Camboja apela de dívida da época da guerra e diz aos EUA: são vocês que nos devem

Julia Wallace

Em Phnom Penh (Camboja)

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    Soldado americano lê as notícias durante a campanha no Camboja

    Soldado americano lê as notícias durante a campanha no Camboja


Durante a Guerra do Vietnã, enquanto o interior cambojano era bombardeado pelos aviões B-52 americanos, os Estados Unidos emprestaram centenas de milhões de dólares ao governo do Camboja para alimentar e vestir os refugiados que fugiam do caos.

Agora os Estados Unidos querem o dinheiro de volta, com juros.

Por décadas, o Camboja se recusou a pagar a dívida, que cresceu para mais de meio bilhão de dólares. Ele diz que, se alguém deve algo, são os Estados Unidos que têm uma dívida moral com o Camboja pela devastação que causaram.

Washington diz que empréstimo é empréstimo.

Mas recentemente, o primeiro-ministro Hun Sen, um admirador do presidente Donald Trump, apelou para que este perdoasse a dívida.

"Oh, América e presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como isso pode ser assim?" teria dito Hun Sen em fevereiro, segundo o jornal "The Cambodia Daily". "Vocês nos atacaram e exigem que lhes paguemos."

Entre 1965 e 1973, enquanto travava aquela que seria uma guerra fracassada no vizinho Vietnã, os Estados Unidos jogaram estimadas 500 mil toneladas de explosivos no leste do Camboja. O bombardeio começou de forma encoberta como parte do esforço para cortar as rotas de suprimentos usadas pelos vietcongues.

Em 1969, sob o presidente Richard M. Nixon, ele expandiu em uma campanha de bombardeio pleno, visando dar tempo para que as tropas americanas se retirassem do sul do Vietnã, enquanto detinha o avanço dos rebeldes ultracomunistas do Khmer Vermelho que combatiam o governo cambojano.

Agricultores de arroz fugiram dos combates e das bombas em grande número, abandonando seus campos e seguindo para a capital, Phnom Penh. Com a escassez de alimentos que se seguiu, os Estados Unidos, que apoiavam o governo anticomunista liderado por Lon Nol, emprestaram ao país US$ 274 milhões para que comprasse arroz, trigo, óleo e algodão americanos.

"Muitas, muitas pessoas vieram do interior para Phnom Penh, de modo que não havia ninguém para produzir alimentos", disse Chhang Song, que foi ministro da Informação sob Lon Nol, por telefone de Long Beach, Califórnia, onde vive. "Eram 2 milhões ou mais, de modo que tínhamos que fornecer alimento para aquelas pessoas."

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Tanques americanos em incursão no Camboja


O empréstimo, feito sob um programa chamado Alimentos pela Paz, foi como uma reflexão posterior para ambos os países, já que estavam mais concentrados na deterioração da situação da segurança. Em abril de 1975, os americanos se retiraram do Camboja pouco antes do Khmer Vermelho tomar o poder, provocando um período brutal de fome, trabalhos forçados e assassinato em massa no qual 2,2 milhões de cidadãos morreram.

Mas nos anos 90, após o Camboja sair de décadas de guerra, os Estados Unidos disseram que o dinheiro ainda era devido, com juros e multas de mora, apesar de ter oferecido uma renegociação com termos favoráveis. De lá para cá, a dívida inchou para US$ 506 milhões.

"Não dispomos de autoridade legal para perdoar dívidas de países que podem, mas não estão dispostos a pagar", disse Jay Raman, um porta-voz da embaixada americana em Phnom Pen, em um e-mail no mês passado. "Essas autoridades legais não mudam de um governo para outro, exceto em caso de uma ação por parte do Congresso."

O Camboja argumenta que o empréstimo é inválido, porque o governo de Lon Nol, que tomou o poder em um golpe em 1970 que depôs o príncipe Norodom Sihanouk, era ilegítimo. Mas o Departamento de Estado diz que o sistema financeiro internacional ruirá se governos não puderem ser responsabilizados pelas dívidas de seus antecessores.

Os Estados Unidos também contestam os argumentos do Camboja de que não pode pagar a dívida. Antes um dos países mais pobres do mundo, o Camboja ascendeu ao status de país de renda média-baixa no ano passado, com um produto interno bruto de cerca de US$ 19 bilhões, segundo o Fundo Monetário Internacional. A recusa em pagar o serviço da dívida junto aos Estados Unidos impossibilita o país de tomar empréstimos internacionais.

"Eu olho ao redor e, para mim, o Camboja não me parece um país que deva estar em atraso", disse o embaixador americano, William Heidt, a jornalistas locais em fevereiro. Ele disse que os Estados Unidos querem "negociar um acordo que seja bom para ambos os lados", mas que perdoar completamente a dívida não é uma opção.

