Pode um homem-forte de Bombaim explicar Trump?

Suketu Mehta*

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    Bal Keshav Thackeray, o líder do partido nacionalista hindu Shiv Sena

    Bal Keshav Thackeray, o líder do partido nacionalista hindu Shiv Sena

Um nacionalista hindu de Bombaim, que chegou ao poder em uma onda de histórias ultrajantes, ameaças, intolerância e exibicionismo, pode explicar Donald J. Trump

Enquanto assistia à campanha de Donald J. Trump, pensei comigo: já vi esse show antes. Foi nos anos 1990 em Bombaim (atualmente chamada Mumbai). E o homem que interpretava o papel de Trump era Bal Keshav Thackeray, o líder do partido nacionalista hindu Shiv Sena, que chegou ao poder em uma onda de histórias ultrajantes, ameaças, intolerância e exibicionismo. Ele morreu em 2012 após governar (e arruinar) a cidade na qual cresci. A estrada para o entendimento de Trump pode passar pelo entendimento de Thackeray e o que aconteceu com Bombaim.

Thackeray, que fundou seu partido Shiv Sena em 1966, iniciou sua carreira como cartunista político. Ele tinha um dom para paródia ultrajante. Sua própria aparência era uma caricatura de um guru de Bollywood: em seus últimos anos, ele passou a usar óculos escuros, uma túnica laranja e um colar de contas sagradas, segurando um charuto Cohiba em uma mão e um copo de cerveja quente na outra. Os membros de seu partido, seus ministros e a imprensa se referiam a Thackeray como "O Supremo".

Ele foi um mestre da arte do ultraje, da política como performance. Ele criticava seus oponentes como "vampiros", "sacos de farinha" e vários outros insultos intraduzíveis, como chamar os indianos do sul de "yandu-gandus".

Periodicamente, ele expressava admiração por Hitler, conseguindo imediatamente milhares de páginas de notícias de publicidade gratuita. Ele pedia regularmente para que fossem proibidos livros e filmes que consideravam ser antiéticos aos valores hindus. Incitados por seu discurso, suas legiões saíam para agredir artistas e jornalistas.

Apesar de Thackeray nunca ter herdado e nem administrado negócios como Trump, a base de apoio dos dois homens é notadamente semelhante em seus contornos políticos. As pessoas que Thackeray representava eram os maharashtrianos nativos, "os filhos do solo". A lista de seus inimigos variava com as estações, dos comunistas aos migrantes do sul da Índia, dos gujaratis aos muçulmanos e, posteriormente, aos indianos do norte.

Os maharashtrianos de classe operária se sentiam excluídos do boom pelo qual passava Bombaim, capital do Estado de Maharashtra, enquanto fazia sua transição de economia manufatureira para uma pós-industrial de serviços e finanças. Eles se ressentiam tanto das elites cosmopolitas endinheiradas quanto dos migrantes do norte da Índia que competiam por eles pelos empregos de baixa qualificação.

Thackeray prometeu devolver a eles seus empregos, ameaçando com a violência das multidões os industriais que contratavam não maharashtrianos. Ele prometeu tornar Maharashtra grande de novo ao reverter o relógio: seu ídolo era um rei-guerreiro do século 17, Shivaji, que manteve acuados os imperadores mogóis. Ele passou a exigir visto para entrada em Bombaim.

Também explorava os fatos de forma leviana, alegando que a Constituição indiana permitia a imposição de uma proibição de não nativos em Bombaim. O jornal de seu partido, o "Saamna", era o "Breitbart News" de sua época, cheio de notícias falsas sobre muçulmanos, forasteiros e celebridades.

Bombaim acomodava todas as religiões e permaneceu relativamente intocada pela violência em massa que acompanhou a Partição da Índia em 1947. Mas após uma turba nacionalista hindu ter destruído uma mesquita medieval no Ayodhya, uma cidade no norte da Índia, em dezembro de 1992, Bombaim explodiu em distúrbios sectários, que prosseguiram até janeiro de 1993. Mais de 1.100 pessoas foram mortas, a maioria muçulmanos. Thackeray organizou a violência, liderando suas tropas "como um general veterano", segundo um inquérito judicial.

Em junho de 1993, quando um tribunal estava prestes a aceitar um caso contra ele pelos textos que escreveu no "Saamna", Thackeray respondeu: "Eu mijo nas decisões da corte. A maioria dos juízes é como ratos pestilentos contra os quais uma ação direta deve ser tomada".

Após os distúrbios, os muçulmanos foram forçados ou passaram a buscar seus próprios guetos. Os chefes muçulmanos do submundo de Bombaim retaliaram, explodindo 13 bombas por toda a cidade, que mataram 257 pessoas, tanto hindus quanto muçulmanos. Thackeray destruiu a Bombaim cosmopolita e laica da minha adolescência. A violência consolidou o voto hindu a Thackeray e conduziu seu partido ao poder, em Bombaim e em Maharashtra.

Ao tomar posse, o partido de Thackeray se aliou às mesmas elites que desprezava. Thackeray e os grandes negócios amavam um ao outro. Os sindicatos controlados por seus homens eram muito mais maleáveis do que os controlados pela esquerda. Ao retornar ao Bombaim em 2008, eu reencontrei os combatentes de rua do Shiv Sena que conheci nos anos 90, assim como os gângsteres muçulmanos que eles enfrentavam. Todos eles agora estavam no ramo imobiliário. Eles eram contratados por empreendedores para forçar os moradores de favelas a concordarem com a demolição de suas casas, em troca de imóveis em mau estado de um programa habitacional do governo. Os crocodilos no pântano de Bombaim nunca se fartaram tanto.

