Poder nuclear da Coreia do Norte aparece em anúncio online de lítio

David E. Sanger e William J. Broad

Em Washington (EUA)

  • Al Drago/The New York Times

    Mar-a-Lago, o clube do presidente Donald Trump em Palm Beach, na Flórida, onde ele se encontrará com o presidente chinês, Xi Jinping

    Mar-a-Lago, o clube do presidente Donald Trump em Palm Beach, na Flórida, onde ele se encontrará com o presidente chinês, Xi Jinping

O anúncio online parecia algo que só poderia interessar a um metalúrgico: uma oferta para venda de 10 kg de lítio 6 de alta pureza por mês, para entrega partindo do porto de Dandong, na China.

Mas ele chamou a atenção de agências de inteligência do mundo inteiro, por um simples motivo: o lítio 6 oferece uma maneira rápida de transformar uma bomba atômica comum em uma bomba de hidrogênio, ampliando seu poder destrutivo até mil vezes. O vendedor listado no anúncio --que deu até seu número de celular-- foi identificado em um relatório recente da ONU como o terceiro secretário da embaixada da Coreia do Norte em Pequim.

Quando o presidente Donald Trump se reunir com seu homólogo chinês, Xi Jinping, na Flórida, nesta semana, o principal item em sua agenda, segundo membros do governo, será pressionar a China a assinar o mais poderoso conjunto de sanções econômicas já imposto à Coreia do Norte por seus programas de armas nucleares e de mísseis balísticos.

Trump prometeu diversas vezes conter os esforços nucleares da Coreia do Norte, dizendo ao jornal "The Financial Times" em uma entrevista publicada no último domingo (2): "Se a China não solucionar a Coreia do Norte, nós o faremos. É tudo o que vou lhes dizer".

Mas segundo especialistas a oferta de lítio excedente é uma evidência de que a Coreia do Norte produziu tanto do material precioso que é tarde demais para evitar que o país se torne uma potência nuclear avançada.

Se for esse o caso, Trump poderá ter pouco sucesso ao adotar o manual dos quatro presidentes que o antecederam, que tentaram sem sucesso, com diferentes esquemas de negociações, sanções, sabotagem e ameaça de ataques unilaterais, obrigar o Norte a abandonar seu programa. E não está claro exatamente o que o presidente quis dizer quando afirmou que "solucionaria" o problema da Coreia do Norte.

Especialistas duvidam da declaração feita no ano passado pelo líder norte-coreano, Kim Jong-un, de que o país havia testado uma bomba de hidrogênio, mas estimativas da inteligência levadas a Trump nas últimas semanas dizem que o jovem e inconstante líder está trabalhando nisso. A aceleração dos programas atômico e de mísseis de Kim --o Norte lançou quatro mísseis balísticos em um teste no mês passado-- destina-se a provar que o país é e continuará sendo uma potência nuclear a se respeitar.

Para Trump, essa admissão está chegando, apesar de sua estratégia para conter o programa coreano continuar incompleta e de modo geral sem explicação, e enquanto alguns especialistas dizem que a própria ideia de conter os esforços de Pyongyang está condenada ao fracasso. O orçamento de Trump deverá incluir mais dinheiro para defesas antimísseis, e autoridades dizem que ele está mantendo um esforço de guerra cibernética e eletrônica para sabotar os lançamentos de mísseis da Coreia do Norte.

A insistência do presidente americano em que ele solucionará o problema da Coreia do Norte torna difícil imaginar que ele mude de direção e aceite seu arsenal. Mas em particular até seus aliados mais próximos começaram a questionar se o objetivo do "desarmamento completo, verificável, irreversível" --a política dos governos Obama e Bush-- ainda é factível.

"Precisamos mudar o objetivo fundamental de nossa política, porque a Coreia do Norte nunca aceitará abandonar seu programa", escreveram na semana passada no site The Cipher Brief um ex-vice-diretor da CIA, Michael Morell, e um almirante aposentado e ex-vice-presidente do Estado Maior Conjunto, James Winnefeld Jr.

"Washington acreditar que isso seria possível foi um dos principais erros em nossa política inicial", acrescentaram os dois, experientes em enfrentar o Norte. Os EUA e a China, afirmam eles, deveriam abandonar a ideia de desnuclearizar a península da Coreia e recorrer à dissuasão à moda antiga.

De modo semelhante, Robert Einhorn, um ex-especialista em não proliferação no Departamento de Estado, escreveu em um novo relatório para o Instituto Brookings que "uma estratégia de pista dupla envolvendo pressão e negociações" teria maior probabilidade de "trazer a China a bordo".

A técnica lembra a que foi usada para empurrar o Irã às negociações nucleares. Mas Einhorn advertiu que "enquanto a completa desnuclearização da Coreia do Norte seria o objetivo máximo das negociações, virtualmente não há perspectiva de que possa ser alcançada em curto prazo".

Os chineses não parecem inclinados a fazer mais que esforços simbólicos para pressionar a Coreia do Norte, temendo as repercussões se o regime cair. E Kim deixou claro que não está disposto a negociar o que ele considera sua principal proteção contra ser derrubado por Washington e seus aliados.

"A China ou decidirá nos ajudar com a Coreia do Norte, ou não", disse Trump na entrevista ao "Financial Times". Se os chineses não agirem, acrescentou ele, "não será bom para ninguém".
Não está claro o quanto a Coreia do Norte está perto de construir uma bomba de hidrogênio.

Mas Siegfried Hecker, um professor da Universidade Stanford que já dirigiu o laboratório de armamentos Los Alamos, no Novo México, e visitou o principal complexo nuclear da Coreia do Norte, disse que o anúncio de lítio 6, embora surpreendente, é um lembrete de que a Coreia do Norte, mesmo sendo um país atrasado, ainda é capaz de grandes avanços técnicos.

"Não posso imaginar que eles não estejam trabalhando em armas termonucleares de verdade", disse Hecker em uma entrevista.

Quando Trump e Xi se reunirem na quinta e sexta-feira, Kim, do outro lado do mundo, pode ter um plano próprio para a reunião de cúpula: fotos de satélite sugerem que ele está se preparando para um sexto teste nuclear. Trabalhadores escavaram um túnel profundo, capaz de bloquear vazamentos radiativos se for bem selado, deixando especialistas em inteligência em dificuldade para calcular os progressos do país.

Autoridades de inteligência dos EUA e seus homólogos da Coreia do Sul e do Japão estão discutindo se as próximas explosões marcarão passos importantes na rota para uma verdadeira arma termonuclear.

Quanto ao lítio 6 excedente, qualquer comprador interessado pode ter dificuldades para responder ao anúncio. O endereço dado não existe. O telefone foi desligado ou ninguém atende. Mas se a operação realmente estiver sendo conduzida da embaixada da Coreia do Norte em Pequim não deverá ser difícil para Xi descobrir: ela fica a 4 km do condomínio onde ele mora.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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