A estratégia do Canadá para Trump: contorná-lo

Max Fisher

Em Toronto (Canadá)

  • STEPHEN CROWLEY/NYT

    13.fev. 2017 - Donaldo Trump cumprimenta o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, na Casa Branca, em Washington

    13.fev. 2017 - Donaldo Trump cumprimenta o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, na Casa Branca, em Washington

Enquanto o presidente Donald Trump provoca ruptura de alianças por todo o mapa, quase todas as esferas de governo do Canadá assumiram novos deveres, em uma campanha audaciosa discreta para bajular, conter e, se necessário, coagir os americanos.

A estratégia do primeiro-ministro Justin Trudeau para administrar Trump é diferente de qualquer outra coisa tentada por outro aliado. E tem sido em grande parte bem-sucedida, enquanto até mesmo líderes experientes como Angela Merkel, da Alemanha, fracassaram.

Mais que talvez qualquer outro país, o Canadá depende dos Estados Unidos, que são responsáveis por 70% de seu comércio. Seu setor manufatureiro considerável está estreitamente integrado com a produção americana, o que significa que o menor endurecimento na fronteira ou negociações prolongadas de comércio poderiam colocar sua economia em risco.

Estabelecido nos primeiros dias após a eleição de Trump, o plano até mesmo alista Brian Mulroney, um ex-primeiro-ministro conservador e adversário político do pai de Trudeau, que também foi primeiro-ministro. Mulroney conhece Trump e seu secretário de Comércio, Wilbur Ross, dos circuitos sociais do sul da Flórida, onde todos os três têm casas de férias.

O ex-chefe de gabinete de Mulroney e embaixador em Washington, Derek Burney, disse que eles pediram ao governo Trudeau para "cultivar acesso, não apenas dentro da Casa Branca. Para trabalharem o sistema americano como nunca antes".

Ao organizar uma rede de base de empresas, autoridades e legisladores americanos, o Canadá espera conter os impulsos protecionistas e nacionalistas de Trump. Ao enfatizar os benefícios da harmonia, os canadenses não estão abrindo mão de exercer força, com um governo provincial a certo momento ameaçando discretamente restrições comerciais ao Estado de Nova York.

"Não temos o mesmo luxo que os alemães de contar com um oceano entre nós", disse Burney. "E não temos um plano B."

A sala de guerra

Nas semanas que antecederam a posse de Trump, Trudeau reorganizou seu governo para se concentrar em seu aliado agora incerto.

Sua nova ministra das Relações Exteriores, Chrystia Freeland, uma ex-jornalista com longa experiência nos Estados Unidos e uma defensora convicta da ordem global liberal, é vista como capaz de persuadir os americanos quando possível e desafiá-los quando necessário.

A equipe de Freeland inclui Andrew Leslie, um ex-general de exército e veterano do Afeganistão que conhece muitos dos generais americanos que integram o governo Trump.

Trudeau montou uma "sala de guerra" dedicada aos Estados Unidos, chefiada por Brian Clow, um operador do partido do governo que já trabalhou em algumas de suas mais importantes vitórias eleitorais.

O novo escritório buscou cultivar pessoas que cercam Trump. Durante uma visita em fevereiro à Casa Branca, Trudeau e Ivanka, a filha de Trump, lideraram um painel a respeito de mulheres nos negócios. Os dois posteriormente foram assistir "Come From Away", uma peça na Broadway sobre o Canadá abrigando viajantes cujos voos foram desviados após o 11 de Setembro.

Os esforços inicialmente deram resultado. O discurso de Trump ao Congresso, em fevereiro, mencionou apenas um líder estrangeiro: Trudeau, a quem ele elogiou por seu painel com Ivanka Trump.

Poucos dias depois, a Casa Branca isentou o oleoduto Keystone XL, supervisionado pela empresa canadense TransCanada, da ordem executiva de Trump que obriga os oleodutos nos Estados Unidos a serem construídos com aço americano.

Mas a lua de mel não durou. Trump acusou o Canadá de práticas comerciais injustas e ameaçou se retirar do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), o que devastaria a economia canadense. Apesar de terem concordado com uma renegociação, as autoridades aqui temem que a incerteza possa afugentar investidores ou levar fábricas a se mudarem.

Outros líderes estrangeiros também descobriram que seus aliados no governo podem ser incapazes de moderar Trump. Muitos deixaram de absorver os ataques dele e passaram a revidar. Os canadenses sentem que não podem se dar ao luxo dessa mudança.

A estratégia do donut

Assim, o Canadá passou a cortejar todas as outras esferas de governo, formando uma espécie de donut em torno de um buraco na forma da Casa Branca.

As autoridades canadenses se espalharam por todos os Estados Unidos, reunindo-se com prefeitos, governadores, membros do Congresso e líderes empresariais em assuntos que vão de comércio a meio ambiente.

As agendas dos ministros lembram as de bandas de rock durante turnês de verão. Eles viajam armados com dados sobre a quantidade precisa de dólares e número de empregos gerados pelas empresas canadenses e o comércio naquela região.

"Eles não medem esforços, indo a partes da América às quais poucos ministros canadenses já foram", disse Burney.

Indícios dessa rede surgiram quando Trump anunciou que os Estados Unidos se retirariam do Acordo do Clima de Paris. As autoridades canadenses disseram que em vez disso buscariam acordos climáticos com os Estados americanos, muitos dos quais já em progresso.

