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Opinião: Desisto da polidez e boa educação. Fora, Bolsonaro!

O presidente Jair Bolsonaro fala com apoiadores e jornalistas do lado de fora do Palácio do Planalto - Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro fala com apoiadores e jornalistas do lado de fora do Palácio do Planalto Imagem: Estadão Conteúdo
Carlos Fernando dos Santos Lima

Carlos Fernando dos Santos Lima

Advogado e ex-procurador da República

Especial para o UOL

23/10/2020 04h00

Desisto da polidez e boa educação. A gota d'água foi mais uma decisão indecorosa, indecente, infame e todos os adjetivos correlatos que foram e vierem a ser inventados para descrever a ação mal-intencionada e irresponsável de Jair Bolsonaro. A politização de uma crise de saúde pública que, até agora, levou mais de 150 mil brasileiros a óbito já era inadmissível, mas a continuidade de sua postura negacionista, de seu contínuo esforço de arrastar o Brasil para o lamaçal de sua ignorância é insustentável.

Não podemos mais aceitar o que acontece. Nem estou falando da corrupção evidente nos gabinetes de seus filhos, nem sua união com a escória política do Congresso Nacional, nem de suas escolhas de pessoas subalternas aos interesses dos políticos, aplaudidas até pelo PT, para altos cargos do STF e do Ministério Público Federal. Finjamos, como querem, que a corrupção acabou e que o problema do Brasil seja a Lava Jato, o casamento gay ou outra pauta qualquer dessa intelectualmente indigente direita cultural. Mas salvemos os brasileiros de morrer quando é possível salvá-los.

Já tinha a impressão de que a natureza humana não tinha realmente mudado somente por dez mil anos de civilização, mas agora tenho certeza. Bolsonaro está aí para provar. Foram pessoas como ele e seus seguidores fanáticos da internet que aplaudiram pessoas nas fogueiras, que se regozijaram quando nazistas levaram judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais para câmaras de gás, que, enfim, resistem à civilização humana em tudo que ela tem de positivo e bom. Preconceituosos, ignorantes que ouvem a insensatez e loucura de seus iguais nas redes sociais e desacreditam a ciência, o progresso e os mínimos preceitos éticos. Sim, infelizmente como disse Umberto Eco, a internet deu voz a esses imbecis.

Mas mesmo os ladrões costumeiros do nosso dinheiro, mesmo os conformados que tratam tudo como se fosse apenas uma guerra de versões, precisam reagir. A estratégia de Bolsonaro é conhecida. Com sua postura de confronto e declarações polêmicas preocupa-se mais em criar uma cortina de fumaça sobre a ausência de qualquer plano de governo e sobre os escândalos envolvendo sua família e correligionários, bem como em agradar seus seguidores fanáticos e, principalmente, atacar qualquer potencial rival nas próximas eleições.

O que estamos vivenciando não se trata mais de esquerda versus direita, mas sim de salvar pessoas e a economia brasileira de repetirmos em 2021 o desastre deste ano. A saída de Bolsonaro do poder é uma obrigação moral. Seja pela sua não reeleição ou, a via mais urgente, pelo impeachment, que existe para dar uma solução para situações em que haja um crime de responsabilidade. E deixar que brasileiros morram por opção política é sim suficiente para isso.

Entretanto, espanta-me a pasmaceira. Vivemos em um país que dinheiro é escondido no reto de políticos, que milícias dominam parte do território nacional, que líderes de organizações criminosas fogem do país sob o beneplácito irresponsável de um magistrado das altas cortes. Tudo cansa, refugiamo-nos em nossas prisões particulares, fingindo-nos de mortos na esperança de sermos poupados. Mas ninguém será poupado da omissão. O sangue de cada brasileiro que podia ser salvo da peste, mas não o foi por covardia, passividade ou ignorância está nas nossas mãos.

Se corrupção mata, falta de caráter e irresponsabilidade matam também. É mais que hora de dizermos não a essa ideologização da saúde pública. Vacinas não têm ideologia, não têm partido político ou pertencem a alguém. Seja qual for sua origem, desde que aprovada segundo critérios científicos e os procedimentos adequados, ela deve ser aplicada. Precisamos de mais de 400 milhões de doses. O mundo lutará por poucos milhões quando serão necessárias bilhões de doses. Não se pode desprezar qualquer vacina com eficácia e segurança comprovada. Pouco importará para quem for salvo qual foi sua origem.

É preciso revolta e indignação, por muito menos brasileiros foram às ruas em 2013. Foi triste ver imagens de tentativas de invasão do Congresso Nacional ou do Itamaraty, mas foi ali que iniciou a percepção de que havia algo de muito podre no Brasil. Dilma Rousseff foi "impichada" por muito menos que Bolsonaro já fez. A ex-presidente realmente era incapaz para o cargo, mas Bolsonaro transcende qualquer definição de inadequação ou irresponsabilidade. Fora, Bolsonaro!

Carlos Fernando dos Santos Lima é advogado e ex-procurador da República. Integrou a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba entre 2014 e 2018