China aproveita brecha com racha entre Trump e Alemanha

Alison Smale e Jane Perlez

Em Berlim (Alemanha)

  • Jim Bourg/Reuters

    17.mar.2017 - Trump e Merkel durante entrevista coletiva na Casa Branca, em Washington

    17.mar.2017 - Trump e Merkel durante entrevista coletiva na Casa Branca, em Washington

Sai o presidente Donald Trump, ofendendo quase todo mundo. Entra a China, ávida para conversar. Em um torvelinho político nesta semana, o novo presidente americano mal havia deixado a Europa para enfrentar em casa seus problemas com a Rússia, quando a chanceler Angela Merkel, a líder número 1 do continente, sugeriu que os EUA de Trump não são mais um aliado próximo e confiável.

Seguiu-se uma comoção, em que analistas dos dois lados do Atlântico falaram em uma importante mudança nas relações. E isso foi ainda antes que começassem a surgir os primeiros relatos da Casa Branca na quarta-feira (31) de que Trump tinha decidido sair do histórico acordo de Paris sobre a mudança climática --decisão confirmada nesta quinta-feira (1º).

Mas, como parecia indicar a movimentada agenda diplomática de Merkel nesta semana, ela pode ter outras opções.

Na segunda e terça-feiras, Merkel hospedou uma grande delegação do governo indiano, incluindo o primeiro-ministro Narendra Modi, que o porta-voz da dirigente alemã fez questão de chamar de "parceiro confiável". Depois, na quarta, a chanceler recebeu Li Keqiang, o primeiro-ministro da China.

O momento das visitas intensificou a especulação de que no atual estado febril da política global a China, particularmente, poderá se mostrar um aliado mais firme que Trump em relação à mudança climática e ao livre comércio, embora tenha suas próprias tensões e complexidades.

"O afastamento por Trump do papel clássico de liderança dos EUA está tendo um efeito desestabilizador", escreveu Henrik Mueller, professor na Universidade Técnica de Dortmund, em sua coluna semanal sobre economia global em "Der Spiegel". "Uma consequência: a política econômica global está se organizando de uma nova maneira. As outras duas grandes economias --União Europeia e China-- buscam novos parceiros para enfrentar os problemas internacionais."

O primeiro-ministro chinês ressaltou a importância da Alemanha ao parar em sua capital durante dois dias para conversações antes de ir para a sede da UE em Bruxelas, onde Trump causou má impressão na semana passada.

Trump claramente frustrou Merkel ao resistir a seus pedidos, e aos de outros europeus, para que permanecesse no acordo climático de Paris. Mas Merkel, que está em campanha para um quarto mandato com eleitores que se importam com o meio ambiente, mas raramente bajulam os presidentes americanos, insistiu que não há um racha.

Os chineses, porém, veem o comportamento rude de Trump na Europa como um presente que pode render frutos. Ele ajuda Pequim a implementar uma visão em longo prazo da China e a UE unidas como um equilíbrio geoestratégico contra os EUA, segundo alguns analistas chineses.

"Possivelmente veremos uma mudança importante nas relações triangulares China-EUA-UE, com a China e a UE se aproximando enquanto os EUA e a UE se afastam", disse Wang Dong, professor-assistente na Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim. "O premiê Li e a chanceler Merkel provavelmente vão confirmar seus compromissos firmados nos acordos de Paris."

Baohui Zhang, professor de relações internacionais na Universidade Lingnan, em Hong Kong, também vê grandes mudanças se aproximando. "Li deveria ser visto de uma perspectiva diferente agora por seus anfitriões", disse ele. "Acho que a Europa em geral e a Alemanha de modo especial estão coletivamente experimentando uma mudança de paradigma em suas percepções das relações EUA-Europa."

Mas essa visão não é universal, e outros veem um cálculo mais calibrado.

"Para Berlim, o relacionamento com a China não é uma ferramenta para adquirir maior influência global", disse Volker Stanzel, ex-embaixador alemão na China e no Japão. "O desenvolvimento dessa relação parece sensato para perseguir melhor os interesses econômicos da Alemanha na China", disse ele, especialmente em um momento em que a China está hesitando em seu compromisso de dar maior margem de manobra para companhias estrangeiras que operam na China.

Merkel, que visitou dez províncias chinesas em 11 anos no poder, insistiu em Pequim no último verão na reciprocidade para as empresas estrangeiras.

Em fevereiro, Alemanha, França e Itália apresentaram à Comissão Europeia um pedido para filtrar a entrada de investimento estrangeiro.

A Alemanha, em particular, ficou preocupada depois que investidores chineses adquiriram duas empresas estratégicas, a fabricante de robôs Kuka e a de alta tecnologia Aixtron, em negócios nebulosos.

O equilíbrio entre segurança e necessidade de capital em um mundo globalizado é uma preocupação central para a Europa e para o Japão, enquanto se aproximam da China.

O governo chinês se apresentou neste ano como o principal defensor da globalização como fonte de prosperidade --numa diferença marcante dos instintos protecionistas de Trump e sua rejeição dos acordos comerciais multinacionais, preferindo os acordos bilaterais mais antiquados.

O presidente Xi Jinping, da China, fez o discurso de abertura no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde posicionou a China como um garantidor do livre comércio. Apesar de críticas generalizadas de firmas e analistas ocidentais sobre o fracasso da China em abrir sua economia, líderes empresariais europeus aplaudiram.

Depois, Xi acaba de organizar uma conferência em Pequim para sua iniciativa Cinturão e Estrada, que deverá levar enormes investimentos chineses em pontes, ferrovias e portos à Europa e outras partes do mundo.

Xi deverá promover essa iniciativa na próxima reunião global importante, a cúpula do G-20, que se realizará em Hamburgo, na Alemanha, no início de julho.

A China está enviando para a Alemanha seus dois líderes mais graduados no espaço de pouco mais de um mês, o que salienta como Pequim leva a sério a Alemanha --e Merkel, que, segundo pesquisas de opinião atuais, deverá vencer as eleições nacionais em setembro.

Stanzel, o ex-embaixador, advertiu, entretanto, que a frequência das reuniões em muitos níveis não significa necessariamente um acordo.

"Vemos um longo processo de crescente frustração com o modo como a China implementa seus planos de reformas", escreveu ele por e-mail. Isso exige contatos intensos e frequentes, "o que pode dar a impressão de que se tornam mais calorosos".

Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, advertiu que substituir os EUA pela China "não é uma boa troca".

"A Alemanha tem muito mais a temer dos chineses do que dos americanos", disse ele nos bastidores de uma conferência sobre relações EUA-Alemanha realizada perto da Porta de Brandemburgo, onde o ex-presidente Barack Obama apareceu ao lado de Merkel na semana passada antes das reuniões com Trump em Bruxelas e na Itália.

Fratzscher defendeu um maior interesse da Alemanha pela Índia, cujo governo acabara de chegar para participar de uma conferência sobre investimentos com Merkel em um hotel próximo. A Índia hoje está em 24º lugar na lista de parceiros comerciais da Alemanha, entre a Irlanda e a Finlândia.

Nesta semana, Merkel prometeu apoiar as negociações estagnadas entre a Índia e a UE. As altas tarifas alfandegárias da Índia e sua burocracia --proteções que segundo ela são necessárias a um país em desenvolvimento-- retardaram o progresso durante uma década.

De modo semelhante, resta ver se Merkel consegue levar os chineses a nivelar o campo para as companhias estrangeiras e superar as tensões entre uma parceria mais profunda com Pequim enquanto as relações com os EUA de Trump azedam.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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