Após levar a cólera para o Haiti, ONU não consegue dinheiro para combatê-la

Rick Gladstone

  • Meridith Kohut/The New York Times

Quando o secretário-geral das Nações Unidas pediu desculpas aos haitianos pela epidemia de cólera que devastou o país por mais de seis anos, causada por soldados da força de paz enviados para protegê-los, ele declarou ter uma "responsabilidade moral" de consertar a situação.

O pedido de desculpas, anunciado em dezembro juntamente com uma estratégia de US$ 400 milhões (R$ 1,23 bilhão) para combater a epidemia e "fornecer assistência material e apoio" às vítimas, foi um raro ato público de contrição feito pelas Nações Unidas. A organização, durante o mandato do secretário-geral da época, Ban Ki-moon, havia resistido a qualquer reconhecimento de culpa pela epidemia, um dos piores surtos de cólera dos tempos modernos.

Contudo, desde então a estratégia da ONU para combater a epidemia, que ela chama de "Nova Abordagem", não conseguiu decolar. Um fundo criado para ajudar a financiar a estratégia está com cerca de US$ 2 milhões, de acordo com os dados mais recentes em seu site. Somente seis dos 193 Estados-membros —Reino Unido, Chile, França, Índia, Liechtenstein e Coreia do Sul— doaram.

Outros países forneceram financiamentos adicionais contra a cólera para o Haiti fora desse fundo, em especial o Canadá, com cerca de US$ 4,6 milhões (R$ 14 milhões), e o Japão, com US$ 2,6 milhões (R$ 8 milhões), de acordo com a ONU. Todavia, o total recebido é uma fração do que Ban havia previsto.

Em uma carta enviada a Estados-membros no ano passado, o sucessor de Ban, Antonio Guterres, pediu para que eles informassem a intenção de contribuir financeiramente com o fundo até 6 de março. Ele também pareceu levantar a possibilidade de contribuições obrigatórias caso não houvesse um número suficiente de ofertas.

O prazo passou, sem grande resposta.

Guterres não declarou publicamente se pretende pressionar por uma contribuição obrigatória nas negociações orçamentárias que estão sendo realizadas nas Nações Unidas. No entanto, em off, diplomatas e representantes da ONU disseram que ele arquivou a ideia, em parte por causa da forte resistência de alguns membros poderosos, inclusive os Estados Unidos.

Diplomatas disseram que parte do problema poderia ser atribuída a uma simples fadiga dos doadores, bem como a relutância de muitos países de se comprometer financeiramente sem ter a certeza de que o dinheiro será usado de forma eficiente.

O desafio da doação foi reconhecido pelo Dr. David Nabarro, um assessor especial da ONU que ganhou proeminência ao conduzir sua mobilização para combater a crise do ebola na África Ocidental e que tem liderado esforços de arrecadação de fundos para o Haiti enquanto aspira se tornar o próximo diretor-geral da Organização Mundial de Saúde.

"Os doadores responderão, mas eles precisam ser convencidos de que receberão uma boa proposta pelo que foi feito com o dinheiro deles", ele disse em janeiro no Fórum Econômico Mundial. "A história da cólera do Haiti na verdade não é muito boa, no sentido de que levamos tempo demais para nos tornamos cientes dela, e ainda assim o problema persiste".

O esforço de arrecadação de fundos se complicou ainda mais com a intenção da administração Trump de cortar gastos com auxílios internacionais. Os Estados Unidos, historicamente um dos grandes fornecedores de auxílio estrangeiro para o Haiti, é também o maior financiador da ONU, que agora talvez tenha de confrontar escolhas difíceis sobre como alocar essas entradas reduzidas.

Ross Mountain, um coordenador humanitário veterano da ONU que é seu conselheiro sênior para a cólera no Haiti, disse que algumas ideias a respeito do financiamento estavam sendo discutidas. E, ele disse, embora "US$ 400 milhões não sejam uma quantia muito grande, considerando as circunstâncias, estamos todos bem cientes das demandas concorrentes".

Mountain também admitiu que "no lado financeiro, não avançamos".

A nova embaixadora de Trump para a ONU, Nikki Haley, que disse que a crise da cólera era "devastadora", não respondeu a pedidos de comentários a respeito do problema do financiamento. Mas em seu depoimento de confirmação no Senado em janeiro, Haley disse: "Teremos de agir certo com o Haiti, sem dúvida, e a ONU terá de assumir sua responsabilidade".

A cólera, um flagelo causado por uma bactéria transmitida pela água que pode provocar diarreia aguda e desidratação fatal se não for tratada rapidamente, matou quase 10 mil pessoas e deixou quase 800 mil doentes no Haiti, o país mais pobre do Hemisfério Ocidental, desde que foi introduzida ali em 2010 por membros nepaleses de uma força de paz da ONU. Este ano, até o final de fevereiro, quase 2.000 novos casos haviam sido relatados, o equivalente a centenas a cada semana.

Estudos atribuíram a doença altamente contagiosa ao saneamento descuidado que permitiu que resíduos fecais contaminados com germes da cólera se infiltrassem das latrinas usadas pelos soldados nepaleses para as fontes de água.

"Ainda temos o maior surto de cólera entre todos os países", disse a Dra. Louise Ivers, uma conselheira sênior de políticas da Partners in Health, uma organização de auxílio médico internacional que trabalhou por muito tempo no Haiti. "Cá estamos, quase sete anos depois, e esse é ainda um grande problema".

Dois importantes grupos de defesa de vítimas da cólera no Haiti, o Bureau des Avocats Internationaux e o Institute for Justice and Democracy in Haiti, enviaram uma carta na quinta-feira para Guterres, solicitando uma reunião e manifestando preocupação de que "a atual trajetória de arrecadação de fundos e elaboração da Nova Abordagem esteja traindo as promessas da ONU de uma resposta significativa e responsável no Haiti".

Legisladores nos Estados Unidos que criticaram a resposta da ONU no Haiti também pressionaram a organização.

"Embora a ONU tenha admitido que cometeu erros e tenha prometido criar um fundo para fornecer reparações às pessoas do Haiti que foram vitimadas pela cólera", disse em um comunicado na semana passada o deputado John Conyers (Democrata-Michigan), "eles não conseguiram cumprir essas promessas".
 

Tradutor: UOL

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