Sepse é um inimigo silencioso, fatal e quase desconhecido

Reinaldo Salomão

Reinaldo Salomão

Especial para o UOL

O termo sepse origina-se do grego sêpsis, que significa putrefação. A sepse, como manifestação de diferentes endemias e epidemias, causou profundo impacto na história da humanidade. Um dos exemplos mais ilustrativos é a epidemia da peste, que, na sua forma septicêmica, dizimou um terço da população europeia no século XIV.

Essa alusão a um episódio do passado pode nos trazer a ilusão de que com a descoberta dos microrganismos e dos antibióticos achamos a solução para um problema tão importante.

Infelizmente não; estima-se que ocorram cerca de 20 milhões de casos anualmente, com mortalidade que, nas formas graves,  ultrapassa 50%. Esses casos estão concentrados particularmente em regiões menos favorecidas, com diagnóstico tardio e carência de leitos de terapia intensiva.

Sepse pode ser definida como a repercussão ou manifestação sistêmica de uma infecção. Isso significa que a partir de um foco infeccioso, por exemplo, uma infecção urinária ou uma pneumonia, todo o corpo fica comprometido.

Na sepse, como no infarto ou no acidente vascular cerebral, tempo é vida Reinaldo Salomão, infectologista, sobre importância de diagnóstico precoce em casos de infecção

Isso pode acontecer por disseminação da infecção, que alcança o sangue e a partir dele os diferentes órgãos (daí os termos septicemia, infecção disseminada ou até envenenamento do sangue) ou pela própria resposta inflamatória do nosso organismo.

O paciente apresenta calafrios, o coração bate mais rápido e a respiração fica mais difícil. Órgãos distantes da infecção inicial passam ter as funções comprometidas, até que, numa situação extrema o paciente apresenta importante queda de pressão (choque séptico).

Fica claro, portanto, que à medida que a doença avança aumenta muito a chance de o paciente não sobreviver ao tratamento e aqui temos um importante aspecto: o tempo. Diagnóstico e tratamento precoces salvam vidas. Diagnóstico e tratamento tardios tornam-se ineficazes. Na sepse, como no infarto ou no acidente vascular cerebral (ou derrame), tempo é vida.

Sepse no Brasil e no mundo

A sepse ocorre com elevada frequência em diferentes partes do mundo. Nos Estados Unidos estima-se um milhão de casos por ano, acometendo de forma especial a população mais idosa. Um estudo com Unidades de Terapias Intensivas (UTIs) de 75 países mostrou que metade dos pacientes sob cuidados intensivos apresentava infecção.

No Brasil, há uma estimativa de cerca de 400.000 casos anuais de sepse. É notório que o impacto da sepse é diferente entre os países, sendo o número de mortes maior em países com menos recursos.

Um banco de dados de diferentes países, publicado há alguns anos, mostrava mortalidade média de 39%, com países com mortalidade tão baixa quanto 22% (Austrália) e tão alta quanto 57% (Malásia). O Brasil situava-se mais próximo do extremo com maior mortalidade, de 56%.

Para acentuar o problema, a mortalidade por sepse diminuiu em países como Austrália e Nova Zelândia, mas permanece sem redução significativa em nosso país. Um estudo recente, conduzido em cerca de 200 UTIs no país, mostrou que cerca de 30% dos leitos estavam ocupados por pacientes com sepse; desses mais da metade não sobreviveu.

Para diminuir o número de pessoas que morrem com sepse é importante preveni-la e, uma vez que ela aconteça, que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos o mais rápido possível. Para isso precisamos trabalhar com o público leigo, divulgar os sinais de alerta para sepse (suspeita de infecção e febre, calafrios, coração batendo rápido ou cansaço para respirar) para que os familiares procurem auxílio médico.

Uma pesquisa encomendada pelo ILAS (Instituto Latino-Americano de Sepse) ao Datafolha mostrou que apenas 7% dos brasileiros tinham ouvido falar de sepse; precisamos trabalhar com a equipe médica e multiprofissional de saúde, para que o atendimento seja feito de forma coordenada e rápida no hospital; inserir a sepse dentro das políticas públicas de saúde e empregar esforços na pesquisa sobre a síndrome, de forma a descobrir novas abordagens terapêuticas. Por fim, é importante levar o conhecimento adquirido para a beira de leito, de forma que o paciente se beneficie do mesmo.

Não podemos ficar indiferentes: um em cada dois pacientes com sepse grave ou choque séptico morrem no Brasil. É importante conhecer, é importante reconhecer, é urgente tomar atitude.

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Reinaldo Salomão

é professor titular de infectologia na Escola Paulista de Medicina e presidente do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS)

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