Thackeray nunca ocupou um cargo político. Ele tinha que parecer maior que a política. "Eu odeio política", ele disse, gabando-se que administrava o Estado por "controle remoto". Eu o entrevistei em seu bangalô, que tinha uma fila perene de pessoas atrás de favores aguardando na antessala. Eram astros de Bollywood, o presidente da Enron, gângsteres ou escriturários. A certa altura durante a entrevista, ele deu início a um monólogo prolongado improvisado sobre os ratos em Bombaim. Suas respostas não tinham nada a ver com minhas perguntas; eram apenas pensamentos aleatórios que pareciam ocorrer naquele momento em particular. Era um descasamento de escala: um homem de mente tão pequena controlando uma cidade tão enorme.

Teorias ou dados não tinham utilidade para Thackeray; ele era um homem de ação, ou ilusão de ação. "Gosto de pessoas que fazem!" proclamava um cartaz em seu gabinete. Suas soluções para os vastos problemas da cidade eram precisas e triviais: rebatizar Bombaim de Mumbai; aumentar o fluxo de água nos hidrantes da cidade para poder expulsar os ratos com jatos d'água.

Thackeray foi o homem mais poderoso da cidade porque, assim como Trump, sabia como contar uma boa história. A vitória de Trump foi o triunfo da lábia sobre os números. Hillary Clinton tinha a pesquisa, os dados dos eleitores. Trump foi com seu instinto, contando histórias. O público riu, chorou... e votou.

Eu ensino jornalismo na Universidade de Nova York e nenhum dos estimados jornalistas que conheço previu uma vitória de Trump. Nos anos 80, ninguém na elite de Bombaim previu as vitórias eleitorais de Thackeray. Trump entreteve e ultrajou.

Nós buscávamos conforto nos dados. O "FiveThirtyEight" e "The Upshot" nos tranquilizavam a cada hora com números prevendo a vitória de Hillary. Mas as pessoas são sofisticadas demais, com nuances demais, complexas demais, para serem capturadas por números. Nós respondemos a números com nossa cabeça; respondemos a histórias com nosso coração. Deus nos fala por meio de histórias. As escrituras de cada religião são coleções de histórias, não um conjunto de dados.

Andrew Harnik/AP


Trump e Thackeray entenderam o poder das histórias e não falavam em políticas, mas em parábolas. Um populista é, acima de tudo, um contador de histórias dotado. A esta altura em nossa grande democracia, a maioria dos eleitores está... entediada e não responde bem a declarações de políticas. O discurso de Hillary sobre um show de Bollywood em Nova Jersey parecia um trabalho acadêmico sobre multiculturalismo. Trump, por sua vez, foi sucinto: "É uma fraqueza. Adoro as belas atrizes indianas. Não há nada como elas".

Todo outono durante o festival hindu de Dussehra, Thackeray subia ao palco no Parque Shivaji em Bombaim e fazia uma apresentação que durava várias horas, parte comédia stand-up, parte teoria de conspiração paranoide, parte escárnio de seus adversários políticos. Centenas de milhares de seus seguidores aplaudiam, riam, participavam de forma frenética.

Ele nunca fez uso de texto por escrito. O ponto alto, ou baixo, era seu escárnio de Sonia Gandhi, a líder do Partido do Congresso. Thackeray vestia um sári sobre a cabeça e imitava a nora nascida na Itália da família Nehru-Gandhi em falsete agudo, imitando seu hindi desajeitado.

Após os distúrbios de Bombaim, um de seus seguidores me disse que Thackeray tinha "powertoni", uma contração de "power of attorney" (poder de advogado): a incrível capacidade de agir em prol de outra pessoa, de assinar documentos, de fazer pessoas serem mortas. Os impotentes operários de fábrica em Ohio e os mineiros de carvão em Kentucky veem Trump como um homem com "powertoni".

Toda vez que seu herói, seu advogado, humilha os bons e os grandes, você se enche de orgulho; você sente, em sua casa em mau estado com goteira no telhado, que conseguiu um pouco de poder em Manhattan, em Washington.

Os homens de Thackeray se orgulhavam de ver industriais, burocratas e políticos se curvarem diante dele, tocarem seus pés. Eles falavam com admiração do telefonema de Michael Jackson a Thackeray em sua única visita a Bombaim, em 1996. Michael Jackson usou o banheiro dele. Thackeray posteriormente conduziu repórteres até seu vaso sanitário santificado.

Ele fez uso da violência da multidão para governar Bombaim. Os muçulmanos que foram atacados nos distúrbios eram de todas as classes sociais. Os assassinos deles ficaram impunes; eles tinham "powertoni".

Não sei se a América de Trump promoverá distúrbios e violência em massa. Mas sua habilidade de vender bem uma história falsa e nossa necessidade voraz por entretenimento significam que os muros já estão subindo, não na fronteira, mas entre cidade grande e cidade pequena, Estado democrata e republicano, branco e não branco, homem e mulher, americano e imigrante.

Os moradores de Bombaim nunca imaginaram que os discursos atraentes de Thackeray poderiam levar a cadáveres nas ruas. Desde a eleição, os crimes de ódio aumentaram 115% em Nova York, cidade natal de Trump e meu lar durante meus primeiros oitos anos na América. O que acontecerá se o incitamento violento da campanha de Trump prosseguir durante sua presidência?

*"Bombaim – Cidade Máxima", de Suketu Mehta, foi finalista do Prêmio Pulitzer. Ele leciona jornalismo na Universidade de Nova York.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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