Filhos de Bolsonaro chamam de "oportunistas" os que acusam pai de racismo e homofobia

Fabíola Ortiz
Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Os filhos do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), o vereador Carlos Bolsonaro, 28, e o deputado estadual Flávio Bolsonaro, 30, eleitos pelo mesmo partido do pai, defendem o pai, que tem sido alvo de acusações de racismo e homofobia, e chamam os críticos de "oportunistas".

“É importante esclarecer esse mal entendido dos oportunistas. Qualquer pessoa de bom senso vê que a resposta não teve a ver com a pergunta. Ele usou a palavra-chave 'promiscuidade', a questão do racismo não existe. Temos amigos e até policiais negros que estão se solidarizando conosco”, disse ao UOL Notícias o deputado estadual Flávio Bolsonaro, referindo-se à entrevista dada por Jair Bolsonaro ao programa "CQC" no último dia 28 (veja vídeo abaixo).

Para ele, houve uma “edição errada” no quadro do programa "CQC" de perguntas e respostas. Flávio Bolsonaro criticou o que chamou de “ditadura do politicamente correto” ao argumentar que, hoje em dia, as pessoas não têm o “direito de falar o que pensam”.

Mesmo assim, Flávio alfinetou a cantora Preta Gil ao afirmar que “ela não pode servir de modelo de comportamento” para a sociedade.

Por sua vez, o outro filho, vereador Carlos Bolsonaro, afirma ter assistido ao programa e acompanha de perto as acusações contra o pai. O vereador segue a mesma linha de pensamento e destaca que na resposta de Jair Bolsonaro dada à pergunta da artista Preta Gil, “não há ligação nenhuma da palavra promiscuidade com racismo”.

Nas respostas dadas por Jair Bolsonaro ao quadro do "CQC", o vereador diz “concordar totalmente com o meu pai, faço minhas as suas palavras”.

“OAB gosta de holofote”

Os filhos do deputado federal sobem o tom quando questionados sobre a iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ) de enviar uma representação contra o deputado federal por quebra de decoro parlamentar.

“A OAB do Rio de Janeiro, através do seu presidente Wadih Damous, sempre discordou de meu pai por defender uma espécie de direitos humanos que nós não defendemos. Eles defendem direitos humanos para vagabundo e não para o cidadão de bem”, condenou o filho mais novo de Jair Bolsonaro.

Já o primogênito complementa em tom irônico: “qualquer ‘adevogado’ [sic] sabe que não houve configuração de crime de racismo e o parlamentar tem o direito de se manifestar. A OAB está envergonhando os advogados. Ela não tem a ver com isso, a OAB é uma mariposa que não pode ver um holofote que logo quer aparecer”.

FILHOS DE BOLSONARO

  • Divulgação

    Carlos Bolsonaro, vereador

  • Divulgação

    Flávio Bolsonaro, deputado estadual

Junto com seu pai, o deputado estadual ajudou a fundar, em 2007, a Frente Parlamentar contra o Exame de Ordem da OAB como exigência para o exercício da advocacia. Esta posição contrária, segundo a família Bolsonaro, fomentou as inimizades com a ordem dos advogados.

“O exame da OAB é caro e o advogado ainda é julgado se é apto para advogar, além de ter que pagar uma anuidade. Sem fiscalização, a OAB arrecada rios de dinheiros. Este é mais um oportunismo porque nós somos contrários e não temos medo de cassação, não vamos nos calar”, expressou o vereador.

Uma possível cassação do mandato de deputado federal de Jair não afetará a linhagem dos Bolsonaro, garantem os filhos. Contudo, o deputado estadual Flávio considera que existe uma real possibilidade, pois seu pai “pode não ser julgado tecnicamente e sim politicamente, por ser uma pessoa que incomoda na Câmara (dos Deputados), que é uma casa política onde reina a hipocrisia e o revanchismo”.

Família Bolsonaro

REVEJA O VÍDEO DO "CQC"

Influenciados pelo pai, que é militar, os filhos tiveram formação também no meio militar e seguiram o caminho da política. A família Bolsonaro está representada nas três esferas do governo e defende pontos polêmicos como o controle de natalidade, a redução da maioridade penal, a pena de morte para criminosos, o fim das cotas raciais, além de serem contrários a medidas do governo como o Plano Nacional LGBT e ao “kit gay” incluído no Plano Nacional de Educação elaborado pelo MEC.

Eleito vereador aos 17 anos em 2000, o filho mais novo, Carlos Nantes Bolsonaro tornou-se o mais jovem vereador do país e, atualmente, cumpre o seu terceiro mandato (2009-2012). Formado em Ciências Aeronáuticas pela Universidade Estácio de Sá, hoje aos 28 anos, Carlos é vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara Municipal do Rio tendo a presidido em 2009.

A favor da ditadura

Ao considerar seu pai um “ídolo”, Carlos Bolsonaro expressa posições favoráveis, por exemplo, ao regime militar no Brasil. “Graças a Deus os militares tomaram o poder no Brasil em 1964, se não o Brasil estaria fadado a ser como Cuba, plantando cana”.

Questionado se a ditadura militar foi boa para o Brasil, o vereador destacou o fato de que este foi o momento em que o país “mais cresceu politicamente, o período das grandes construções e também para manter a democracia no Brasil”.

Carlos Bolsonaro admitiu que houve excessos, “mas o momento pedia aqueles excessos, o pessoal que estava de férias em Cuba e que hoje está no poder, estava em treinamento de guerrilha”, criticou.

