Como Trump pode influenciar na sobrevivência de uma criança

Nicholas Kristof

No Condado de Rivercess (Libéria)

  • Nicholas Kristof/The New York Times

    Sunday Dahn, 2, deitado em um posto de saúde rural, na Libéria

    Sunday Dahn, 2, deitado em um posto de saúde rural, na Libéria

Um menino de 2 anos de idade chamado Sunday Dahn se encontra em estado de coma em um posto de saúde rural, com malária cerebral. Ainda que Sunday sobreviva, ele pode sofrer danos permanentes no cérebro.

Em Washington, veremos debates sobre a proposta do presidente Donald Trump de cortar programas de ajuda humanitária, e políticos sairão como vencedores ou perdedores dependendo do resultado. Mas os verdadeiros vencedores e perdedores são crianças como Sunday.

Estou em minha viagem anual que a cada vez contempla um universitário através de um concurso --este ano é Aneri Pattani, da Universidade de Northwestern--, e Aneri e eu descobrimos que a maioria das pessoas na zona rural da Libéria nunca sequer ouviu falar em Donald Trump. No entanto, ele afetará profundamente suas vidas, e mortes, uma vez que a assistência americana à saúde beneficia metade da população liberiana.

Não que Trump seja responsável pelo coma de Sunday, é claro. E nossa jornada pela Libéria ressalta o fato de que salvar vidas muitas vezes é complicado, e mais difícil do que pensamos.

As gestantes na Libéria recebem telas mosquiteiro gratuitamente para se prevenirem da malária, e praticamente todas as famílias receberam uma --incluindo a de Sunday. O problema é que as famílias muitas vezes não usam as telas.

"Sinto calor dormindo embaixo da tela", explica o pai de Sunday, Sayee Dahn, ansioso, ao lado da cabeceira do filho. Ele ama seu filho e não tinha intenção de pôr sua vida em risco, assim como um americano que envia uma mensagem de texto enquanto dirige não está deliberadamente arriscando a vida do filho no banco traseiro. Em ambos os casos, nós nos deixamos levar pelas rotinas e cometemos burrices.

Quando as telas mosquiteiro são distribuídas gratuitamente, às vezes elas são usadas de forma errada; eu já as vi virando vestidos de casamento, redes de pesca, esponjas e tela de galinheiro. No entanto, há provas inegáveis de que a distribuição de telas de fato salva vidas; elas são o motivo pelo qual o número de pessoas que morrem em todo mundo de malária caiu 60% desde 2000.

Quando Sunday começou a ter febre, seu pai gastou US$ 8 (cerca de R$ 27) --uma quantia considerável para ele-- em remédios de um camelô. Infelizmente o remédio aparentemente era falsificado ou não tinha efeito.

Esse é um problema enorme: um estudo revelou que 32% dos medicamentos contra a malária vendidos em países pobres eram falsificados. Empresas chinesas predatórias exportam esses medicamentos falsificados para países pobres com baixas regulações.

Então a malária de Sunday piorou. Quando seu pai o levou à clínica, ele estava beirando a morte.

Não há médicos em um raio de vários quilômetros, nem laboratórios ou bancos de sangue, mas a clínica tem um assistente, o reverendo Carl Hanson, que imediatamente deu ao menino um supositório antimalária. "Ele ainda corre perigo", Hanson me falou horas depois, enquanto olhava para o pequeno.

Contudo, embora a ajuda humanitária seja complexa e imperfeita, há provas esmagadoras de que ela funciona; de fato, ela ajudou a salvar a vida de mais de 100 milhões de crianças em todo o mundo desde 1990. Com o apoio financeiro dos americanos, a Libéria passou a ter profissionais de saúde rurais que incentivam as famílias a usarem telas em volta das camas, a administrar testes rápidos de malária, distribuem medicamentos confiáveis e encaminham casos problemáticos para uma clínica.

Os profissionais de saúde rurais também promovem a contracepção, que é gratuita na Libéria graças ao apoio da assistência americana e do Fundo de População da ONU. Trump propõe que sejam cortados tanto a assistência ao planejamento familiar quanto o dinheiro para o Fundo de População.

A doutora Ami Waters, co-diretora médica da Last Mile Health, que criou a rede de profissionais de saúde rurais, deu uma amostra das consequências caso a contracepção se torne menos disponível. Ela descreveu como tratou uma garota de 14 anos de idade que perdeu um bebê e sofreu complicações ginecológicas, e uma estudante de 19 anos que, ao tentar fazer um aborto em si mesma com um espeto, perfurou seu útero e sofreu septicemia.

"Acontece muita coisa quando não se tem planejamento familiar", observou Waters com frieza.

Ela tratou essas pacientes aqui no Condado de Rivercess, onde o hospital não tem nenhuma máquina de raio-X funcionando, a sala de cirurgia não tem água corrente nem oxigênio e as prateleiras da farmácia estão praticamente vazias. Não há aspirina, gaze, anestesia e, mais grave ainda, remédios para malária. Aneri observou em meu blog que ela tinha um estoque melhor de remédios dentro de sua bolsa do que esse hospital local.

E por que deveríamos nos importar? Não deveríamos resolver os problemas dos americanos primeiro, antes de nos preocuparmos com os africanos ocidentais?

Uma das respostas é que temos vínculos de uma humanidade em comum que deveriam nos impelir a ajudar. Outra é que temos um interesse próprio em prevenir o próximo surto de ebola ou qualquer outra epidemia. (Em outro hospital que eu e Aneri visitamos, uma mulher havia morrido um dia antes de nossa chegada com suspeita de febre Lassa, uma doença hemorrágica similar ao ebola.)

Algumas pessoas dizem: deixe que os africanos cuidem dos problemas da África. E, de fato, eles cuidam. No hospital de Rivercess, nós conhecemos Betty Tarr, que tinha quatro filhos próprios mas havia adotado seu sobrinho, God Power, depois que a mãe do menino morreu. Seu marido ficou furioso e a abandonou quando ela acolheu God Power.

Agora God Power está gravemente desnutrido e lutando por sua vida, mas não porque Tarr o estivesse negligenciando: quando a conhecemos, ela não comia há três dias.

Não podemos salvar cada uma das crianças, seja God Power ou Sunday. Mas os Estados Unidos e outros países ricos sempre tentaram fornecer quantias modestas --menos de meio por cento do PIB-- para o combate de doenças e do analfabetismo, como sinal de liderança global e de nossa humanidade em comum.

Trump propõe que abandonemos essa tradição bipartidária, e crianças como Sunday e God Power. Espero que o Congresso e o povo americano entendam que o que está em jogo não são números de um orçamento, mas sim a vida de crianças.

Tradutor: UOL

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