Governo Trump reduz ajuda humanitária e aumenta verba militar na África

Helene Cooper

Em Mua Mission (Maláui)

  • Emmanuel Braun/Reuters

    Soldados do Chade participam de exercício organizado por militares dos EUA em 2015

    Soldados do Chade participam de exercício organizado por militares dos EUA em 2015

Se jamais houve um exemplo de afabilidade militar americana e africana, foi em uma recente reunião de cúpula no Maláui, sobre taças de vinho Pinotage sul-africano e expectativas de benesses do Pentágono.

O general Daniel Allyn, vice-chefe de gabinete do Exército dos EUA, deu aos generais africanos conselhos sobre seu tempo no Haiti depois do terremoto de 2010.

O major-general Joseph Harrington, chefe do Exército dos EUA na África, deu um viva aos líderes militares da África ocidental que ajudaram a tirar do cargo o ex-presidente de Gâmbia, Yahya Jammeh, depois que ele perdeu sua tentativa de reeleição no ano passado.

O tenente-general Robert Kariuki Kibochi, comandante do Exército do Quênia, recebeu gestos de compreensão dos americanos quando esclareceu quanto sangue as tropas de paz africanas colocam na linha.

Mas mesmo aqui, entre homens que ouviram todos os motivos para esperar que receberão mais dinheiro do governo Trump, há inquietação de que a ajuda adicional dos EUA venha com um alto preço. As próprias autoridades do Pentágono temem que a mudança para uma presença militar pesada na África prejudique os interesses dos EUA em longo prazo, ao deixar de estimular o desenvolvimento. A ausência de escolas e empregos, dizem eles, cria mais brechas para grupos militantes.

"Temos declarações de Washington sobre reduções significativas em ajuda externa", disse o general Griffin Phiri, comandante das forças de defesa do Maláui, em uma entrevista durante a Cúpula de Forças Terrestres Africanas, uma conferência de 126 oficiais e membros de serviço do Exército americano e seus homólogos de 40 países africanos. "O que eu posso lhes dizer é que a experiência nos mostra que a diplomacia e a segurança devem andar juntas". Ele lamentou as "mensagens ambíguas" vindas de Washington.

Na verdade, a mensagem não é tão ambígua, segundo especialistas em política externa. Se o Congresso aprovar a proposta de orçamento do Pentágono do presidente Donald Trump para o ano fiscal de 2018 --ela pede mais US$ 52 bilhões além dos US$ 575 bilhões do orçamento base--, os EUA gastarão mais dinheiro em assuntos militares na África, mas reduzirão a ajuda humanitária e ao desenvolvimento em todo o continente.

O orçamento de Trump propõe cortar a ajuda à África dos atuais US$ 8 bilhões para US$ 5,2 bilhões em 2018, uma queda acentuada. Mesmo parte do dinheiro na proposta de Trump mudaria das áreas humanitária e de desenvolvimento para segurança, segundo especialistas em política externa.

"Estamos estreitando radicalmente a definição de por que e como a África importa para os interesses nacionais dos EUA", disse J. Stephen Morrison, vice-presidente sênior do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos. Segundo ele, foram-se os tempos em que direitos humanos, desenvolvimento, crescimento econômico e ajuda humanitária dominavam a agenda americana para o continente.

O Pentágono ainda não especificou quanto dinheiro irá para os militares africanos, mas autoridades dizem que haverá mais para programas de treinamento, exercícios conjuntos e iniciativas de contraterrorismo. Também poderá haver mais verbas para Camp Lemonnier, a base americana em Djibuti, onde os visitantes são recebidos com um vídeo de soldados americanos e do leste da África saltando de paraquedas de aviões e rolando na terra juntos, sob os gritos e uivos da música "Thunderstruck", do AC/DC.

O governo Trump propôs cortar os programas que compram drogas anti-HIV para pessoas infectadas em pelo menos US$ 1,1 bilhão --quase um quinto do financiamento atual. Pesquisadores dizem que os cortes poderão causar a morte de pelo menos 1 milhão de pessoas na África subsaariana e outros lugares. Ao todo, o orçamento apresentado por Trump reduziria as verbas do Departamento de Estado em aproximadamente um terço e cortaria a ajuda externa em cerca de 29%.