“Não podemos apagar esse passado. Vivíamos num contexto de Guerra Fria e tínhamos a aproximação de políticos no Brasil às ditaduras de esquerda socialistas. No dia 31 de março de 1964 a população foi às ruas pedindo que os militares tomassem o poder com a ajuda dos americanos graças a Deus”.

“Ditadura do homossexualismo”

Em relação ao movimento gay, o vereador é incisivo ao classificar como a “ditadura do homossexualismo” e critica o kit gay no Plano Nacional de Educação.

“Meu pai descobriu desde o ano passado que existe o 'kit gay' que consta na orientação sexual de crianças com filmetes mostrando como se ser homossexual fosse algo legal. Isso é injusto para crianças de 8 ou 9 anos. Eles (o movimento LGBT) estão mordidos há tempos porque não se conformaram com a opinião do deputado federal Jair Bolsonaro, criaram a oportunidade e caíram de pau em cima dele e em cima dos nossos ideais. Eles estão com isso enlatados na garganta e agora querem botar as suas garras de fora”, disse o vereador.

Para o Carlos, o Plano Nacional LGBT (Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT, Projeto de Lei da Câmara Nº 122 de 2006) é uma “apologia ao homossexualismo”. “Porque cria o Bolsa Família gay, a cota gay, daqui a pouco vou ter que ser gay para conseguir benefícios. Cria-se um favorecimento aos pequenos grupos. Eles vivem dessa demagogia e promovem o preconceito”, declarou o vereador que afirma também que os grupos gays atuam de maneira “impositiva”.

Na defesa do pai, o vereador Carlos lembra que teve uma boa criação e argumenta de forma determinista que “as pessoas são fruto do meio onde vivem”. “Não tem problema nenhum ter amigos gays, eu também tenho, mas só conviver no meio daquelas pessoas, você acaba virando também”.

Segundo ele, se alguém vive num meio promíscuo, pode se tornar uma pessoa promíscua. “Esse pessoal tem que aprender a ouvir e a respeitar a opinião dos outros. Meus pais sempre foram muito presentes, meu pai é meu ídolo. A presença do pai e da mãe é primordial para o desenvolvimento do ser humano”.

Controle de natalidade

Já no quesito planejamento familiar, desde que assumiu o mandato de vereador em 2001, Carlos Bolsonaro, assim como seu irmão, o deputado estadual Flávio Bolsonaro, lutou a favor de leis que tornassem gratuitas a laqueadura e vasectomia nos hospitais vinculados à rede pública como forma de combate à fome, à miséria e à violência.

“Não é castrar todo mundo, é fazer tudo dentro da legislação, um homem tem que ter, pelo menos, 25 anos e três filhos. A legislação está aí para quem quiser utilizar os hospitais públicos. O combate à fome, à miséria e à violência passam pelo controle de natalidade. São bandeiras polêmicas desvirtuadas e desqualificadas por alguns. Nós estimulamos o planejamento familiar dentro da lei. Não é ser enérgico, mas tem que prevenir antes do que remediar”.

Muro em favelas e maioridade penal

Outro ponto polêmico bastante discutido em 2009 no Rio de Janeiro foi a construção de muros em favelas -- Carlos Bolsonaro é um dos entusiastas da iniciativa. “Sou plenamente a favor em nome do social. O pessoal vive num 'hotel cinco estrelas', não paga água, luz e IPTU. Não tem como conter a expansão (das favelas) se não colocar um muro ou um ecolimite para que não se estimule a desordem no Rio de Janeiro”.

O vereador, assim como o irmão e o pai, se mostra favorável à redução da maioridade penal: “É da natureza do ser humano amadurecer mais cedo, vivemos no mundo cão. Um garoto de menos de 18 anos que rouba e mata sabe o que está fazendo. Eu defendo a redução da maioridade penal para os 14 anos”, admitiu ao enfatizar que um adolescente nesta idade já teria consciência de seu s atos.

Pena de morte

Já a pena de morte ou de prisão perpétua são também bandeiras do irmão, o deputado estadual Flávio Bolsonaro, que foi reeleito pelo terceiro mandato (2011-2014) com 58.322 votos.

“Os direitos humanos tem que valer para humanos de direitos. A OAB se preocupa mais com o bandido do que com os familiares das vítimas. É para essas pessoas que nós defendemos os direitos humanos”, disse Flávio Bolsonaro.

Bacharel em Direito pela Universidade Cândido Mendes no Rio e com pós-graduação em Ciência Política pela UFRJ, Flávio ingressou na vida pública como o deputado estadual mais jovem da legislatura 2003 e foi vice-presidente da Comissão Permanente de Segurança Pública e Assuntos de Polícia, além de ser membro efetivo da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania e ter ajudado a criar a Comissão Especial de Planejamento Familiar na Assembleia Legislativa (Alerj).

O deputado estadual defende a prisão perpétua e pena de morte para pessoas que não tem condição de viver em sociedade. “Para uma pessoa que nitidamente não tem recuperação e que volta às ruas e desgraça a vida de outras famílias”, ressaltou.

Segundo ele, mais de 70% dos crimes contra a vida são cometidos por pessoas reincidentes do mesmo tipo de crime. Os índices de criminalidade reduziriam bastante, destacou.

“A legislação penal dá uma série de benefícios a criminosos. O grande combustível é a impunidade e o não cumprimento integral das penas. Uma pessoa que é condenada a 30 anos, cumpre 4 ou 5 anos e já sai”.

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