Opinião: História da Guatemala serve de alerta para consequências da desigualdade

Anthony W. Fontes*

  • Johan Ordonez/AFP

    Protesto na Guatemala contra o presidente Jimmy Morales

    Protesto na Guatemala contra o presidente Jimmy Morales

É um momento sem precedente na história política de uma nação. Um político novato, um homem famoso por palhaçadas de baixo nível na televisão e que nunca ocupou algum cargo político, está concorrendo à presidência. Ele explora o descontentamento fervente com a corrupção do establishment político e com os políticos tradicionais. Apoiado por elementos da extrema-direita, ele faz promessas vagas e defende sua falta de experiência política como motivo para votar nele. Sua concorrente é uma ex-primeira-dama casada como um ex-presidente de inclinação de esquerda. Ela é uma figura polarizadora, considerada por grande parte do eleitorado como sendo profundamente corrupta.

Surpreendendo todos os especialistas, ele pega uma onda de fúria populista até a vitória.

Soa familiar? Sim, mas também é a história da eleição presidencial de 2015 na Guatemala. O político é um homem chamado Jimmy Morales, um humorista de talk show que concorreu por um partido político de extrema-direita chamado Frente de Convergência Nacional. Seu slogan de campanha repetido com frequência era "Nem corrupto e nem ladrão".

O apoio a Morales, assim como a Donald Trump, se baseou em parte na frustração dos eleitores com o establishment político que consideram responsável por um status quo descaradamente injusto. Mas diferente de Trump, Morales obteve uma vitória esmagadora contra sua oponente, Sandra Torres, obtendo quase 70% dos votos no segundo turno eleitoral.

À primeira vista, os paralelos entre as vitórias do presidente Morales e do presidente Trump podem parecer mera coincidência. De muitas formas, os dois países não poderiam ser mais distintos. A Guatemala há muito é uma das sociedades mais desiguais do Hemisfério Ocidental e, por gerações, o sonho americano tem atraído centenas de milhares de guatemaltecos que buscam escapar da pobreza e insegurança.

Mas nos Estados Unidos, a promessa de um futuro melhor que anima o sonho americano, não apenas para os imigrantes pobres, mas também para as famílias de classe trabalhadora americanas, está recuando há décadas. Desde os anos 70, a desigualdade entre ricos e pobres tem crescido de forma inexorável. E agora, as aspirações dos legisladores americanos de direita podem pressagiar convergências ainda mais profundas e perturbadoras entre os pesadelos centro-americanos e o sonho americano que se desvanece.

Os níveis espetaculares de desigualdade na Guatemala foram construídos ao longo de muito tempo. Por 100 anos, a minúscula elite oligárquica lutou ferozmente para manter as rédeas do poder e monopolizar a economia de exportação do país. Por meio tanto de opressão militar quanto de manipulação do fraco sistema democrático, ela rechaçou continuamente os esforços de reforma partidos de baixo. Como resultado, a Guatemala tem hoje o 12º maior nível de desigualdade de renda no mundo, com alguns estudos indicando que 5% dos guatemaltecos são donos ou controlam 85% da riqueza nacional. Essa elite também trabalhou para manter o Estado guatemalteco fraco e incapaz de interferir em seus interesses. Nisso, ela foi incrivelmente bem-sucedida. A Guatemala tem uma das alíquotas de imposto de renda mais baixas do hemisfério e algumas das mais fracas leis de regulação financeira, ambiental e de trabalho.

As consequências do sucesso da elite foram terríveis para o restante do país, oferecendo uma história de alerta para aqueles que acreditam que eviscerar as instituições públicas pode levar a uma sociedade mais justa. A falta de recursos para a educação pública faz com que a Guatemala seja um dos países mais iletrados das Américas, e os sistemas em pedaços de saúde e previdência social minam as poucas redes de segurança social existentes para os pobres. Enquanto isso, uma fatia minúscula de classe média se agarra ao poleiro precário entre a superminoria super-rica e um mar de pobreza abjeta. Mais de 50% dos guatemaltecos vivem abaixo da linha de pobreza e a mobilidade social é virtualmente inexistente, um dos motivos para tantos guatemaltecos pobres arriscarem a jornada perigosa para os Estados Unidos.

Mas as condições socioeconômicas nos Estados Unidos que tornavam o sonho americano possível há muito estão ruindo. Os salários da classe trabalhadora permanecem estagnados há 30 anos, enquanto mais e mais riqueza é controlada pelo 1% no topo da pirâmide, o que coloca a desigualdade de renda nos Estados Unidos em seus níveis mais altos desde os anos 1920. Instituições que tornavam a mobilidade social possível, como ensino superior a preço acessível, e aquelas que protegiam as famílias de renda mais baixa, como os programas de bem-estar social, sofreram cortes drásticos nos últimos 30 anos, forçando as famílias pobres a contraírem mais dívidas e reduzir seus horizontes. Enquanto os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres, o aumento das reduções de impostos para os ricos asseguram que contribuam com um percentual cada vez menor de sua riqueza aos cofres públicos do que os membros da classe média em dificuldades cada vez maiores.

E agora, por meio da aceleração da destruição das instituições nacionais e a fortificação da elite, os políticos de direita nos Estados Unidos parecem determinados em reestruturar a sociedade americana de modo a cada vez mais se parecer a da Guatemala. Enquanto o presidente Trump vocifera a respeito de "grande e belo muro" para impedir a entrada de imigrantes pobres, os legisladores republicanos apresentam legislações para eliminação das leis de supervisão financeira aos bancos, dos padrões de proteção ambiental, do Departamento de Educação e da reversão do atendimento de saúde a preço acessível. Eles pedem por um maior redução do fardo tributário sobre os ricos e enorme redução da carga tributária para as empresas, para tornar os Estados Unidos mais competitivos na guerra fiscal global.

Os Estados Unidos ainda são um farol que atrai os centro-americanos desesperados por uma vida melhor. Em julho do ano passado, eu falei com um guatemalteco de 20 anos chamado Wilmer, que estava viajando pelo México buscando atravessar para os Estados Unidos. "Para pobres como eu, meu país é como uma prisão sem saída", disse Wilmer, enquanto aguardava com dezenas de outros centro-americanos para tomar um trem de carga com destino ao norte. "E todos sabemos que esta jornada é perigosa. Podemos fracassar, até mesmo morrer. Mas ao menos há alguma esperança no final dela."

Por ora, o sonho americano está vivo. Mas quão assustador é imaginar um futuro no qual a esperança que os Estados Unidos representam para os pobres centro-americanos está extinta, não por causa de um "grande e belo muro", mas porque a desigualdade arraigada os transformaram em um sósia monstruoso de suas próprias sociedades.

*Anthony W. Fontes é um membro de pós-doutorado da Universidade de Wisconsin, em Madison

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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