"Algo estalou nas últimas semanas", disse Roland Paris, um ex-conselheiro de política externa de Trudeau. Com o aumento das ameaças aos acordos comerciais, o rompimento de Trump com o Acordo do Clima convenceu os líderes canadenses sobre a necessidade de medidas drásticas.

De lá para cá, disse Paris, "a abordagem tem sido manter relações cordiais com a Casa Branca e, ao mesmo tempo, partir para um esforço extraordinário para ativar tomadores de decisões americanos em todas as esferas do sistema político americano".

Trudeau insinuou a mudança em um tuíte, escrevendo: "Estamos profundamente desapontados com a decisão do governo federal dos Estados Unidos de se retirar do Acordo de Paris".

A frase "governo federal" visava sinalizar o plano de Trudeau de cortar suas perdas com Trump e se concentrar nos governos estaduais e locais, segundo um funcionário canadense próximo das decisões de políticas em relação aos Estados Unidos, que pediu para permanecer anônimo devido à sensibilidade das relações entre os dois países.

O funcionário disse que os líderes canadenses planejam contatar individualmente cada legislador no Congresso.

A campanha em Nova York

Um teste inicial ocorreu em Nova York, onde o governador Andrew M. Cuomo introduziu um artigo "compre americano" no orçamento para todos os contratos estaduais de valor acima de US$ 100 mil.

As autoridades daqui, sensíveis à influência de Trump na política, temiam que a medida poderia inspirar mais políticas protecionistas. Mas também viram uma oportunidade de demonstrar a força do Canadá.

Os governos provinciais em Ontário e Quebec, que fazem fronteira com Nova York, enviaram delegações de alto nível para Albany, onde contrataram a empresa de lobby Bolton-Saint Johns. Foi pedido a líderes empresariais baseados em Nova York que interviessem.

A primeira-ministra de Ontário, Kathleen Wynne, equivalente a governadora da província, disse que expôs os aspectos positivos, como os benefícios de manufatura nos dois lados da fronteira, na qual fábricas de ambos os países colaboram em um mesmo produto.

Mas diante da determinação de Cuomo de seguir em frente, Wynne fez um alerta discreto: se a medida fosse aprovada, Ontário agiria de modo recíproco, impondo restrições semelhantes ao comércio com Nova York.

Foi uma ameaça poderosa. As exportações anuais de Nova York para Ontário chegam a US$ 10 bilhões. As fábricas em Buffalo, próximas da fronteira, já enfrentam dificuldades. Empresas de Nova York provavelmente seriam excluídas de investimentos planejados na infraestrutura de Ontário, orçadas em US$ 160 bilhões.

"Se isso fosse em frente, teríamos que estar preparados para proteger nossa indústria", disse Wynne em uma entrevista. "Ninguém deseja uma guerra comercial, mas também fomos claros sobre o que faríamos e não aceitaríamos."

A jogada deu resultado, com os legisladores estaduais removendo o artigo poucas horas antes de aprovarem o orçamento. O porta-voz de Cuomo reconheceu que o lobby canadense exerceu um papel importante.

Cuomo persuadiu nesta semana os legisladores a adotarem uma medida "compre americano" mais limitada. Ela é em grande parte simbólica, ressaltando o quanto Wynne conseguiu pressionar o terceiro Estado mais rico dos Estados Unidos visando proteger os interesses canadenses.

O grande acordo

Wynne está trabalhando contra outra medida "compre americano", no Texas, e formando laços de modo preventivo. Na semana passada, ela conversou com o governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, o 13º governador com o qual conversou desde sua posse. Ela se encontrará com os demais em julho, quando participará da reunião da Associação Nacional dos Governadores em Rhode Island.

Outros governos provinciais estão fazendo o mesmo, assim como o governo federal, principalmente recrutando aliados para o grande acordo: as renegociações do Nafta.

Caso Trump decida se retirar ou enfraquecer significativamente o acordo comercial, os governadores, prefeitos e membros do Congresso americanos podem esperar um telefonema ou visita pessoal de seus pares canadenses, lhes pedindo para que pressionem Trump a manter o acordo.

As armas secretas do Canadá parecem ser a proximidade e a língua.

Os aliados dos Estados Unidos geralmente trabalham com a Casa Branca e com as agências federais. Elas provaram ser menos confiáveis sob Trump, deixando muitos à deriva. Apenas os canadenses desfrutam de fácil acesso a prefeitos e governadores.

O noticiário e entretenimento americanos são ubíquos no Canadá, o que dá às autoridades um maior entendimento das questões políticas e culturais.

Enquanto voos da Europa ou da Ásia levam um dia inteiro, forçando os aliados a visitarem de forma seletiva, os líderes canadenses podem estar em Washington para um café da manhã e voltarem para casa para o almoço.

A política doméstica também ajuda. Trump é mal visto em quase todos os países aliados. Os líderes, especialmente aqueles disputando reeleição, se sentem pressionados a darem as costas a ele. Trudeau, que é popular em casa e enfrenta pouca oposição organizada, está mais livre para ignorar educadamente os rompantes de Trump.

Mesmo assim, Wynne reconheceu que pouco pode ser feito para solucionar a imprevisibilidade de Trump.

"Fico ansiosa a respeito de como tudo pode mudar caso haja uma decisão que crie uma barreira intransponível", ela disse, acrescentando: "Há muita incerteza e direi francamente, nossas empresas aqui em Ontário estão muito nervosas".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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