Ter cientistas como oposição ao governo significa "guerra à ciência"?

Daniel Engber

  • Antonio Bronic/ Reuters

    Em Zagreb (Croácia), mulheres carregam cartazes em solidariedade à Marcha das Mulheres, que ocorreu nos EUA e outros países

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Um exército de defensores da ciência marchará em Washington, a capital dos EUA, em 22 de abril, segundo um comunicado de imprensa divulgado na quinta-feira (2). A demonstração de força pretende "chamar a atenção para tendências perigosas na politização da ciência", segundo os organizadores, que citam "ameaças à comunidade científica" e a necessidade de "proteger" os pesquisadores de um regime ameaçador. Se Donald Trump pretende aumentar seu aparente ataque aos valores científicos, que fique sabendo: a ciência revidará.

Já passamos por isso antes. Pintar a oposição a um presidente em exercício como resistência a uma "guerra à ciência" provavelmente ajudou os progressistas dez ou quinze anos atrás, quando George W. Bush alienou os eleitores com seu aparente desrespeito pela ciência climática e a pesquisa de células-tronco embrionárias (entre outros campos de estudo). A interferência do governo Bush na pesquisa e o desrespeito pela perícia se revelaram uma fraqueza, como descreveu o historiador Daniel Sarewitz em um ensaio inspirado de 2009. Quem poderia realmente argumentar contra a livre busca pelo saber? Os denunciantes democratas fizeram uma arma de seu apoio ao progresso científico: "Os americanos merecem um presidente que acredite na ciência", disse John Kerry durante a campanha de 2004. "Vamos pôr fim à guerra à ciência do governo Bush, restaurar a integridade científica e retornar à tomada de decisões com base em evidências", declarou a plataforma do Partido Democrata quatro anos depois.

Em 2016, a campanha de Hillary Clinton continuou com o plano testado em batalha. "Eu acredito na ciência", anunciou ela sob aplausos enlevados na Convenção Nacional Democrata em julho passado. Mas se essa mensagem atingiu sua base não se mostrou persuasiva em uma escala mais ampla. O problema era que as condições para o combate sobre a ciência foram transformadas ultimamente. Antigas alianças estão mudando, e os partidários da ciência que pretendem marchar em Washington deveriam compreender as implicações dessa mudança. Hoje a "guerra à ciência" pode ser uma armadilha.

A Guerra à Ciência funciona para Trump porque sempre teve mais a ver com classe social do que com política.

Nos anos Bush, havia todos os motivos para se acreditar que o ativismo pró-ciência seria eficaz. Durante mais de quatro décadas, os americanos viram os cientistas como merecedores de respeito. Ainda hoje, cerca de 40% dos adultos manifestam "uma grande confiança" nos líderes da comunidade científica, segundo a Pesquisa Social Geral; nossa fé na ciência só perde, nessa medição, para nossa fidelidade aos líderes militares do país. (O ramo Executivo do governo, por outro lado, fica abaixo de 20%, e a imprensa, em porcentagens de um dígito.) Ao mesmo tempo, mais de 70% dos americanos acreditam que os benefícios da pesquisa científica superam os danos, e quase 90% dizem que os cientistas deveriam ter pelo menos uma "quantidade justa" de influência nas políticas. À luz de todo esse patrocínio da ciência, que tem sido bastante consistente ao longo do tempo, deve ter parecido claro que se os democratas pudessem se rotular como o partido da ciência --se eles pudessem reemoldurar as disputas políticas como escaramuças entre a ciência e a fé, ou entre evidência e crença--, eles teriam uma maneira de contornar o Partido Republicano e captar um pouco seu apoio.

Mas o que tinha sido uma estratégia política afiada pode agora ter perdido o fio. Não quero dizer que o amplo apelo da ciência esteja em declínio; de modo geral, os americanos são tão entusiásticos quanto sempre sobre o valor de nossas instituições científicas. Mas o eleitorado se reorganizou, ou foi reorganizado, por Trump, de tal modo que a luta em nome da ciência não cruza mais as linhas partidárias e não influencia tantos eleitores fora da base democrata.

