance de mandar o país do Oriente Médio de volta a um isolamento cultural e econômico.

Ao mesmo tempo, o Irã se encontra em uma briga com a Arábia Saudita e outros produtores da Opep para retomar sua posição como um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, algo que ele perdeu durante os anos de sanções internacionais sofridas devido ao programa nuclear de Teerã.

Um acordo provisório assinado esta semana com a Royal Dutch Shell para explorar dois dos maiores campos de petróleo do país é o sinal mais recente de que empresas internacionais de energia estão interessadas no Irã. Ao longo das quatro últimas semanas, Teerã negociou acordos similares com a gigante dos serviços de petróleo Schlumberger e empresas da China, da Noruega, da Tailândia e da Polônia.

Os acordos, caso sejam firmados, levariam as tão necessárias técnicas e investimentos estrangeiros para o debilitado setor de energia do Irã. Contudo, igualmente importante é o fato de que os acordos poderiam fornecer uma tábua de salvação para o resto do mundo, segundo especialistas, cimentando relações com alguns países europeus e asiáticos. Eles dizem que isso poderia fornecer uma espécie de política de segurança contra quaisquer ações punitivas adotadas no ano que vem pelo governo Trump e por um Congresso dominado pelos republicanos.

Poucos dirigentes iranianos gostam de reconhecer a vulnerabilidade de seu país, insistindo que ele é imune a pressões externas. Mas parece no mínimo certo que a eleição de Trump e sua escolha de uma equipe de segurança nacional que vê o Irã como uma grande ameaça no Oriente Médio criarão um novo período de tensões, e poderão acabar ameaçando os esforços do Irã de voltar para a economia mundial.

"Nossos funcionários estão correndo para assinar contratos com grandes companhias de petróleo para terem uma vantagem quando Trump assumir a Casa Branca", disse Saeed Laylaz, um economista com ligações próximas ao governo de Rouhani. O presidente iraniano assumiu o poder prometendo acabar com o isolamento do Irã e reavivar sua economia, e portanto a eleição de Trump à presidência representa uma calamitosa ameaça para seu futuro político.

Laylaz apontou que a maioria dos gigantes da energia da Europa estiveram presentes por décadas no Irã e só saíram depois das sanções, hoje suspensas, impostas durante o governo de Obama.

"Assim como no passado, precisamos deles de volta aqui, também para garantir que não fiquemos isolados", ele disse a respeito dos europeus.

Os analistas observaram que os acordos eram somente memorandos de entendimento, não contratos definitivos. Mas ressaltaram que os acordos também indicavam um forte desejo por parte de companhias de energia ocidentais e asiáticas de enviar uma mensagem para Washington enquanto voltam para o Irã, que já foi o segundo maior exportador de petróleo do mundo.

"Parece que as grandes empresas de petróleo e gás na Europa estão determinadas a mostrar para Trump que elas vão fazer acordos com o Irã de qualquer forma", disse Reza Zandi, jornalista e analista iraniano especializado nas indústrias do gás e do petróleo. "Essas são mensagens importantes para os Estados Unidos", acrescentou.

Zandi disse que não era difícil de ver por que as petroleiras estavam tão ansiosas para voltar ao Irã.

"Precisamos de US$ 40 bilhões em investimentos no setor de petróleo e gás a cada ano", ele disse, "e não temos esses recursos dentro do país."

Rouhani e seu governo de tecnocratas estão lutando sua batalha sobre o petróleo em duas frentes. Internamente, eles enfrentam pressão dos linhas-duras que vêm analisando de perto os contratos de exploração de petróleo, em busca de qualquer coisa que possa minar a independência do Irã e em uma tentativa de levá-los para empresas sob seu controle.

Mas o ministro do Petróleo do Irã, Bijan Namdar Zangeneh, contou à agência de notícias semioficial iraniana Fars, em novembro, que somente empresas estrangeiras tinham a capacidade e o capital de modernizar o decadente setor de petróleo de gás do Irã.

"Precisamos de tecnologia, inclusive a tecnologia de gerenciamento que permite que um projeto entre em operação dentro de quatro anos em vez de doze", ele disse. "E, acima de tudo, precisamos do dinheiro."

