Governo usa a política monetária para satisfazer suas vaidades

Otto Nogami

Otto Nogami

Especial para o UOL

A política econômica definida pelo governo nos últimos anos, com o objetivo de fazer a economia brasileira crescer, priorizou o consumo das famílias, interferindo nos mecanismos de mercado, fixando preços máximos (congelando) para alguns produtos e serviços prioritários e ampliando as operações do sistema creditício.

Esse estímulo ao consumo fez com que as famílias dizimassem suas poupanças, aumentando o endividamento e, consequentemente, levando ao incremento da inadimplência. Estatísticas apontam que 60% das famílias brasileiras estão endividadas.

De acordo com os fundamentos econômicos, são as poupanças das famílias que constituem a base para a formação do capital necessário para os investimentos na economia. Entenda-se investimentos como sendo o estímulo para o surgimento de novos empreendimentos, mais recursos financeiros para as empresas para que elas possam adequar ou aumentar as suas capacidades de produção, criar condições para que o setor produtivo empregue mais e demande mais matérias-primas. Assim, a baixa capacidade de poupar da sociedade, compromete o crescimento e o desenvolvimento da economia.

Normalmente, as economias formadas pelas famílias são aplicadas nas instituições financeiras, especialmente nos dias de hoje, em que as rentabilidades são altamente atrativas. E elas, por sua vez, utilizam esses recursos para as suas operações de empréstimos e financiamentos. A baixa capacidade de economizar das famílias, portanto, faz com que menos recursos estejam disponíveis para as instituições financeiras emprestarem às empresas –por exemplo, sob a forma de capital de giro, para que elas possam manter seu nível de produção e seus estoques.

Menos recursos disponíveis por parte das instituições financeiras significa taxas de juros para empréstimos e financiamentos mais altos, e mais ainda com a contribuição da taxa de juros Selic mais alta. Esse cenário faz com que as empresas tomadoras de recursos reduzam a sua dependência ao capital de terceiros, pelo elevado custo do dinheiro, o que operacionalmente implica em menor volume de produção e de estoque estratégico –há ainda o agravamento do aumento expressivo no custo dos fatores de produção (capital, mão de obra e matérias primas).

À medida que as empresas têm dificuldades em manter o seu nível de produção e estoques nos patamares do passado, observa-se que a oferta de bens e serviços está retraindo. Apesar do baixo nível de consumo, em função da componente recessiva que paira sobre a economia, a queda da produção está ocorrendo em uma proporção maior que o da demanda. Essa distância cada vez mais crescente é que mantém o aumento generalizado dos preços da economia, ou seja, a inflação. Para contribuir com essa pressão inflacionária tem-se o fator taxa de câmbio e a readequação dos preços administrados.

Retração do consumo

Assim, como qualquer ação sobre as condições de produção repercute no longo prazo, torna-se imperativo buscar uma solução no curto prazo utilizando-se de mecanismos que permitam retrair o desejo de consumir numa proporção maior que o encolhimento da produção. E a solução está na política monetária restritiva, que tem como instrumento mais importante a elevação da taxa de juros Selic –que implica em menos moeda em circulação na economia, ou seja, menos recursos para empréstimos e financiamentos, e, sem dúvida, muito mais caros.

Mas empréstimos mais caros não comprometem ainda mais a utilização do capital de terceiros para a manutenção do volume de produção e manutenção de estoques? Sem dúvida! E é aí que reside o grande desafio para a equipe econômica: como equacionar o problema? Em vez de buscar soluções com aumentos da carga tributária, não seria mais saudável e razoável reduzir seus gastos, diminuindo o deficit e, portanto, a necessidade do seu financiamento? Pois aí está o grande nó: quanto maior o deficit público, menos recursos para o setor produtivo da economia.

Entretanto, o que se observa, é que o governo está utilizando a política monetária meramente como um brinquedo para satisfazer suas vaidades, ou um marketing para transparecer que ele luta pela sociedade. Saudades do tempo em que tínhamos, pelo menos, um horizonte a ser alcançado. Aliás, diga-se de passagem, muito da infraestrutura existente nos dias de hoje nada mais é que a resultante de planos e programas de longo prazo estabelecidos pelos governos de algumas décadas passadas. Ao contrário do que se tem nos dias de hoje: o que será o amanhã?

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Otto Nogami

60 anos, é economista, professor de economia do MBA Executivo do Insper e sócio da Nogami Participações e da Zimba Gestora de Recursos. Possui MBA em Finanças e doutorado em engenharia de produção. É autor de 8 livros, dentre eles Princípios de Economia (ed. Cengage)

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