Estado Islâmico captura antiga fortaleza de Bin Laden

Rod Nordland e Fahim Abed*

Em Cabul (Afeganistão)

  • Enric Marti/ AP

    28.dez.2001 - Homem trabalha em campo perto das montanhas na região de Tora Bora, no Afeganistão

    28.dez.2001 - Homem trabalha em campo perto das montanhas na região de Tora Bora, no Afeganistão

Tora Bora, o reduto montanhês que já foi a fortaleza de Osama Bin Laden, foi tomada pelo grupo Estado Islâmico (EI) na madrugada de quarta-feira, conferindo aos extremistas uma significativa vitória estratégica e simbólica, segundo autoridades afegãs e anciãos e moradores locais.

Os combatentes do Taleban, que antes controlavam o extenso complexo de túneis e cavernas, fugiram na madrugada após um ataque determinado, que durou uma semana, pelo Estado Islâmico, segundo aldeões que fugiram da área na quarta-feira.

Hazrat Ali, um membro do Parlamento e um proeminente senhor da guerra da área, que ajudou os Estados Unidos a capturarem Tora Bora da Al Qaeda em 2001, disse que a ofensiva foi provocada pela decisão americana de lançar a chamada mãe de todas as bombas em uma rede de túneis do Estado Islâmico no distrito de Achin, em abril. A bomba de 9 toneladas foi considerada a maior bomba não nuclear já utilizada.

O Estado Islâmico então decidiu transferir seu refúgio para as cavernas e túneis de Tora Bora, disse Ali. "Cerca de 1.000 militantes do EI se reuniram perto de Tora Bora para capturar a área", segundo Ali. "Eu informei as forças do governo para atacá-los, e lhes disse que estavam tentando capturar Tora Bora, mas não deram atenção."

Um policial local afegão confirmou que a fortaleza foi tomada. "O EI capturou Tora Bora e as áreas ao redor", ele disse. "Os anciãos tribais estão aqui na minha sala. Eles todos escaparam do local na noite passada." Ele falou sob a condição de anonimato, por não estar autorizado a falar para a mídia de notícias.

Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Taleban naquela área, negou que Tora Bora tivesse sido tomada pelos insurgentes rivais. "Os combates prosseguem na área de Tora Bora entre o EI e nossos mujahedeen", disse Mujahid pelo serviço de mensagens Viber. "É a linha de frente entre nossos mujahedeen e o EI. Ninguém avançou naquela área."

Ele acusou os Estados Unidos de realizarem ataques aéreos em apoio ao Estado Islâmico, mas autoridades locais e moradores negaram ter ouvido algum.

Os moradores disseram que o Taleban fugiu. "O Taleban fugiu da área na noite passada e nos deixou à mercê do EI, assim como nossas mulheres e filhos", disse Juma Gul, um ancião tribal do Vale de Suleymankhel, próximo de Tora Bora, que disse estar entre as centenas de famílias que fugiram da área após a tomada pelo Estado Islâmico. "Não houve resistência pelo Taleban contra o EI, e as tribos locais não tinham como combatê-lo, então apenas escapamos."

Os militantes agora possuem uma base fácil de defender em Tora Bora, disse Ali, assim como acesso a muitas outras partes da província de Nangarhar por meio das montanhas Spin Ghar ao longo da fronteira com o Paquistão, onde fica Tora Bora. "O EI agora possui uma fortaleza e conquistará essas áreas uma atrás da outra", ele disse.

Ali tem ampla experiência no combate à Al Qaeda na área, mas também é acusado de ter ajudado Osama Bin Laden a escapar de Tora Bora em dezembro de 2001, traindo seus aliados americanos e afegãos à medida que se aproximavam da liderança da Al Qaeda.

Ali negou tê-lo feito.

O Estado Islâmico em Khorasan, como os militantes no Afeganistão e Paquistão são conhecidos, não tem ligação direta com a Al Qaeda, que é em grande parte uma força desgastada na área. Mas o Estado Islâmico foi formado originalmente por elementos da Al Qaeda, e os dois grupos apresentam muitas semelhanças em sua doutrina.

As forças do governo e seus aliados na coalizão na área de Tora Bora se envolveram recentemente em pequenos combates contra o Taleban, que se entrincheirou ali, apoiado por tribos locais ao longo da fronteira montanhosa com o Paquistão. Mas desde março, as forças afegãs apoiadas por tropas das Operações Especiais dos Estados Unidos vêm realizando uma campanha vigorosa contra o Estados Islâmico no distrito de Achin, também na cordilheira Spin Ghar, mas a cerca de 80 km a leste de Tora Bora.

Todos os seis soldados americanos mortos no Afeganistão até o momento neste ano morreram em combates no distrito de Achin.

As forças armadas americanas disseram ter matado centenas de combatentes do Estado Islâmico na área do distrito de Achin, incluindo o "emir" do Estado Islâmico em Khorosan, o xeque Abdul Hasib. Hasib era um ex-comandante do Taleban paquistanês, que rompeu com o grupo para se juntar ao Estado Islâmico. O Estado Islâmico e o Taleban competem de modo selvagem pelo domínio nas áreas que controlam, mas os combatentes mais extremistas do Estado Islâmico dominaram o distrito de Achin, assim como algumas outras áreas no sul da província de Nangarhar.

Os líderes do Taleban estão preocupados com o apelo do Estado Islâmico junto aos jovens combatentes, impacientes com o progresso da insurgência que já dura 15 anos.

Na área de Tora Bora, os moradores estavam furiosos tanto com o Taleban quanto com o governo por permitirem a tomada pelo Estado Islâmico. Malak Tor, um ancião tribal do distrito de Pachir Agam, onde fica Tora Bora, queixou-se de que as exigências dos moradores para que o governo montasse uma ofensiva para proteger Tora Bora foram ignoradas.

Entre outras coisas, os insurgentes do Estado Islâmico tomaram uma grande pedreira de mármore, assim como um depósito de combustível. "Agora eles terão os recursos financeiros para si mesmos e será muito difícil expulsá-los de Tora Bora", disse Tor.

O presidente Ashraf Ghani ordenou na quarta-feira que a 201ª Corporação do Exército Nacional Afegão avançasse contra o Estado Islâmico nos distritos que incluem a área de Tora Bora, segundo Attaullah Khogyani, o porta-voz do governador da província de Nangarhar. Alim Eshaqzai, o vice-governador, disse que os oficiais de segurança iniciariam operações por terra, ar e de artilharia contra o Estado Islâmico assim que possível.

* Khalid Alokazay, em Jalalabad (Afeganistão), contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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