"De tempos em tempos, por motivos que não creio que entendemos completamente, o governo cambojano sente a necessidade de criticar publicamente os Estados Unidos", disse Heidt. "Acho que isso reflete algum tipo de dinâmica política dentro do Camboja."

Hun Sen, que está no poder desde os anos 80, há muito se ressente com os Estados Unidos pelo bombardeio e por seu apoio ao Khmer Vermelho nas Nações Unidas, após uma invasão vietnamita tê-lo derrubado em 1979, disse Sebastian Strangio, autor de "Hun Sen's Cambodia" (O Camboja de Hun Sen, em tradução livre, não lançado no Brasil). Strangio disse que "está claro que ele está testando a têmpera do governo Trump".

Poucos dias depois da posse de Trump, o governo de Hun Sen ganhou manchetes internacionais ao anunciar a evacuação de um vilarejo para remoção de duas bombas de barril americanas não detonadas contendo gás lacrimogêneo, que foram descobertas atrás de uma pagoda. Posteriormente foi revelado que há muito se tinha conhecimento das bombas e os planos de evacuação foram discretamente abandonados.

Um mês depois, duas outras bombas foram removidas de um lago (onde era de conhecimento que estavam há décadas) acompanhadas por uma enxurrada de comentários nos veículos de notícias pró-governo acusando os Estados Unidos de hipocrisia em relação à dívida.

O legado do bombardeio ainda permanece com essas munições não detonadas, apesar dos Estados Unidos e outros países estrangeiros pagarem pela maioria dos esforços de remoção. Ninguém sabe quantas pessoas foram mortas no bombardeio, mas não há dúvida de que foi devastador.

"Eu entrevistei refugiados das áreas bombardeadas e maioria não tinha ideia do que tinha acontecido", escreveu por e-mail Donald Jameson, que era um assessor político da embaixada americana em Phnom Penh no início dos anos 70. "O céu ficou vermelho e a terra sacudiu, de modo que correram para salvar suas vidas. No entender deles, podia ter sido algum tipo de desastre natural. Alguns deles vieram de carro de boi trazendo suas casas desmanteladas consigo."

Alguns historiadores e jornalistas argumentam que o bombardeio abriu o caminho para o governo assassino do Khmer Vermelho ao desestabilizar o país. Altos líderes do Khmer Vermelho apoiam esse argumento. Mas a maioria dos historiadores cambojanos diz que outros fatores, incluindo a aliança de Sihanouk com os rebeldes e a decadência e corrupção sob o regime de Lon Nol, foram mais importantes.

David Chandler, um professor emérito da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália, que escreveu vários livros sobre a história cambojana, disse que os bombardeios foram um capítulo "altamente sórdido" da história americana, mas não contribuíram muito para promover a causa do Khmer Vermelho. Chandler também disse que duvida que o Camboja vá pagar a dívida.

"Na verdade, segundo a lei internacional eles provavelmente deveriam pagá-la, por se tratar de uma dívida incorrida por um regime anterior, mas o que importa é a forma como esses regimes mudaram de mãos e o que defendiam tornar isso impossível", ele disse.

Alguns acreditam que Hun Sen está levantando a questão para desviar a atenção da repressão pelo seu governo às vozes de oposição. Sophal Ear, um professor associado da Faculdade Ocidental que estuda a governança cambojana, disse que a questão "desvia a atenção do que está acontecendo no momento no Camboja e aponta os holofotes para o Camboja, a vítima".

Outros veem Hun Sen tentando opor os Estados Unidos à China, que vem despejando ajuda e investimento no Camboja. Enquanto os Estados Unidos insistem no pagamento da dívida, Pequim cancelou US$ 89 milhões em dívida no ano passado, além de oferecer ao Camboja centenas de milhões de dólares em empréstimos em termos altamente favoráveis. Anos atrás a China cancelou a dívida incorrida pelo regime do Khmer Vermelho que tinha apoiado.

Sophal Ear diz que considera as alegações de pobreza pelas autoridades do Camboja como sendo hipócritas, notando que a corrupção chega a estimados 10% do produto interno bruto do país.

"Essas mesmas autoridades que alegam pobreza circulam em Bentleys e Mercedes S600", ele escreveu por e-mail.

Mas no entender de Chhang Song, seja qual for a motivação do governo cambojano, o imperativo moral para os Estados Unidos é claro. "Perdoar a dívida", ele disse, apontando que o bombardeio ajudou a proteger as tropas americanas enquanto se retiravam do sul do Vietnã.

"É o contrário", ele disse. "São os americanos que devem dinheiro aos cambojanos."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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