BC ignora problemas do câmbio valorizado e 'bolsa Miami' ressurge

Mário Bernardini

Mário Bernardini

Especial para o UOL

O uso da expressão "bolsa empresário" para qualificar de forma depreciativa os financiamentos que o BNDES tem concedido às empresas, ao longo dos últimos anos, tornou-se recorrente para sugerir uma situação de favorecimento ou de compadrio –algo, de certa forma, escuso.

Esse bordão tem sido usado e repetido, sem muita cerimônia e, principalmente, sem muito conhecimento de causa, tanto por boa parte dos formadores de opinião quanto por ministros de Estado, até adquirir, na prática, foros de verdade.

Os equívocos, entretanto, começam na própria expressão, graças a um erro conceitual. Na realidade, o financiamento é concedido à empresa, e não ao empresário, e uma empresa é uma organização complexa, feita de empregados, instalações físicas, equipamentos e muito conhecimento.

Esses erros continuam quando consideram um favor a concessão de financiamentos a juros da ordem de 13 a 15% a.a. (TJLP + spread BNDES + juros do banco repassador), considerados "subsidiados" ainda que sejam, em média, maiores do que o retorno esperado pelo otimista ou pelo incauto tomador que se arrisca a investir neste pais.

Estamos falando de financiar investimentos, os mesmos que nossos concorrentes internacionais financiam com menos da metade de nossos juros "subsidiados". E é bom lembrar que os investimentos são o motor do crescimento futuro do pais, gerando empregos, renda e impostos em montante muito superior aos eventuais subsídios embutidos nos juros do BNDES.

Numa sociedade que precisa desesperadamente crescer é uma completa inversão de valores considerar normais os juros de mercado –que vão de "modestos" 50/60% a.a. a mais de 400% a.a.– e demonizar os juros "subsidiados", ainda que estes estejam acima da inflação e do retorno das empresas.

Entretanto, se formos discutir o favorecimento do Estado brasileiro a diversos setores, existem outras bolsas menos conhecidas, embora custem bem mais para a sociedade brasileira. Uma é a "bolsa banqueiro", e aqui o termo é correto porque os polpudos lucros dos bancos, quando distribuídos a seus donos, não pagam impostos.

Se isto não bastar, vale a pena lembrar que quando o leitor deixa algum dinheiro no banco, para fazer face aos compromissos do dia a dia, o banco não só não remunera seu saldo como ainda cobra taxas de administração. Quando, entretanto, o mesmo banco deixa sua sobra de caixa no Banco Central, por um ou mais dias, é remunerado pela taxa Selic.

Câmbio valorizado

Outra bolsa surgiu com a criação do real, que já nasceu valorizado e tornou mais barato, no supermercado da esquina, comprar manteiga holandesa no lugar da brasileira –ou almoçar em Paris, e não em S. Paulo, ou tirar férias na Europa em vez do Nordeste.

Essa festa transformou o Brasil numa espécie de "free shop", e nos quebrou em 1999, com o mercado impondo ao Banco Central uma maxidesvalorização. Após um intervalo de uns três anos, com câmbio razoavelmente ajustado, voltamos ao velho vício de apreciar nossa moeda para conter a inflação, o que durou até 2014.

Nesse período a indústria brasileira de transformação, apesar dos juros "subsidiados", foi reduzida quase à metade, se compararmos o valor adicionado em 2015 com 2004, sendo o câmbio apreciado o maior responsável pelo estrago, ainda que os juros de agiota com que convivemos ajudassem bastante.

A explicação é relativamente simples. Os preços dos produtos importados baixavam em reais pois nossa moeda se valorizava com relação ao dólar enquanto os custos industriais subiam, grosso modo, com a inflação, e não permitiam à industria nacional concorrer com os importados, nem no mercado interno nem na exportação.

A agricultura e a indústria extrativa se salvaram, nesse mesmo período, graças ao fato dos preços de seus principais produtos terem dobrado, e até triplicado, em dólar, graças à demanda chinesa –assim anulando, com folga, o efeito "juros+câmbio".

Aparentemente nada aprendemos. O real, somente em junho, se valorizou mais de 10%, e cerca de 20% no semestre, tirando novamente a competitividade do produto brasileiro, abortando o reinício do esforço exportador e eliminando o único "drive" disponível no curto prazo para uma retomada da atividade.

Causa espécie a naturalidade com que nosso Banco Central encara o fato, justificando o dólar baixo como uma importante ajuda ao combate da inflação. Se isso cria problemas na indústria e no emprego, é visto apenas como um efeito colateral desagradável, mas aceitável visto que o objetivo é apenas a inflação na meta.

Assim a "bolsa Miami", existente até pouco tempo atrás quando, graças ao câmbio, as noivas e as jovens mães brasileiras iam a Miami fazer o enxoval do casamento ou dos bebês, ressurge junto com o aumento do deficit na conta turismo, e é justificada face ao cumprimento da inflação no centro da meta.

A indústria irá encolher mais um pouco, empregos de qualidade serão perdidos, o país voltará a ser fornecedor de matérias-primas e de produtos semi-industrializados e a importar produtos industriais, como nos tempos do Brasil Colônia. Pelo jeito, tudo isso não vai fazer com que nossa equipe econômica deixe de se preocupar exclusivamente com o ajuste fiscal.

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Mário Bernardini

é engenheiro e diretor de competitividade, economia e estatística da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas)

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