Um guia para o (agora ainda mais) inescrutável Brexit

Stephen Castle

Em Londres (Inglaterra)

  • Odd Andersen/Agence France-Presse/Getty Images

As negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como Brexit, estão finalmente em curso e no final determinarão o futuro internacional do país pelas próximas décadas. Mas a estratégia de negociação e os objetivos do governo se tornaram menos certos, e o resultado das negociações está menos previsível do que nunca.

A perda pelo Partido Conservador da maioria parlamentar nas recentes eleições embaralhou de novo o maço de possibilidades e deixou a primeira-ministra Theresa May lutando para manter sua posição. Não apenas a primeira-ministra perdeu grande parte de sua autoridade, como também fracassou em obter um endosso popular ao planejado rompimento duro com a União Europeia. Na quinta-feira, ela obteve a aprovação do Parlamento para seu programa legislativo, com apoio de 10 legisladores da Irlanda do Norte.

Tanto o Partido Conservador de May quanto o Partido Trabalhista de oposição permanecem comprometidos com a decisão do referendo do ano passado de saída da União Europeia. Mas eles discordam sobre que tipo de acordo negociar.

As tensões em torno da Europa ressurgiram entre importantes colegas de May, e ela enfrentará duras batalhas no Parlamento britânico (e possivelmente também no escocês) para aprovação da legislação de saída.

Igualmente dura é a tarefa enfrentada pelo governo de May nas negociações com Bruxelas, nas quais os demais 27 países da UE mantiveram (até o momento) uma frente unida.

Como tudo pode terminar? Ninguém sabe ao certo, mas aqui estão quatro possibilidades.

–Nenhum acordo

May há muito insiste que nenhum acordo é melhor do que um acordo ruim, apesar de estar dizendo isso menos enfaticamente desde a eleição. Os líderes empresariais dizem que um acordo ruim teria de ser muito punitivo para ser pior do que um colapso das negociações. Isso levaria as empresas britânicas para a "beira do precipício", pois perderiam seus arranjos para acesso aos mercados europeus em 2019.

Apesar de significativamente menos provável desde a eleição, a possibilidade de "não acordo" não deve ser totalmente descartada. A União Europeia exige progresso nos "termos de divórcio" com o Reino Unido antes que a futura relação comercial possa ser discutida. O divórcio inclui questões sensíveis como compromissos financeiros pendentes com o bloco, que poderiam resultar em uma conta de até US$ 75 bilhões.

May (ou um sucessor em caso de sua queda) poderia rejeitar esse preço alto, abandonar as negociações e tentar mobilizar apoio entre os eleitores britânicos alegando que os europeus estariam tentando puni-los pela saída. Para um governo frágil, essa seria uma estratégia de alto risco, mas também o seria concordar com uma saída cara e economicamente danosa.

–Um rompimento duro

May diz que deseja que o Reino Unido deixe a união aduaneira do bloco, o que elimina tarifas, para que o Reino Unido possa fechar acordos comerciais globais de modo independente. Ela também deseja sair do mercado único europeu, o que facilitaria o comércio em serviços, porque a saída encerraria a livre circulação de trabalhadores europeus, desse modo restaurando o controle nacional da imigração.

Segundo o plano dela, esses arranjos seriam substituídos por um acordo comercial abrangente com a União Europeia.

Apesar deste permanecer um resultado provável, com o líder trabalhista Jeremy Corbyn dizendo às pessoas que espera ser primeiro-ministro em seis meses, há obviamente um longo caminho pela frente.

May poderia perder em um voto de confiança, levando a uma disputa divisora pela liderança do Partido Conservador e a possibilidade do Partido Trabalhista lucrar com ela para retomada do controle do governo. Isso poderia diluir ainda mais o apoio a um rompimento duro.

Até mesmo fora um evento sísmico como esse, há ampla e crescente aceitação de que a negociação de um novo acordo comercial com a UE não conseguirá ser acertado antes de março de 2019, a data prevista para saída do Reino Unido.

Isso poderia levar a um "rompimento duro extra", um período de transição de vários anos para dar à economia britânica espaço para respirar, uma estratégia sendo defendida pelo ministro das Finanças, Philip Hammond.

Essa abordagem provavelmente envolveria a aceitação, durante a transição, das atuais regras de liberdade de circulação de trabalhadores europeus (e a jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu). Também provavelmente significaria uma aceitação pelo Reino Unido de um pagamento de divórcio, na prática comprando tempo para que sua economia se ajuste às novas circunstâncias.

Ao todo, isso poderia provar ser caro e envolvendo concessões. Mas quando se está olhando para o precipício, um paraquedas econômico começa a parecer atraente, mesmo que seu preço seja caro.

–Brexit suave

Após o sério revés eleitoral de May, a ideia de uma "Brexit suave", que dê prioridade a considerações econômicas em vez de controle da imigração passou a ganhar força. Os aspectos políticos são complicados. Oito entre 10 eleitores na eleição geral escolheram partidos que aceitaram o resultado do referendo, incluindo o Partido Trabalhista de oposição.

Mas os trabalhistas querem manter laços econômicos mais estreitos com o bloco, assim como o Partido Liberal Democrata, o Partido Nacional Escocês e o Partido Verde. Juntos, esses partidos obtiveram mais da metade dos votos.

Por ora, May rejeita a saída mais suave. Mas alguns analistas dizem suspeitar que a posição do governo mudará mais adiante nas negociações e que Londres pode buscar um tipo de filiação à união aduaneira. Caso contrário, o governo poderá ter dificuldade em obter aprovação no Parlamento da legislação de saída.

A resistência pode vir da Câmara Alta, a casa superior e não eleita do Parlamento que revisa a legislação. Mas a Câmara Alta provavelmente seguirá (após algum tempo) a Câmara Baixa eleita.

Isso torna crucial a posição do Partido Trabalhista. Ao se opor ao plano detalhado de saída da UE do Partido Conservador, em vez de se opor em princípio à saída), e ao pressionar por algum tipo de filiação à união aduaneira, os trabalhistas poderiam forçar os ministros a adotarem uma mudança de curso e, com sorte, derrubar o governo no processo.

–Deixa para lá

"Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único", disse o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, citando John Lennon, quando perguntado sobre a possibilidade da permanência do Reino Unido dentro da UE.

Com tanto os conservadores quanto os trabalhistas comprometidos com a saída, isso continua sendo improvável. Também exigiria uma mudança adicional significativa na opinião pública a favor da permanência, ainda mais do que na recente eleição, para os legisladores começarem a sentir a pressão. E mesmo assim, isso despedaçaria o Partido Conservador e provocaria uma campanha fervorosa contra o governo por parte dos tabloides britânicos.

Todavia, há sinais de uma desaceleração da economia britânica e, se as condições piorarem durante as negociações, a saída da UE poderia se tornar cada vez mais impopular. À medida que as trocas se tornem mais claras, os eleitores poderiam concluir que os ganhos prometidos pela campanha de saída durante o referendo eram mentirosos (como os 350 milhões de libras, ou cerca de R$ 1,5 bilhão, por semana que estariam disponíveis para o Serviço Nacional de Saúde) ou provavelmente serão sobrepujados pelas perdas.

Uma reversão da saída provavelmente envolveria uma mudança de governo e outro referendo, e tudo isso é difícil de imaginar. Mas se a recente volatilidade da política britânica prova algo, é que o improvável é possível.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos