Onde estavam os votos de Trump? Onde não foram criados empregos

Eduardo Porter

  • Doug Mills/The New York Times

A classe trabalhadora branca votou em seus interesses econômicos?

Um dia depois da eleição presidencial --em uma longa e séria entrevista à revista "Rolling Stone"--, o presidente Barack Obama deu sua opinião sobre por que os brancos de colarinho azul correram tão decididamente para Donald Trump.

"Essa não é simplesmente uma questão econômica", concluiu Obama. "É uma questão cultural. E de comunicações." Desde licença-paternidade e regras para horas extras ao Obamacare, comentou ele, seu governo ofereceu uma série contínua de políticas para ajudar as comunidades de trabalhadores. Mas "quaisquer prescrições políticas que vimos propondo não alcançam, não são ouvidas, pelas pessoas dessas comunidades".

Essa opinião se encaixa com uma narrativa comum entre os analistas liberais da política americana, transmitidas de modo proeminente em "What's the Matter With Kansas" [O que há com o Kansas?], livro best-seller de 2004 de Thomas Frank: os republicanos usam questões culturais como o aborto, as armas e o casamento gay para ganhar os votos dos trabalhadores, que no entanto teriam mais a perder com a agenda de governo pequeno dos republicanos.

Mas ela de modo geral não vai ao ponto. Sim, a economia ganhou milhões de empregos desde que Obama assumiu a Presidência. Até o emprego na indústria recuperou em parte suas perdas. Mas os eleitores brancos menos instruídos tiveram uma sólida razão econômica para votar contra a situação vigente --quase todos os ganhos da recuperação econômica não os atingiram.

Há quase 9 milhões de empregos a mais do que no pico anterior, em novembro de 2007, pouco antes de a economia cair na recessão. Mas os ganhos não se distribuíram de modo uniforme.

Apesar de representar menos de 15% da força de trabalho, os hispânicos conseguiram mais da metade dos empregos adicionais líquidos. Negros e asiáticos também ganharam milhões de empregos a mais do que perderam. Mas os brancos, que representam 78% da força de trabalho, perderam mais de 700 mil empregos líquidos durante os nove anos.

Essa divisão racial desequilibrada de empregos é uma das linhas de falha postas em destaque pela eleição presidencial.

Só 472 municípios votaram em Hillary Clinton no dia da eleição. Mas segundo Mark Muro, do Instituto Brookings, eles representam 64% da atividade econômica do país. Os 2.584 condados onde Trump venceu, em comparação, geraram apenas 36% da prosperidade econômica dos EUA.

A divisão política entre as áreas de alta produção e de baixa produção no país também se relaciona à divisão entre os EUA urbanos --onde Hillary venceu majoritariamente-- e as amplas e menos populosas áreas rurais, onde Trump conseguiu grande número de votos.

"Foi uma boa década para a América metropolitana", disse Muro, que chefia o programa de políticas metropolitanas no Brookings. Em comparação, "você não pode subestimar os problemas econômicos e sociais em toda a camada rural".

Diante dessas claras divisões --brancos menos instruídos que vivem em áreas rurais deprimidas, de um lado, e minorias que vivem em economias mais vigorosas nas grandes cidades, do outro--, a animosidade social e racial manifestada durante a campanha eleitoral dificilmente causa surpresa.

Então aí está um claro argumento econômico para os eleitores irados de Trump terem rejeitado o establishment.

Mas tudo isso levanta uma questão maior. O presidente Trump cumprirá as promessas --os novos empregos bem remunerados-- que seus apoiadores exigem? Lakshman Achuthan, do Instituto de Pesquisa do Ciclo Econômico, é um que acha que não.

"Trump vai se prejudicar dentro de um ano, mais ou menos", disse ele. "Independentemente de suas políticas."

O mercado de trabalho endureceu e há várias forças subjacentes que podem impelir a economia por algum tempo de uma maneira que espalhe a prosperidade mais para fora das grandes cidades. Um programa importante de investimento público em infraestrutura provavelmente aumentaria o emprego, mas não é uma solução em longo prazo para uma população rural isolada dos setores mais dinâmicos da economia.

O progresso que o país poderá ter provavelmente virá com investimentos em tecnologia e capital humano. Isso acontecerá sobretudo nas cidades. Os brancos rurais menos instruídos, com raízes profundas em suas comunidades locais, muitas vezes relutam em mudar. Mas isso significa que muitos provavelmente serão deixados para trás.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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