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Carnaval ao som dos tambores se aproxima... ao menos para os uruguaios

Tamboreiras tocam durante Dia Nacional do Candombe em Montevidéu, capital do Uruguai. - Getty Images
Tamboreiras tocam durante Dia Nacional do Candombe em Montevidéu, capital do Uruguai. Imagem: Getty Images
Fernanda Oliveira

Fernanda Oliveira

Professora do Departamento de História da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Membro do GT Emancipações e Pós-Abolição da ANPUH (Associação Nacional de História). Idealizadora e membro de Atinuké, curso sobre o pensamento de mulheres negras.

Especial para o UOL

19/01/2022 04h00

O Uruguai orgulha-se de ter o carnaval mais longo do mundo. São cerca de 40 dias de festa. Em 2021, a festividade foi cancelada em decorrência da pandemia de covid-19. O país, porém, foi um dos mais bem-sucedidos na resposta à pandemia aqui na América Latina. Por conta disso, a festa que toma conta das ruas da capital nacional está mantida, com o desfile oficial que marca a abertura previsto para esta quinta-feira (20), seguido das escolas de samba.

No início de fevereiro, começam as "Llamadas", a parte mais tradicional da festa, cujos ensaios fazem escutar o som único dos tambores pelas ruas de Montevidéu e das cidades do interior da nação que faz fronteira com o Rio Grande do Sul. Eles marcam a presença negra na cultura nacional e nos permitem acessar pormenores da história de uma parcela da população uruguaia por vezes pouco conhecida.

As "Llamadas"

De pronto, o nome já chama atenção. Faz menção a dois momentos históricos e uma só ação: chamar. Ainda no século 18 e primeira metade do 19, nos raros momentos em que escravizados se encontravam livremente com pessoas de seu grupo de origem, tratava-se de um gesto para chamar os ancestrais africanos que ficaram em terras longínquas. Era também um chamado para os companheiros tocarem os tambores, principalmente entre os meses de dezembro a março, quando os senhores viam com melhores olhos o que entendiam como festejos em honra aos Reis, dos Reinados e aos Dias de Reis.

Já em fins do século 19 e sobretudo a partir do século 20, as "llamadas" marcam o chamado dos candombes dos "conventillos", moradias baratas semelhantes aos cortiços brasileiros e populares em Montevidéu até a ditadura, quando foram destruídos.

O candombe

Ainda que existam no carnaval uruguaio, as escolas de samba não são as rainhas da festa. Faço-lhes o convite de utilizar a imaginação para atravessar a fronteira com o intuito de compreender a grandiosidade do carnaval que tem na reconfiguração cultural africana a sua principal característica. Isso em uma nação que ainda hoje é lida como branca.

Embora a palavra carnaval nos seja de maior familiaridade, a que melhor cabe aqui é candombe, sem o "l" de candomblé. Trata-se de uma manifestação cultural de raiz africana caracterizada pelo pela dança e tocar de três tipos de tambores: Piano, Repique e Chico, nomes em menção aos tamanhos e sons. Está presente no calendário uruguaio por meio do "Dia Nacional do Candombe, da Cultura Afrouruguaia e da Igualdade Racial", celebrado em 3 de dezembro desde 2006 e foi reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2009.

candombe - Eitan Abramovich/AFP - Eitan Abramovich/AFP
Dançarina no Dia Nacional do Candombe em Montevidéu, capital do Uruguai. Música e dança que dão o ritmo do carnaval uruguaio foi gestada por africanos escravizados no país sulamericano e é reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade
Imagem: Eitan Abramovich/AFP

As primeiras manifestações datam da época colonial, quando muitos praticantes do candombe eram sujeitos escravizados. A escravidão perdurou mesmo com a independência nacional, ocorrida em 1825. As duas leis de abolição da escravatura no país, promulgadas em 1842 e 1846, foram de dificil implementação, sobretudo em virtude da manutenção da escravidão no Brasil e da presença de proprietários brasileiros em terras uruguaias. Mas isso é outro capítulo desta história.

Durante aquela época, tocar e bailar ao som dos tambores era uma forma de experienciar a liberdade negra por meio do próprio corpo, ocupando o espaço público como gentes que mesmo durante um período restrito de tempo têm domínio e poder sobre si.

As "comparsas"

Essas pessoas faziam isso por meio de demonstrações públicas das Salas de Nações, organizações negras coloniais que se mantiveram ativas no século 19 e reuniam africanos e seus descendentes em torno do que identificavam como nações, ou seja, suas regiões de origem no continente africano. As "comparsas" eram grupos que saiam do espaço privado das Salas e ocupavam as ruas tocando e bailando o candombe. Em meados do século 19, já em tempos de liberdade formal, começaram a aparecer "comparsas" independentes destas organizações.

