PUBLICIDADE
Topo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No Dia da Alimentação, Brasil tem fome por escolha política de governantes

capa indice fome no pais - Gabriel Moreira/UOL
capa indice fome no pais Imagem: Gabriel Moreira/UOL
Douglas Belchior

Douglas Belchior

Professor de História, fundador da Uneafro Brasil, coordenador de Articulação do Fundo Brasil de Direitos Humanos e membro da Coalizão Negra por Direitos

16/10/2021 04h00

Desde 1981, o mundo celebra o Dia da Alimentação em 16 de outubro. Criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), é uma data para debatermos o acesso a alimentos de qualidade, questionarmos o desperdício e lutarmos contra a fome.

No Brasil, atravessamos um momento em que a carestia de comida. Hoje 20 milhões de brasileiros e brasileiras não farão as três refeições e dormirão com fome. Metade da nossa população, majoritariamente negras e negros, vive hoje em situação de vulnerabilidade alimentar, sem saber se terá o que comer amanhã.

Como podemos conviver com esta realidade se o país produz parte considerável dos alimentos consumidos no planeta? É preciso reagir para a redução de políticas públicas que deveriam trabalhar pelo fim da miséria não continue a ampliar a fome.

A campanha #TemGenteComFome nasceu em março deste ano para lutar pelo acesso à alimentação, que é hoje negado a tantos cidadãos brasileiros. Organizada pelo movimento negro em sua aliança nacional, a Coalizão Negra por Direitos, a ideia é cobrar ações governamentais efetivas enquanto comida é levada para a mesa de quem mais precisa em todo país.

Em seis meses, a campanha já arrecadou quase R$ 20 milhões, o que já alimentou mais de 700 mil pessoas. Foram distribuídos mais de 60 mil cartões de alimentação, 30 mil cestas básicas e 60 mil cestas com produtos orgânicos nos 27 estados. Os recursos também ajudaram a garantir empregos e renda a mercados locais e agricultores familiares.

Para marcar a data internacional, a partir do dia 16 de outubro a Coalizão iniciará a segunda etapa da campanha com a entrega de 10 toneladas em cestas básicas em territórios onze diferentes estados: Rio Branco (AC), Maceió (AL), Salvador (BA), Cariacica (ES), Cuiabá (MG), Altamira (PA), Picos (PI), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Baixada Fluminense (RJ) e zonas sul e leste de São Paulo (SP).

As campanhas de solidariedade têm sido fundamentais no Brasil. É uma pena que milhares de famílias dependam de ajuda mútua e não da ação do Estado, que tem as condições para colocar em prática as políticas para resolver os problemas da fome e da miséria.

Nada é mais político do que a fome. Vivemos em um país com recursos para alimentar a sua população. Logo, a fome não é uma coisa natural, mas, sim, uma escolha política. Não podemos aceitar!

O poeta Solano Trindade escreveu: "Se tem gente com fome, dá de comer". Hoje, seus versos inspiram nossas ações.

A nova fase da campanha #TemGenteComFome vai continuar unindo forças para levar dignidade a quem está precisando agora. Mas os governos têm de cumprir seu papel, até que campanhas como essas não sejam mais necessárias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL