Opinião: porta-voz dá um novo look à comunicação da Casa Branca

Vanessa Friedman

  • Carlos Barria/ Reuters

    Sarah Huckabee Sanders participa de encontro com a imprensa na Casa Branca, em Washington

    Sarah Huckabee Sanders participa de encontro com a imprensa na Casa Branca, em Washington

É, não durou muito aquele look.

Após um brevíssimo interlúdio de 10 dias de irritantes bravatas trajadas de Loro Piana, cortesia da teatralidade de Anthony Scaramucci, que substituiu a de Mike Dubke --não, espera. Alguém se lembra de como era sua atitude? Eu também não. --, a equipe de comunicação da Casa Branca voltou para um estilo mais sutil, mas não menos notável.

Sarah Huckabee Sanders, que foi promovida a porta-voz quando Sean Spicer renunciou devido à nomeação de Scaramucci (nem Aaron --Spelling ou Sorkin-- conseguiria inventar isso), agora é o rosto público da Ala Oeste. De fato, ela passou a ter um papel sempre exposto agora que saiu da sombra do egocêntrico "Mooch", e que as entrevistas coletivas à imprensa para as câmeras foram retomadas.

No lugar do Breitling Avenger e dos Oakleys femininos espelhados (se você estivesse bolando os acessórios de um personagem descrito como um "membro agressivo e ostensivamente ambicioso dos aspirantes ao 1%", é isso que você deveria escolher) de Scaramucci, entra sua persona com cores de lápis de cera sem pontas soltas, mas também sem marcas.

Você poderia interpretar essa imagem como o triunfo de uma acessibilidade com gloss sobre uma ambição desabusada, mas provavelmente é mais correto ver o desdobramento como mais um exemplo do que significa se vestir de acordo com a função neste governo, e por que isso importa.

Tire a distração de Scaramucci de cena, e Sanders ainda apresenta uma imagem muito diferente de seu antecessor, que era ridicularizado por sua confusão de ternos desajeitados, gravatas sem graça e brochinho com a bandeira americana. Não que ela tenha colocado dessa forma, exatamente. "Quando se fala pelo presidente, você sempre tenta estar com sua melhor aparência possível --tem dias em que você está melhor do que em outros", foi o que ela escreveu por e-mail. Com um emoticon de sorriso.

É claro, existem coisas mais importantes a se discutir do que a aparência da equipe de comunicações da Casa Branca: direitos LGBT, sistema de saúde, Rússia...

Mas em uma Ala Oeste francamente obcecada pela imagem e pela aparência, o visual é a mensagem. Ou algo assim. Lembrem-se do presidente Donald Trump elogiando seus generais, dizendo que eles pareciam ter saído direto do "elenco central"; de sua suposta bronca a Spicer por sua aparência mal-ajambrada; do rumor de que ele teria declarado que as mulheres de sua equipe deveriam "se vestir como mulheres"; do fato de que uma das primeiras coisas que ele disse a Brigitte Macron durante sua visita no Dia da Bastilha foi: "Você está muito bem. Ela está muito bem fisicamente. Linda".

Isso é especialmente verdadeiro nessa era visual, e para um governo formado no cadinho dos reality shows, onde o que você veste e sua aparência têm protagonismo. Especialmente quando Sanders é somente a terceira pessoa a exercer a função de porta-voz e, como ela costuma mencionar em suas coletivas, a primeira mãe. Especialmente quando ela é encarregada de representar um governo no qual a atitude em relação ao gênero tem sido, digamos, uma questão um tanto polêmica e muito discutida.

Podem negar o quanto quiserem, acusem de sexismo (embora a cobertura sobre as escolhas de vestimentas de Spicer, sem discriminação de gênero, possa ser um atenuante contra isso), mas como Dana Perino, última porta-voz do presidente George W. Bush e hoje apresentadora da Fox, disse uma vez à revista "Elle": "Quando fui escolhida porta-voz, uma das primeiras coisas que pensei foi: 'Ah, meu Deus, o que vou vestir?' As pessoas realmente prestam atenção nisso". Do lado de fora e, aparentemente, de dentro.

E não porque as escolhas erradas o tornem um alvo fácil de zombaria no "Saturday Night Live". Scaramucci admitiu exatamente isso na manhã de domingo após sua nomeação durante uma participação em "State of the Union With Jake Tapper" na CNN, quando ele disse sobre Sanders em sua nova função: "A única coisa que peço a Sarah --Sarah, se você estiver assistindo, adorei a pessoa que fez nosso cabelo e maquiagem na sexta-feira, então gostaria de continuar usando essa pessoa".

Isso irritou um bocado de gente nas mídias sociais --como ele se atreve a reduzi-la à sua aparência?-- mesmo depois que ela e seu chefe-relâmpago transformaram o episódio em meio que uma troca de gracejos. Mas também foi um detalhe significativo no que diz respeito à igualdade no quesito da aparência.

Então, embora o novo emprego de Sanders não tenha significado exatamente um novo visual, ele introduziu uma versão mais adequada para a TV do seu visual antigo, que foi caracterizado como "treinadora de hóquei" e "professora substituta" (pela "Slate") e "uma figura do mundo real, que se veste dentro do orçamento" (pelo "The Hollywood Reporter").

"Uma das funções mais importantes --não somente como porta-voz, mas em qualquer posição-- é passar sinceridade e transparência para o povo americano, e essa é a imagem na qual estou mais focando", observou Sanders em seu e-mail. "Meu foco é menos nas pessoas na sala e mais no povo dos Estados Unidos. Tento ser alguém com quem as pessoas se identifiquem e transmitir a mensagem do presidente diretamente para as pessoas de todo o país".

Isso significa um cabelo com brilho de comercial de xampu, e uma pele sem brilho. ("Nós costumamos fazer o cabelo e a maquiagem antes de aparecer diante das câmeras", escreveu Sanders. "Isso é algo que gestões anteriores também fizeram, e nessa era de câmeras HD, aceito toda ajuda que conseguir".)

Significa saltos quadrados bege e o onipresente colar de pérolas de uma única volta. Significa que, até o momento, os cardigãs e vestidos estampados que caracterizavam sua imitadora no "Saturday Night Live" sumiram, substituídos por uma série de vestidos quase idênticos na altura do joelho, gola canoa, em cores como vermelho, verde, preto e fúcsia. Significou, durante sua coletiva de terça-feira, babados no ombro da blusa, como um vestido de festa de formatura. Não significou, até o momento, tailleurs ou blazers.

Pode não parecer grande coisa, mas abandonar o blazer, mesmo em 2017, é uma escolha notável em um púlpito, uma que alinha Sanders mais com o campo de Ivanka Trump e Kellyanne Conway nas vestimentas do que com o de suas antecessoras: Dee Dee Myers, porta-voz durante a gestão Clinton que era conhecida por suas minissaias e blazers coloridos, e Perino, que pendia para ternos em estilo Chanel (ou mesmo a porta-voz fictícia C.J. Cregg na série "The West Wing", quem a figurinista Lyn Paolo vestiu com terninhos Calvin Klein e Armani).

O efeito final é uma feminilidade que não foi armada de saltos altos ou blindada, mas que ganhou acessibilidade: não importam quais sejam suas palavras, elas são emolduradas por um estilo embebido de um alegre espírito de cartões da Hallmark. Que certamente deve inspirar a forma como elas são recebidas. Se boa parte da gestão ainda segue Wall Street (a versão de Oliver Stone), Sanders oferece referências visuais de cidadãos comuns (versão da Fox).

Um diretor de elenco aprovaria.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos