Após acordo, potências do Oriente não explicam como reforçar cessar-fogo na Síria

Anne Barnard e Hwaida Saad

Em Astana (Cazaquistão)

  • Omar Haj Kadour/AFP

    Garoto caminha em região destruída por ataque aéreo das forças do governo, em Binnish, na Síria

    Garoto caminha em região destruída por ataque aéreo das forças do governo, em Binnish, na Síria

Dois dias de negociações sobre a guerra civil na Síria terminaram na última terça-feira (24) com um acordo entre Irã, Rússia e Turquia para supervisionar o cumprimento de um frágil cessar-fogo parcial. Mas nem o governo sírio, nem os combatentes rebeldes --que se encontraram brevemente cara a cara pela primeira vez em quase seis anos de guerra-- assinaram o acordo.

Embora as três potências tenham concordado em estabelecer um mecanismo para monitorar o cumprimento do cessar-fogo iniciado há quase um mês, elas não disseram como seria esse mecanismo, adiando essa questão para conversas futuras.

A declaração, pelo menos na teoria, trouxe o Irã a bordo com uma recente cooperação entre a Rússia e a Turquia, e fortaleceu o comprometimento da Turquia em separar grupos rebeldes que ela apoia de grupos jihadistas.

Mas representantes das delegações sírias --tanto do governo quanto da oposição-- imediatamente expressaram reservas. Eles enfatizaram que não concordavam com um documento que fosse intermediado pelos principais patrocinadores dos lados em guerra no país, e não pelos próprios sírios. A Rússia é a mais poderosa financiadora do governo sírio, que também é um aliado próximo do Irã, ao passo que a Turquia tem estado entre os principais apoiadores dos grupos rebeldes.

Apesar do suposto acordo de cessar-fogo, novos conflitos foram relatados em Wadi Barada, uma área sitiada por rebeldes e fonte da maior parte da água potável de Damasco, a capital síria. O abastecimento de água está cortado há semanas, uma situação que o governo atribui aos rebeldes e vice-versa.

O acordo entre o Irã, a Rússia e a Turquia foi anunciado um dia depois que as facções sírias trocaram palavras duras no começo das conversas, realizadas em Astana, capital do Cazaquistão.

Um dos principais resultados da reunião foi fortalecer o papel crescente da Rússia na diplomacia síria, estabelecendo as negociações de Astana como parte do, mas não um substituto para, processo de Genebra que durante anos foi encabeçado pela ONU e pelos Estados Unidos. O novo documento disse que as reuniões em Astana, uma capital que fica a cinco zonas horárias a leste de Genebra e tem ligações próximas com a Turquia, mas firmemente dentro da esfera de influência da Rússia, seriam um fórum para discutir questões específicas que surjam dentro da estrutura de Genebra.

Houve esperanças hesitantes entre alguns negociadores rebeldes de que a Rússia pudesse estar disposta a assumir um papel mais ativo na busca por um acordo político. Mas não houve progressos concretos a respeito de questões políticas, que foram excluídas das conversas com foco limitado.

O Irã, a Rússia e a Turquia afirmaram seu compromisso com "a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial da República Árabe Síria como um Estado multi-étnico, multi-religioso, não-sectário e democrático", e sua convicção "de que não existe uma solução militar para o conflito sírio e ele só pode ser resolvido através de um processo político". Esses sentimentos ecoam princípios que o Conselho de Segurança da ONU já expôs.

Os países também reiteraram "sua determinação em lutar conjuntamente" contra o Estado Islâmico e contra a afiliada da Al-Qaeda na Síria, antes conhecida como Frente Al-Nusra, prometendo "separá-los" de grupos armados de oposição. Essa poderia ser uma estipulação importante, já que o governo sírio liderado pelo presidente Bashar al-Assad tende a classificar de forma indiscriminada todos os combatentes de oposição como grupos terroristas, e muitos não têm conseguido ou relutam em se separar das forças da antiga Frente Al-Nusra no campo de batalha.

Contudo, o acordo não especificava como uma separação dessas poderia ocorrer.

Em Astana, representantes do governo disseram que eles ainda consideravam os combatentes rebeldes como terroristas e estavam esperando para ver se a Turquia cumpria o acordo. Negociadores rebeldes disseram que as reuniões haviam lhes dado esperanças de que a Rússia pudesse estar aberta a ouvir as preocupações dos rebeldes e se dispor a pressionar o governo sírio por uma solução política, mas esse otimismo não se estendeu ao Irã, que se ateve a uma linha mais dura.

Staffan de Mistura, o enviado especial da ONU para a Síria que havia sido convidado para as negociações de Astana, disse em uma entrevista, depois que o comunicado conjunto foi emitido, que nas interações que ele havia observado entre a Rússia e comandantes da oposição "a linguagem corporal era de pessoas que estavam falando seriamente umas com as outras e levando umas às outras a sério".

Ao mesmo tempo, rebeldes estão preocupados com a possibilidade de o novo acordo colocar o Irã na posição de participar de um cessar-fogo que suas próprias milícias foram acusadas de violar.

A nova rodada de conversas entre o governo sírio e a oposição ocorrerá no dia 8 de fevereiro em Genebra, de acordo com o anúncio feito pelos três países. Mas diplomatas em Astana disseram que não estava claro se essa data era definitiva.

Bashar al-Jaafari, o embaixador sírio para a ONU que levou a delegação de seu governo para as conversas em Astana, disse que uma ofensiva por parte do governo e suas tropas aliadas continuaria, argumentando que "grupos terroristas" associados à Al-Qaeda estavam controlando Ain al-Fijeh, uma cidade em Wadi Barada. Moradores de Wadi Barada dizem que alguns combatentes da antiga Frente Al-Nusra estão presentes ali, mas que são no máximo uma pequena minoria.

Também na terça-feira, oficiais da ONU fizeram um apelo por mais de US$ 8 bilhões (R$ 25 bilhões) em verbas este ano para ajudar milhões de pessoas deslocadas pelo conflito sírio.

A agência para refugiados da ONU está pedindo por US$ 4,6 bilhões (mais de R$ 14 bilhões) para ajudar pelo menos 4,8 milhões de pessoas que fugiram para outros países, principalmente para o Iraque, a Jordânia, o Líbano e a Turquia, e cerca de US$ 3,4 bilhões (R$ 11 bilhões) para uma estimativa de 13,5 milhões sírios deslocados internamente.

Tradutor: UOL

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