Onda de mortes de civis paira sobre participação dos EUA no combate ao EI

Tim Arango

Em Mossul (Iraque)

  • Felipe Dana/AP

    Residentes carregam mortos durante combates entre forças de segurança iraquianas e militantes do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque

    Residentes carregam mortos durante combates entre forças de segurança iraquianas e militantes do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque

Dezenas de civis iraquianos, alguns deles ainda vivos e pedindo socorro, passaram dias enterrados sob os escombros de suas casas no oeste de Mossul, depois que ataques aéreos liderados pelos EUA arrasaram quase um quarteirão inteiro da cidade.

No domingo (26), mais de uma semana depois do bombardeio, repórteres de "The New York Times" viram nesse local sobreviventes exaustos tentando encontrar corpos entre os destroços. As autoridades iraquianas disseram que o número final de mortos poderá chegar a 200, ou até mais. Isso faria deste um dos piores casos de baixas civis em um ataque de forças lideradas pelos EUA durante a longa presença militar americana no Iraque, que começou na Guerra do Golfo em 1991.

O ritmo da luta contra o Estado Islâmico aqui se tornou mais urgente, e oficiais iraquianos dizem que a coalizão liderada pelos EUA está sendo mais rápida para atacar alvos urbanos pelo ar, dando menos tempo para avaliar os riscos para a população civil. Eles dizem que a mudança é reflexo de um impulso renovado dos militares americanos sob o governo Trump de acelerar a batalha por Mossul.

Esse impulso vem no momento em que essa batalha se aproxima de sua fase mais perigosa para os civis, ocupando becos e áreas densamente povoadas da antiga cidade. Centenas de milhares de civis estão apinhados em bairros com combatentes do EI que não se importam que eles vivam ou morram.

Ao mesmo tempo, mais tropas de operações especiais dos EUA, algumas vestindo uniformes pretos e dirigindo veículos pretos --as cores de seus homólogos iraquianos--, estão mais próximas das linhas de frente. Dessa maneira, na teoria, o ataque às forças do EI se tornará mais preciso para a coalizão.

Os oficiais iraquianos, de modo geral, aprovam a mudança, dizendo que sob o governo Obama os oficiais da coalizão eram muito avessos a correr riscos. Os iraquianos também dizem que lutar nos densos espaços urbanos da zona oeste de Mossul exige maior poder aéreo, mesmo que isso signifique mais mortes de civis.

Quando essas decisões se tornam trágicas, é assim: um panorama de destruição no bairro de Mossul Jidideh, tão vasto que um morador o comparou a Hiroshima, no Japão, onde os EUA despejaram uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. Havia um braço calcinado, envolto em um tecido vermelho, que sobressaia do entulho; socorristas de macacões vermelhos e máscaras, para evitar o odor, alguns com rifles pendurados dos ombros, reviravam o entulho em busca de corpos.

Um sobrevivente, Omar Adnan, estava perto de sua casa destruída no domingo (26) e segurava uma folha de papel com os 27 nomes de seus familiares mortos ou desaparecidos, escritos em tinta azul.

Ali perto havia dois homens, e um deles, Ashraf Mohammed, disse: "Perdi toda a minha família, menos este aqui, meu irmão".

As mortes de civis não se limitaram à batalha por Mossul, que fica a cerca de 350 km ao norte de Bagdá. Em grandes extensões da Síria e do Iraque, mais tropas em solo americanas e mais ataques aéreos dos EUA estão sendo empregados na batalha.

Na Síria, a luta se intensificou principalmente ao redor de Raqqa, a capital declarada do EI. As campanhas nos dois países pretendem privar o EI de suas maiores cidades, enquanto mantêm a pressão sobre o grupo em todos os locais ocupados.

As denúncias de mortes de civis nos dois países, causadas por ataques aéreos liderados pelos EUA, aumentaram tanto nos últimos meses que pela primeira vez o número de ataques da coalizão que afetam civis ultrapassou os realizados pela Rússia na Síria, segundo a Airwars, organização sediada em Londres que monitora os ataques aéreos internacionais e suas consequências sobre civis.

O grupo disse que o aumento nas mortes de civis relatadas começou sob o presidente Barack Obama e se acelerou depois que Donald Trump tomou posse, em janeiro.

O envolvimento intensificado dos EUA na luta contra o EI levantou perguntas sobre se o governo Trump relaxou os procedimentos destinados a manter no mínimo as baixas civis.

A coalizão liderada pelos EUA, que confirmou a realização de um ataque em Mossul Jidideh em 17 de março e está investigando se é culpado pelas mortes lá, insistiu que não houve mudanças em suas regras de envolvimento. Os comandantes dizem que estão fazendo o possível para proteger a vida dos civis enquanto intensificam a luta em Mossul.

O general Ali Jamil, oficial de inteligência das Forças Especiais do Iraque, disse que combate o EI há mais de dois anos, com o apoio da Força Aérea americana.

"Não vi uma resposta tão rápida com alta coordenação da coalizão como estou vendo agora", disse ele. Antes, quando os iraquianos pediam ataques aéreos, disse ele, "costumava haver um atraso ou nenhuma resposta, às vezes, com a desculpa de verificar a localização ou buscar civis".

No domingo, uma escavadeira empurrava os destroços para que os socorristas pudessem alcançar os corpos. Quando um corpo foi encontrado, um homem próximo o identificou como de seu sobrinho e outro homem escreveu seu nome em um caderno com capa de couro. O corpo foi então colocado em um saco azul com zíper e depositado em uma garagem junto com os outros. Muitos mortos já tinham sido enterrados nos jardins das casas que foram pouco danificadas.

Os moradores que estavam no bairro durante a luta disseram que havia motivos para acreditar que a área estivesse cheia de civis no momento dos ataques aéreos --especialmente porque o governo iraquiano e seus aliados americanos despejaram folhetos pedindo que os civis ficassem em casa e não se arriscassem a fugir no meio da batalha.

Mas agora a batalha chegou até eles.

Enquanto a luta pela zona oeste de Mossul era intensa, dez dias atrás, os combatentes do EI corriam entre as casas cruzando pátios, passando por buracos feitos nos muros que lhes permitiam mudar de posição sem se mostrar nas ruas. Os soldados iraquianos que avançavam e pediam os ataques aéreos estavam bem perto dos civis.

"Eles estavam muito próximos", disse Mubishar Thanoon, um morador de quase 40 anos que estava no domingo ao lado do leito de seu irmão, ferido no ataque, em um hospital em Irbil, capital da região autônoma curda. "Eu escutava suas vozes. Eles sabiam exatamente que estávamos lá."

Oficiais militares dos EUA disseram que sua investigação até agora revelou que um edifício desmoronou dias depois dos ataques ao bairro, levantando a possibilidade de que o EI explodiu o prédio depois dos bombardeios, matando mais civis.

Em entrevistas, sobreviventes e moradores locais negaram isso, dizendo que os ataques aéreos derrubaram os prédios. Sobreviventes e oficiais iraquianos locais dizem que a luta continuou no bairro dias após os bombardeios, retardando a chegada de socorristas.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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