Intolerante é fruto de ideologias que se tornaram maiores que ele

Maura de Albanesi

Maura de Albanesi

Artigo do internauta

Quando nos deparamos com discriminações ideológicas ou políticas –assim como acontece com os preconceitos de orientação sexual e de gênero, exemplificados pelo atentado à casa noturna Pulse nos EUA–, nos questionamos se o mundo está mais intolerante.

Em tese, a intolerância sempre esteve atrelada às jornadas do homem no planeta. Ela faz parte da natureza humana desde o momento em que se passou a conviver em sociedade, junto de culturas e hábitos diversos.

A intolerância nos cega quando não conseguimos aceitar que pessoas são diferentes. Nessas situações, não agimos com flexibilidade, mas sim movidos pelo pensamento de que somos os detentores da verdade e que é o nosso ideal que deve prevalecer.

O atirador de Orlando, por exemplo, agiu movido por uma intolerância que o cegou, a ponto de achar que os seus argumentos eram plausíveis e justificáveis. O autor do atentado acreditava que estava combatendo o mal, como se cumprisse a missão de livrar o mundo dos pecados e pecadores. 

As ideologias daqueles que são intolerantes se tornam maiores do que eles mesmos e prevalecem sobre outros seres humanos. Sem a humildade para ouvir outras ideias, repensar seus valores e reconhecer seus próprios erros, tornam-se arrogantes. Em meio a tal característica, vem a ignorância, ao não se aprofundar e refletir sobre questões que desconhece, além de privilegiar apenas seu modo de pensar.

Esses indivíduos creem que estão acima do "bem e do mal" e, movidos por esse bloqueio, anulam o outro e pensam que tudo gira ao seu redor.

As pessoas não estão mais arrogantes, na verdade sempre vai haver tal cultura em nossa sociedade. Ela pode surgir, por exemplo, por meio do excesso de autoconfiança, uma situação comum para os seres humanos. O problema está quando essa arrogância frutifica em intolerância.

Política, religião e futebol

O Brasil está passando por um momento de intolerância política, no qual não há espaço para a ideia do "oponente" nem há disposição para promover um debate com opiniões divergentes. As pessoas não estão dispostas a defender medidas e posições sem polarizarem.

Atualmente, as divergências políticas são mais enraizadas do que os embates em relação à religião e ao futebol. O cenário político implica diretamente no cotidiano e na vida das pessoas e, por isso, a intolerância política traz um panorama específico e mais feroz.

A premissa que prevalece é: você votou em alguém acusado de corrupção, então você é culpado pelos malfeitos. Já os políticos são afetados pela intolerância a partir do momento em que mergulham na arrogância de ignorar o que a opinião pública tem a dizer. A inexistência do "pensar no coletivo" favorece esse cenário.

Esses sinais podem ser observados, inclusive, durante as comissões e discussões em plenário, em que todos se inflamam como um pavão, a ponto de defender suas ideias a qualquer custo, além de denegrir partidos adversários. Aliás, o próprio termo partido político já implica em partir visões. Na prática, cada partido defende seu propósito, sem pensar numa política que abranja a todos e que seja um benefício coletivo.

É sempre crucial uma autorreflexão: por qual motivo é importante que o outro pense igual a mim? Quem sabe respeitar as diferenças tem uma vida mais leve, mais suave e também mais feliz. Ademais, podemos inserir o pensar coletivo em nossas ações e evitar que nossas ideias e ideologias se tornem mais importantes do que nós mesmos e do que o outro.

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Maura de Albanesi

é mestranda em Psicologia e Religião pela PUC-SP, pós-graduada em Psicoterapia Corporal e internauta do UOL

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