Roupas viram parte do protesto contra Trump na Marcha das Mulheres em Washington

Katie Rogers

  • Kat Coyle via The New York Time

Elizabeth Azen, coproprietária da linha de roupas Dynasty —com ênfase nas duas últimas sílabas— pretende vestir as mulheres que aparecerem para protestar na Marcha das Mulheres em Washington. Alguns dias antes do evento, ela estava ocupada preenchendo pedidos online para chapéus de cores vibrantes com a frase "Already Great" (algo como "Já grandiosa"). Outros chapéus, como gorros em vermelho vivo, traziam somente a palavra "NÃO" escrita em negrito.

Ela disse que os acessórios são "uma reação visceral tipográfica" aos resultados das eleições de novembro, que teve como um dos símbolos persistentes o boné vermelho do presidente eleito Donald Trump escrito com a frase "Make America Great Again" ("Tornar a América Grandiosa Outra Vez). "Quem é que pode se apropriar de uma cor?", refletiu a designer baseada no Brooklyn.

No sábado, centenas de milhares de mulheres devem visitar a capital do país para marchar contra a nova administração de Trump. Haverá muitos cartazes —e, supostamente, muitos gritos—, mas as roupas e acessórios que as manifestantes devem usar, desde os gorros vermelhos até broches com o sinal de paz, passando por gorros de tricô com orelhas de gato, também podem passar alguma mensagem. Embora exista uma blusa com capuz oficial da Marcha das Mulheres, criada por Bob Bland, um designer de moda de Nova York e copresidente do evento, que é vendida através do site da marcha por US$ 55 (R$ 175), algumas outras estilistas e artesãs se inspiraram a criar suas próprias formas de protesto vestível desde que começou a organização.

Azen disse que ela e sua sócia, Jessica Wingate, foram levadas a fazer seus chapéus por um desejo de criar "afirmações que possam durar na mente das pessoas e se tornar parte do nosso vocabulário".

"Nós realmente precisamos disso neste momento", ela disse.

Para as mulheres americanas, as roupas sempre foram um meio de resistência visual, a começar por aquelas que acreditavam em uma reforma no vestuário, ou no direito de usar calça, nos anos 1800. Na Marcha de 1963 em Washington, centenas de mulheres negras optaram por jeans, macacões e cabelo natural, resistindo ao protocolo da moda e contrariando expectativas. Quando algumas mulheres apareceram de terno para votar em novembro passado, elas não só estavam se referindo a ativistas do passado, como também estavam expressando seu apoio à primeira candidata mulher à presidência por um grande partido.

Essa marcha não será a respeito de ternos, e tampouco houve muitos chamados para se usar branco, marca registrada das sufragistas. Em vez disso, mensagens mais literais em roupas parecem ser a tendência.

No passado, eram os tecidos —jeans, xadrez, couro— os mais usados para se passar a mensagem do posicionamento de uma mulher e rejeitar conceitos de como a feminilidade deveria se parecer, de acordo com Tanisha Ford, uma professora de história na Universidade de Delaware e autora de "Liberated Threads: Black Women, Style and the Global Politics of Soul". Ela diz que agora estão em alta roupas de protesto baseadas em textos, que vão desde camisetas da Dior com a frase "Devíamos todas ser feministas" até broches escritos "Nasty Woman" ("Mulher desagradável") vendidos na Etsy.

Ela observa que estamos vivendo em uma cultura digital, onde as palavras são fotogênicas.

"Acho que uma das vantagens de se usar roupas como símbolo da ideologia de alguém é que elas permitem que outras pessoas que não consigam ir a lugares como Washington, D.C., mostrem que elas se solidarizam" com um movimento como a Marcha das Mulheres, disse Ford.

É possível que a roupa que você usa seja uma forma de ativismo substancial? Azen acredita que sim. Ela acha que as pessoas sempre usaram as roupas que elas vestem para passar uma mensagem sobre quem elas são e no que elas acreditam.

"Você pode optar por usar Levi's no seu bolso ou Michal Kors na sua bolsa", disse Azen.

E depois de uma pausa: "Ou você pode optar por passar uma mensagem". Literalmente.

Em uma eleição que, segundo alguns, foi marcada por chavões —"Nasty Woman" e "Bad Hombres"—, qualquer observador empreendedor poderia transformar declarações espontâneas em palavras de protesto vendáveis. O Pussyhat Project, um coletivo online de tricoteiras, está tentando um financiamento coletivo para 1,1 milhão de gorros rosa-choque com orelhas de gato a serem usados por pessoas que estarão na marcha.

O gorro é uma referência direta a comentários feitos por Trump no passado, que se tornaram públicos através do vazamento de uma gravação do "Access Hollywood", sobre agarrar as mulheres pelos genitais. (N.T.: "pussy" é o termo tanto para "gato" quanto gíria para "vagina")

Com mais de 60 mil gorros tricotados até o momento, Jayna Zweiman, uma das fundadoras do projeto, disse que ela quer que as mulheres de gorro rosa-choque sejam um símbolo visual forte no dia da marcha.

"Pensamos naquela vista de cima através de um drone", disse Zweiman, 38, em uma entrevista.

E existem os acessórios que priorizam a unidade dos americanos no lugar de afirmações de subversão. Kate Lind e Nate Stevens criaram o site Pincause para vender broches de US$ 5 (R$ 16) para a marcha. Eles vivem em Ann Arbor, no Michigan, onde se deparam frequentemente com pessoas que votaram em Trump.

O broche, que exibe o símbolo americano em linguagem de sinais para "Eu te amo", tem a intenção de simbolizar um desejo de estreitar o abismo que existe entre aqueles com crenças opostas. Mais de 10 mil deles foram vendidos.

"As pessoas estão muito empolgadas por poderem se unir em torno de algo positivo", disse Lind. Ela acrescentou que tem ouvido de clientes que "não têm essa vontade de gritar com as pessoas".

A unidade pode ser mais fácil de falar do que de vestir. Os planos para a Marcha das Mulheres têm sido carregados por discussões sobre raça e a necessidade de uma marca de feminismo que alcance mulheres de todos os meios. O que as mulheres decidirem usar para comunicar suas muitas crenças no dia da marcha provavelmente será tão multifacetado quanto as questões envolvidas.

"Não acho que exista um único símbolo que consiga representar essa diversidade de pensamentos políticos", disse Ford, a autora. "E não acho que deva existir".
 

Tradutor: UOL

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