A Guerra à Ciência funciona para Trump porque sempre teve mais a ver com classe social do que com política. Um olhar rápido nos dados da Fundação Nacional de Ciência mostra que o apoio à ciência acompanha de modo confiável a posição socioeconômica. Em 2014, 50% dos americanos na faixa superior de renda e mais de 55% dos que tinham diploma superior afirmaram ter grande confiança nos líderes científicos do país. Entre os de renda mais baixa ou com pouca instrução, esse apoio cai para 33% ou menos. Enquanto isso, cerca de 5/6 das pessoas ricas ou de instrução superior --comparadas com menos da metade dos pobres ou dos que não terminaram o segundo grau-- dizem acreditar que os bens da ciência superam seus potenciais danos. Para colocar isso cruamente, em termos de turfe, a instituição de pesquisa científica consistentemente marca cerca de 30 pontos a mais entre as elites do que entre a classe trabalhadora com pouca instrução.

Dez anos atrás, essa distinção não importava tanto para a política. Quando Bush foi eleito em 2000 e 2004, ele ganhou entre eleitores de instrução superior --as pessoas de mentalidade mais científica no país. Estas tinham maior probabilidade de ser influenciadas por um discurso democrata de "Lute na Guerra à Ciência". Em 2008 e 2012, a turma que foi à faculdade, favorável à ciência, deu meia volta e votou em Obama, inclinando-se a seu favor em vários pontos.

Na última eleição, os grupos foram realinhados para equiparar o fervor antielitista da campanha de Trump. Os pouco instruídos vieram a ser a principal fonte de apoio dos republicanos. Entre os que nunca fizeram faculdade, Trump ganhou por uma margem de 8%, enquanto Hillary Clinton teve uma vantagem de 9 pontos entre os universitários. Segundo as Pesquisas Pew, essa foi de longe a maior brecha educacional em pesquisas de boca de urna desde 1980. Em uma análise pós-eleitoral no site FiveThirtyEight, Nate Silver descobriu que Trump teve uma vantagem de 31 pontos nos condados menos instruídos do país, enquanto Clinton teve uma vantagem de 26 pontos nos mais instruídos --e concluiu que a renda explicava apenas em parte esse efeito.

Assim, estamos em uma posição em que o sentimento anticiência nos EUA, tal como existe, se reuniu por trás de um único candidato. Os partidários da ciência notaram, também, e sua retórica da "guerra à ciência" nunca foi tão frenética e intensa. "Trump é o presidente mais anticiência que já existiu?", perguntou a revista "Newsweek" um dia depois da eleição. Outros canais desde então vêm catalogando as medidas mais agressivas e anticientíficas de Trump e outras advertências que marcam uma futura guerra épica.

Mas a ascensão do antielitismo como força política torna essa reação mais arriscada que antes. Uma década atrás, um chamado às armas contra a Guerra à Ciência --e uma marcha da ciência em Washington-- poderiam ter ajudado a desestabilizar uma coalizão de direita, ao assinalar que as políticas de Bush sobre, digamos, pesquisa de células-tronco e controle natal estavam fora da corrente dominante. Mas com as linhas de batalha retraçadas, a mesma abordagem do ativismo hoje parece que poderia ter o efeito oposto. Da mesma forma que lutar a Guerra ao Jornalismo deslegitima a imprensa ao torná-la partidária e mesquinha, a atual guerra à ciência também poderia minar a credibilidade científica. Ao confrontá-la diretamente, os ativistas da ciência poderão acabar ajudando a consolidar o apoio a Trump entre seu eleitorado mais ardente, cético da ciência. Se eles não tomarem cuidado com onde e como pisam, a marcha da ciência poderá se transformar em uma emboscada.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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