A existência dessa manifestação revela indícios de uma experiência negra que extrapola as terras uruguaias e, não raras vezes, configura-se como transnacional e alcança as terras brasileiras. Cidades fronteiriças, localizadas no interior do Rio Grande do Sul, como Jaguarão e Santana do Livramento, receberam "comparsas" ou tiveram as suas próprias, dentro dos clubes negros locais.

candombe - Eitan Abramovich/AFP - Eitan Abramovich/AFP
Imagem: Eitan Abramovich/AFP

Estas conformações circulavam por outras cidades do interior do estado nas décadas de 1940 e 1950. Esse trânsito entre expressões culturais negras no carnaval na fronteira Brasil-Uruguai existe ainda hoje e pode ser acompanhado principalmente nas cidades de Santana do Livramento, assim como na brasileira Riveira e na uruguaia Rivera, devido à presença da organização negra uruguaia Mundo Afro.

A cultura é marcada pela circulação de referências, e no Uruguai não foi diferente. O movimento que nasceu com grupos escravizados e seus descendentes no século 19 encontrou adeptos entre pessoas não negras, sobretudo advindos das camadas populares. Isso fez o candombe, nascido no seio das autodenominadas nações africanas, se transformar posteriormente em uma festividade de classe, quando a presença nas ruas se tornou mais intensa.

Hoje, as "comparsas" trazem entre seus membros negros e brancos, que bailam ao som dos tambores. Não significa que a raiz negra tenha ficado em um passado remoto. Isso é evidenciado principalmente nas características dos personagens que formam o cortejo. Observemos.

"Mamas viejas", "gramilleros" e os "escoberos"

As culturas negras das Américas costumeiramente foram interpretadas pela lente do sincretismo, que as reduziam a uma comparação, em que o ponto de observação era sempre externo, branco, ocidental e colonial. Com o candombe, não foi diferente, pois foi relacionado a elementos externos à cultura negra e reduzido ao puro e simples lazer, desprovido de qualquer aspecto político inerente ao cotidiano e/ou sagrado. No entanto, há elementos que nos permitem observar uma reconfiguração cultural cujo parâmetro não é de mera comparação.

Estamos diante de a uma manifestação afro-uruguaia, ou seja, que carrega em si a complexidade inerente à simultaneidade de elementos que se apresentam em conjunto. São, ao mesmo tempo, expressões diaspóricas oriundas de diferentes partes do continente africano, que se reorganizaram em terras uruguaias, e aliam elementos do sagrado, que escapam ao cristianismo, tendo em vista elementos de matriz africana.

Em forma de cortejo e para além dos tambores e seus "tamborileros", as "llamadas" possuem uma organização mantida ao longo do tempo por meio de personagens tradicionais: "mama vieja", "gramillero" e "escobero".

A "mama vieja" representa a mulher negra de idade avançada com ampla sabedoria e corpo robusto. É uma menção às mães que geram e cuidam da comunidade ao ensinar e repassar os conhecimentos necessários para a existência. Seu dançar, ou melhor seu candombear, é mais lento e impacta diretamente no toque do tambor e no de seu par, o "gramillero". Foi e ainda é comum remetê-la à figura sagrada de orixás femininas e mães, como Yemanjá e Oxum.

O "gramillero" representa o homem negro de idade avançada, sintetizada pela barba longa e branca, que carrega consigo sabedoria. Aproxima-se da noção de "griô", o detentor dos saberes, comum na África ocidental. Também simboliza virilidade e é galanteador por essência, ainda que apresente as características de um corpo marcado pela idade e pelas adversidades da vida. Dentre seus saberes mais valorizados, está o conhecimento das ervas, o que o faz ser identificado como alguém que pode interceder por meio da cura e é relacionado a figura sagrada do orixá Ossain.

Já "escobero" é o homem negro que dança se equilibrando com uma vassoura, usada para limpar seu corpo e os maus espíritos da "comparsa". É identificado com o orixá Omulú ou Xapanã. Assim, semelhante a "mama vieja" e ao "gramillero", representa o sagrado, o que, em tempos pandêmicos, evoca ainda mais a relação de respeito e reverência à energia de cura.

Essas personagens sintetizam a presença negra pulsante dessa cultura na manifestação das "llamadas", instituídas oficialmente pela Prefeitura de Montevidéu em 1956 por força da comunidade negra local, ali organizada por meio do clube negro Asociación Cultural Social Uruguay. Ativas desde então, sobreviveram até ao período da ditadura militar (1973-1985), quando os tambores foram proibidos.

O candombe, no entanto, é mais que a música. É a marca da resistência negra. É a luta presente no corpo das mulheres negras, que hoje também tocam os tambores. Entre as gentes candomberas, é comum ouvir o provérbio africano "Os tambores não tocam sem razão" ("Los tambores no se tocan sin razón"), repleto de significado ontem e hoje. Afinal, a luta negra continua caracterizando os bairros Sur e Palermo e os seus semelhantes em cada cidade daquela que, aos olhos de muitos, ainda é apenas mais uma nação branca do extremo sul da América.