A proposta de Trump também se afastaria dos programas tradicionais de ajuda ao desenvolvimento, em favor de verbas de apoio econômico, investimentos de curto prazo baseados em cálculos da segurança nacional.

A Casa Branca ainda precisa nomear alguém para o cargo de secretário- assistente de Estado para assuntos africanos, o principal emissário do governo no continente. Trump fez apenas alguns telefonemas para líderes africanos desde que assumiu o cargo, e o Conselho de Segurança Nacional ainda não tem um diretor para assuntos africanos.

O secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, reforçou a opinião no continente de que o governo Trump dá pouca prioridade à diplomacia quando, em abril, ele desistiu no último minuto de uma reunião marcada com o presidente da União Africana, Moussa Faki Mahamat. O encontro abortado, relatado primeiramente pela revista "Foreign Policy", deixou o líder africano furioso.

Além disso, dois grandes grupos de pensadores, o Centro Internacional Woodrow Wilson para Estudiosos e o Instituto da Paz dos EUA, enfrentam a eliminação de verbas federais para seus programas na África sob a proposta de orçamento de Trump.

Mas no Pentágono a história é outra. O secretário da Defesa, Jim Mattis, estava no cargo havia menos de três meses quando fez sua primeira viagem ao continente, chegando ao Djibuti em um domingo ensolarado de abril para reuniões com o presidente Ismail Omar Guelleh. No Chade, em março, Forças Especiais dos EUA conduziram exercícios de treinamento com militares de 20 países africanos.

Os líderes militares dos EUA estão entre os primeiros a dar o alarme sobre os cortes propostos em verbas humanitárias, temendo que as reduções possam gerar condições que levem a mais conflito, o que poderia então significar mais intervenção militar.

Em um depoimento apresentado à Comissão de Serviços Armados do Senado neste mês, uma longa lista de oficiais aposentados dos EUA, incluindo o general Stanley McChrystal, o general David Petraeus e o almirante Michael Mullen, disseram que os cortes em ajuda externa prejudicam o Pentágono. "Fazemos parte de uma longa história de líderes militares americanos que perceberam que é mais econômico evitar um conflito do que encerrar um", escreveram os oficiais.

Ou, como disse Mattis ao Congresso em 2013, quando era o general que supervisionava as operações militares americanas no Oriente Médio como chefe do Comando Central dos EUA, "se vocês não vão financiar totalmente o Departamento de Estado, preciso comprar mais munição".

Os líderes militares de hoje refletem o sentimento de Mattis.

"Reconhecemos os limites do poder militar, e como é importante reforçar todos os elementos e capacidades que nossas organizações interagências e não governamentais sustentam na África e em todo o mundo", disse Harrington na sessão inaugural da conferência no Maláui.

O general Carter Ham, ex-chefe do Comando da África, disse em uma entrevista que os cortes em ajuda externa causariam uma necessidade de aumentos em gastos militares. "A insegurança na África, que afeta adversamente os EUA, deriva, na minha opinião, da falta de esperança", disse ele.

Ham deu um exemplo: "Se você é um jovem muçulmano no nordeste da Nigéria, olha para seu governo e diz: 'Minhas perspectivas de emprego são muito pequenas, não há educação ou saúde pública', e de repente chega um sujeito e lhe oferece dinheiro, prestígio, uma arma e uma garota, um objetivo, isso é interessante", disse ele, referindo-se aos muitos jovens que foram atraídos para o grupo militante Boko Haram.

No dia de encerramento da Cúpula de Forças Terrestres Africanas, os generais reunidos escutaram atentamente quando um diplomata americano fez uma pergunta vital.

"Como operamos em um ambiente quando estamos dispostos a enviar forças de manutenção da paz, mas não queremos dar os passos necessários para fazer a paz?", indagou Alexander Laskaris, uma autoridade do Departamento de Estado no Comando da África.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos