Opinião: Começa a guerra de Trump contra as mulheres

Nicholas Kristof

  • AFP PHOTO / Andrew CABALLERO-REYNOLDS

Será que nós, jornalistas, deveríamos usar o termo "mentira" para descrever as lorotas tão evidentes do presidente Donald Trump?

Esse debate colocou em polvorosa o mundo das notícias. O "New York Times" esta semana usou a palavra "mentira" em uma manchete de primeira página, e eu concordei com essa decisão. Mas existe um contra-argumento de que a mentira pressupõe uma intenção de enganar —e de que Trump pode de fato acreditar em suas absurdas inverdades.

Então, em 2017, estamos chegando a um momento humilhante para uma grande democracia: precisamos decidir se nosso 45º presidente é um mentiroso ou um maluco.

No entanto, as falsidades e os delírios presidenciais mais desastrosos não são aqueles sobre os quais as pessoas estão falando, tais como os relacionados ao público presente na posse ou sobre a fraude eleitoral. Os embustes mais assustadores envolvem as novas ações de Trump sobre a saúde das mulheres que causarão mortes no mundo inteiro.

Foi logo após as formidáveis marchas das mulheres do final de semana, das quais pelo menos 3,2 milhões de pessoas aparentemente participaram em todos os 50 Estados, em um equivalente a 1% da população dos Estados Unidos.

Em um tapa na cara de todos aqueles que marcharam, esta semana Trump assinou uma ordem que cortará o acesso à contracepção para um número enorme de mulheres, especialmente na África. Ele também freará o acesso a exames de câncer e talvez até mesmo ameaçará campanhas de vacinação e esforços contra o HIV e o vírus da zika. Resultado: milhares de mulheres pobres e vulneráveis vão morrer.

Os americanos focaram nas ações executivas sobre a construção de um muro ou a liberação de oleodutos, mas nada é mais devastador do que o decreto sobre a saúde das mulheres (assinado na frente de um grupo composto quase que inteiramente de homens de terno sorridentes).

Para sermos justos, Trump provavelmente pensou que estava fazendo algo de bom; esse é o nível de seu delírio. Ele reinstaurou aquilo que se chama de política da Cidade do México, que estipula que os fundos de planejamento familiar não podem ir para grupos de auxílio estrangeiro que discutam o aborto. (Os fundos federais já não vão para abortos.)

Trump presumidamente pensou que essa política reduziria o número de abortos, sendo assim "pró-vida". Na verdade, essa é uma abordagem "pró-morte", que inclusive aumenta o número de abortos, bem como o número de mortes entre mulheres.

Mas como? Muitos grupos, como o Marie Stopes International e o Planned Parenthood International, acabarão perdendo financiamento em países pobres com essa política. Em 2001, quando o presidente George W. Bush impôs uma versão mais limitada, 16 países em desenvolvimento perderam carregamentos de contraceptivos vindos dos Estados Unidos.

Pesquisadores da Universidade de Stanford descobriram que a versão de Bush para essa política reduziu o uso de contraceptivos na África, aumentando o índice de abortos.

Tudo isso soa detalhista e frio, mas em países pobres a coisa mais perigosa que uma mulher pode fazer é engravidar. Eu vi mulheres demais morrendo ou sofrendo, em meio à imundície, sobre leitos manchados em vilarejos remotos por causa de partos.

Queria que Trump pudesse vê-las: uma mãe de três filhos em Camarões morrendo depois que sua atendente de parto sentou em sua barriga para acelerar o nascimento; uma mulher no Níger desmaiando devido a uma complicação comum chamada eclampsia; uma garota de 15 anos no Chade cuja família lidou com suas complicações no parto levando-a até um curandeiro que as diagnosticou como feitiçaria e queimou seu braço enquanto ela estava em estado de coma.

Com essa nova ordem, Trump sem querer causará mais dessas cenas horríveis. Talvez "guerra contra as mulheres" soe exagerado, mas não quando mulheres agonizantes e à beira da morte estão marcadas na sua memória.

Pior: Trump expandiu essa "regra de mordaça geral" —como os críticos a chamam, porque ela impede que os grupos mencionem o aborto— de forma que aparentemente ela cobrirá todos os tipos de serviços de saúde, inclusive esforços para controlar a poliomielite, a zika ou o HIV, e até mesmo programas que ajudam mulheres que foram vendidas para bordeis. (A Casa Branca não respondeu aos meus questionamentos.)

Espero que todos os que participaram das marchas liguem para a Casa Branca (202-456-1111) ou para seus representantes no Congresso (202-224-3121) para protestar.

Só a Marie Stopes International estimou que, se não conseguir outra fonte de financiamento, a nova política resultaria em 6,5 milhões gestações indesejadas, 2,2 milhões de abortos e 21.700 mulheres morrendo durante as gestações ou no parto.

As vítimas invariavelmente estão entre as pessoas mais sem voz e impotentes do mundo. Quando Bush impôs sua versão para essa política, isso significou que nenhum contraceptivo chegou a um vilarejo no norte de Gana. Como resultado, uma jovem chamada Kolgu Inusah engravidou.

Ela tentou abortar sozinha usando ervas, mas algo deu errado e ela sofreu terríveis dores abdominais. Ela foi levada para uma clínica, mas os médicos não conseguiram salvá-la. Agora seus dois filhos ficaram sem mãe.

Presidente Trump, você pode pensar que é "pró-vida" e que está prevenindo abortos, mas isso é uma mentira ou um delírio. Na verdade, você está aumentando o número de abortos e de mortes de mulheres.

E para as mulheres e homens que protestaram no fim de semana passado, lembrem-se de que isso não tem a ver com símbolos, discursos ou gorros com orelhinhas de gato. Tem a ver com as vidas de mulheres e garotas.

Por favor, continuem marchando, continuem gritando.
 

Tradutor: UOL

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