O Irã também tem lutado para reconstruir suas exportações de petróleo. Uma produção crescente permitiu que o Irã nos últimos meses recuperasse muitos dos mercados asiáticos e europeus que havia perdido para a Arábia Saudita e outros produtores da Opep durante os anos em que as sanções estiveram ativas. E agora com o Irã efetivamente mostrando sua força na Opep pela primeira vez desde que as sanções foram retiradas em janeiro, seu objetivo não é somente proteger seus lucros recém-recuperados, mas também expandir seus mercados, competindo diretamente com seu implacável rival sectário, a Arábia Saudita.

No entanto, uma maior produção e uma expansão das exportações precisarão de mais investimentos estrangeiros.

A nova onda de acordos com o Irã, a maior parte deles ainda provisória, começou no dia 8 de novembro, dia da vitória de Trump, quando a Total, uma empresa francesa, se tornou a primeira empresa de energia ocidental a negociar um acordo para explorar e produzir gás natural de uma parte de um gigante campo de gás no Golfo Pérsico. A Total lidera um consórcio que inclui a China National Petroleum Corp. e a Petropars, uma subsidiária da petroleira estatal iraniana, no projeto de US$ 4,8 bilhões. A previsão é de que o acordo provisório seja concluído no começo do ano que vem.

"Eles estão assinando antes que Trump faça alguma coisa", disse Dragan Vuckovic, presidente da Mediterranean International, uma empresa de serviços de petróleo sediada no Texas que opera no Norte da África e no Oriente Médio. "Os iranianos darão aos europeus termos favoráveis por causa de Trump. Eles querem enviar uma mensagem para Trump, de que se ele tentar cancelar esse acordo, eles simplesmente procurarão os europeus."

O Irã precisa de capital estrangeiro e conhecimento técnico para alcançar seu objetivo imediato de voltar a seus níveis de produção de petróleo em 2011, de 4,3 milhões de barris por dia, revertendo uma queda que havia começado mesmo antes das sanções. Muitos campos iranianos estão velhos e em declínio, e requerem uma nova perfuração de poços, sofisticada e cara, bem como injeções de água e dióxido de carbono para extrair mais petróleo do solo.

Desde que foram retiradas as sanções sobre a exportação de petróleo, a produção do Irã cresceu quase um terço, para cerca de 3,7 milhões de barris por dia, com ajuda mínima do exterior. Ao fechar acordos com a Total e a Shell, Teerã tem agora a ambiciosa meta de alcançar o nível de produção de 4,8 milhões de barris por dia até 2021, o que lhe daria mais influência dentro da Opep e a capacidade de competir de igual para igual com a Arábia Saudita pelos mercados asiáticos em expansão, especialmente na Índia.

Em décadas passadas, o Irã pressionou agressivamente outros membros da Opep a usarem suas posições para manipular o mercado por preços mais altos, enquanto a Arábia Saudita muitas vezes pediu por cautela. A Arábia Saudita teve o controle da situação nos últimos anos, mas o Irã teve um papel essencial na última reunião da Opep, quando o cartel decidiu cortar a produção pela primeira vez em oito anos.

Resta saber se o acordo para reduzir o tamanho da produção, que não está programado para entrar em vigor até janeiro, se sustentará. Acordos similares entre membros da Opep no passado se esfacelaram diante de trapaças generalizadas e da falta de um mecanismo de execução. O acordo também depende da cooperação de alguns produtores que não pertencem à Opep, particularmente a Rússia, que é notoriamente não confiável para questões como essa, disse Philip K. Verleger Jr., um economista especializado em energia que fez parte dos governos Ford e Carter.

"Ninguém irá conceder fatias de mercado, portanto não há como chegar a um acordo de cumprimento obrigatório", disse Verleger.

Mas somente o fato de que o Irã foi capaz de ter um papel importante na reunião da Opep é sinal de que seus líderes estão determinados a voltar para os mercados mundiais, contanto que não sejam entravados novamente por desdobramentos geopolíticos.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos