Com expedições através dos EUA, veteranos tentam encontrar alguma paz depois da guerra

Dave Philipps

Em Flora Peak, Colorado (EUA)

  • Max Whittaker/The New York Times

    Os veteranos John French, Heath Lanctot e Jeremy Tierney descem montanha em Colorado

    Os veteranos John French, Heath Lanctot e Jeremy Tierney descem montanha em Colorado

Aqui a 4.000 metros, onde as tempestades varrem os cumes sem árvores e a quietude parece se estender tão longe quanto as vistas, um grupo de veteranos de combate seguia em frente sem dizer uma palavra em uma manhã ventosa de julho, à procura de algo que cada um teve dificuldade de encontrar desde que voltaram da guerra: paz.

O grupo estava quase na metade de uma caminhada de 5.000 km ao longo da Divisão Continental, do México até o Canadá. Com constantes 32 km por dia e um pouco de sorte, eles chegariam ao final antes das previsíveis neves de setembro em Montana. E esperavam também terminar com alguma perspectiva.

À frente estava o sargento Jeremy Tierney, um suboficial de elite dos Rangers do Exército e das Operações Especiais.

"Você vê o pior da humanidade. Depois de tudo aquilo eu fiquei um tanto furioso, um tanto pessimista", ele disse, enquanto seus olhos azuis esquadrinhavam o cume à procura de uma trilha. Havia um bracelete preto em seu pulso, gravado com o nome de um amigo morto em 2002.

"Esta caminhada é para um 'recentramento'", ele disse. "Eu a vejo como minha última missão. Estou caminhando de volta para casa."

Por todo o país, veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão estão em buscas semelhantes. A pé, de barco, bicicleta, até mesmo de cadeira de rodas, eles estão cruzando o território neste verão, tentando remendar a serenidade de vidas viradas do avesso pelo combate.

Com frequência os remédios tradicionais não bastam. Muitos primeiro tentaram terapia fornecida pelo Departamento de Assuntos de Veteranos, mas desistiram após encontrarem o que consideram resultados ruins e medicação demais.

O número de veteranos embarcando em jornadas pelo país cresceu nos últimos anos, disse Sean Gobin, um fuzileiro veterano de três missões que, após caminhar pela Trilha dos Apalaches em 2012, iniciou uma organização sem fins lucrativos chamada Warrior Expeditions para divulgar para outros veteranos o que sentiu ser uma experiência que mudou sua vida. Agora há várias outras organizações que tentam levar veteranos para atividades ao ar livre.

"Antes dos tempos modernos, os exércitos marchavam para casa e tentavam relaxar com seus companheiros. Quando eu saí, eu tive uma apresentação de PowerPoint de 20 minutos", disse Gobin. "Nós perdemos essa experiência catártica. Não dispomos mais do tempo e espaço para processar aquilo pelo que passamos."

Max Whittaker/The New York Times
John Steele durante trecho de 6.700 km que ele percorre através dos EUA com outros veteranos


Sua organização fornece planejamento, equipamento e um pouco de dinheiro para comida para veteranos, incluindo o grupo caminhando pela Divisão Continental. Os veteranos então encontram seu próprio caminho. Gobin disse que tinha no momento tinha nove grupos lugares diferentes.

É claro, viver deliberadamente na floresta está longe de ser uma nova meta americana, ou algo que se restringe aos círculos de combate, mas parece ter uma ressonância especial para os veteranos.

A primeira pessoa a percorrer toda a Trilha dos Apalaches foi um veterano da Segunda Guerra Mundial, Earl Shaffer, que decidiu, como explicou posteriormente, "caminhar até eliminar o Exército do meu sistema, tanto mental quanto fisicamente".

Pesquisa revelou os benefícios claros de expedições desse tipo. Em muitos casos, os veteranos que partiram com transtorno de estresse pós-traumático chegaram em casa com tão poucos sintomas que não mais se enquadravam no diagnóstico, disse Shauna Joye, uma professora de psicologia da Universidade do Sul da Geórgia que, juntamente com seu parceiro de pesquisa, Zachary Dietrich, pesquisou vários dos veteranos das caminhadas da Warrior Expeditions.

Na Divisão Continental, Heath Lanctot, um ex-fuzileiro de reconhecimento que serviu duas missões no Iraque, apontou para o local onde a trilha despencava 600 metros até um vale e então subia outra montanha. Em algum ponto por ali, eles encontrariam um local para acampar durante a noite.

"Isto é um 'reset' da vida para mim", ele disse. "Por anos eu dormi pensando muito no meu passado."

Certo dia durante sua segunda missão em 2005, um membro de sua equipe foi baleado em uma emboscada e Lanctot correu em meio ao fogo inimigo para levar o homem mortalmente ferido para segurança. Ele então perseguiu o inimigo, matando quatro, segundo a citação para uma Estrela de Bronze, incluindo um que foi morto em um canal com uma faca no pescoço.

Ele agora é um gerente de projetos.

Na trilha, ele deixou muita coisa sobre aquele dia sem ser dito, dizendo apenas: "Eu perdi um colega ali. Sabe, você passa por muita coisa".

Quando um divórcio forçou recentemente Lanctot, 37 anos, a confrontar seu passado, ele procurou o hospital dos veteranos por ajuda. "A primeira coisa que eu disse é que não queria nenhuma pílula, queria apenas conversar com alguém", ele se lembrou de dizer aos médicos. "Ainda assim eles me ofereceram oito medicamentos diferentes."

Uma opção melhor, ele decidiu, seria as provações diárias de percorrer a Divisão: beber de bebedouros para gado no deserto do Novo México, andar com dificuldade pelas encostas nevadas das Montanhas San Juan no Colorado, deixando tudo de lado exceto uma mochila de 18 kg e a promessa do que se encontra à frente.

O grupo desceu com dificuldade uma encosta com pontos nevados e chegou a um riacho turvo onde retiraram suas mochilas. Listras escuras nos ombros de suas camisas mostravam onde o peso e os quilômetros desgastaram o tecido. Lanctot lavou seu rosto na neve derretida gelada, depois encheu seu cantil e bebeu longamente.

"Gosto de acordar pela manhã e sair sozinho", ele disse. "Isso me dá tempo para pensar sobre minhas ações no passado, esclarecer as coisas."

Max Whittaker/The New York Times
Tatuagem do veterano Logan Hastings diz: "Só os mortos viram o fim da guerra"

Remando por meses

Em Greenville, Mississippi

Logan Hastings e seu pai, Jeff, arrastaram seus caiaques até um baixio tão longo e largo quanto um encouraçado e olharam para o rio Mississippi.

Sob o forte calor, centenas de andorinhas estendiam suas asas brancas e planavam sobre uma barcaça avançando com dificuldade contra a corrente lamacenta.

"Bonito, não é? Vemos tanta vida selvagem por aqui", disse Logan, 31, cuja barba loira se tornou tão descolorida pelo sol que parecia branca.

Pai e filho remaram por três meses e mais de 2.800 km desde a nascente do rio em Minnesota. Ambos são veteranos do Iraque. Logan também serviu no Afeganistão, onde atingiu uma bomba de beira de estrada. E nenhum conseguiu deixar para trás. Então decidiram remar por todo o rio para aumentar a conscientização a respeito do transtorno de estresse pós-traumático.

"Eu perdi mais amigos aqui do que perdi no exterior", disse Logan. "Demora muito para superar tudo o que aconteceu." Como um lembrete de que os efeitos de sua missão o acompanharão para sempre, tatuadas em seu antebraço direito estão as palavras: "Apenas os mortos viram o fim da guerra".

Seu pai, Jeff, 54 anos, foi um capelão da Reserva do Exército no Iraque e ministrava para os soldados em longos comboios ao longo de estradas salpicadas de bombas.

"O que eu vi?" disse Jeff sobre sua missão. "Sangue, vísceras e pessoas não querendo entrar de novo em um veículo. E era meu trabalho lhes dizer que tudo ficaria bem."

De volta em casa, ele se perguntava quantos deles realmente ficaram. Tantos ainda pareciam estar em dificuldades. Assim, quando seu filho mencionou remar pelo Mississippi, ele se voluntariou para acompanhá-lo e ajudar a levantar dinheiro para as famílias dos soldados que morreram por suicídio.

"Na minha idade, esta jornada tem sido muito difícil", disse Jeff. "Mas se pudermos fazer alguma diferença na vida de alguém, terá valido a pena."

Max Whittaker/The New York Times
Os veteranos Heath Lanctot, Jeremy Tierney e John French próximo ao Berthoud Pass no Colorado

Encontrando um propósito

Em Ozora, Missouri

Descendo uma elevação nas terras agrícolas daqui, Sara Lee freou sua bicicleta e se curvou para pegar uma tartaruga que cruzava lentamente o asfalto.

"Essa é a primeira que vejo viva", ela disse. Ela sorriu e colocou a tartaruga gentilmente na relva alta à beira da estrada. "Ainda bem que eu estava aqui."

Após uma missão no Iraque em 2003, a coisa mais difícil para a ex-sargento de 34 anos da Guarda Nacional foi encontrar um propósito. Ela sentia falta da intensidade da guerra, das fortes amizades que forjava. Em casa, tudo parecia cinzento e sem sentido.

"Eu sentia como se já tivesse vivido toda uma vida e não restava mais nada a fazer", ela disse.

Pior, ela se sentia culpada por alguns amigos terem perdido suas vidas no Iraque e agora sentir como se estivesse desperdiçando a dela.

Assim, em maio, ela e seu parceiro de viagem, um ex-fuzileiro chamado John Steele, iniciaram um percurso de cerca de 6.800 km do Atlântico até o Pacífico, percorrendo passos em montanhas e estradas à margem de rios tranquilos.

Com frequência a dupla tenta acampar de forma simples no quintal de alguém ou atrás de igrejas, mas com frequência, os moradores locais os convidam para ficarem do lado de dentro.

"Isso faz com que me recorde do que sou capaz", ela disse. "E tento honrar os amigos que perdi vivendo uma vida plena."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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