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Perillo fala por 8 horas e meia à CPI; relator pergunta sobre quebra de sigilo e gera bate-boca

Do UOL, em São Paulo em Brasília*

2012-06-12T18:56:05

12/06/2012 18h56

Após mais de oito horas, terminou o depoimento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), na CPI do Cachoeira. O principal tema das perguntas feitas ao tucano foi a venda da casa na qual o bicheiro Carlinhos Cachoeira foi preso em fevereiro deste ano --Perillo negou as acusações de negócio fraudulento. Embora o governador tenha sido pouco pressionado pelos parlamentares, o momento de maior exaltação aconteceu quando o relator da comissão, Odair Cunha (PT-MG), perguntou se Perillo estaria disposto a abrir seus sigilos bancário e telefônico.

Após o questionamento de Cunha, houve bate-boca com parlamentares aliados do governador, que defenderam que o pedido de quebra de sigilo só pode ser feito por meio de requerimento. O presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), interveio de maneira enérgica para restabelecer a ordem na comissão. Perillo, por sua vez, afirmou que não via justificativa. "Não vejo, sinceramente, motivos suficientes, justificativas plausíveis, fundamentação para que haja quebra de sigilo bancário e telefônico, mas essa decisão não me cabe, mas à comissão e ao Tribunal de Justiça."

Mais cedo, o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP), disse que pedirá a quebra dos sigilos fiscal e bancário do tucano. Contrariando o tom leve dos questionamentos durante a sessão, ele afirmou que o oposicionista "falou, falou, falou, mas não disse nada" sobre suas relações com o contraventor Carlos Cachoeira. Sobre o tom ameno da CPI, o deputado Silvio Costa (PTB-PE) usou seu tempo para fazer uma crítica. "Estou envergonhado com o nível das pergunta feitas aqui nesta CPI. É um despreparo (...) O senhor [Marconi Perillo] sai maior desta CPI", disse.

Para David Fleischer, cientista político da UnB (Universidade de Brasília), Perillo silenciou diante dos principais questionamentos, e isso o prejudicou. “Ele teve muitas respostas evasivas. Tentou defender-se, mas ficou em uma situação mais complicada do que antes. Deixou muitas perguntas sem respostas”, disse.

Venda da casa

O tema mais explorado durante o depoimento de Perillo foi a venda da casa em um condomínio de luxo de Goiânia, onde o bicheiro Cachoeira foi preso. O governador repetiu a versão que já havia dado: fez anúncio em jornal e vendeu o imóvel para o ex-vereador Wladimir Garcez.

A compra, segundo ele, foi feita em três cheques (dois de R$ 500 mil e um de R$ 400 mil, totalizando R$ 1,4 milhão), com os valores depositados em sua conta bancária e declarados no seu Imposto de Renda. Sobre as informações contraditórias a respeito da venda, Perillo disse que não sabia que Garcez tinha pedido dinheiro emprestado.

“Quem pediu para comprar a casa foi o Wladimir Garcez, que se apresentou para adquirir o imóvel. Acertamos o valor, e ele pagou com cheques pré-datados, em três meses consecutivos. Eu não tinha bola de cristal para adivinhar que o Garcez havia recorrido a seus patrões para poder fazer jus ao pagamento. Só aqui, nessa CPI, que fiquei sabendo que ele procurou o professor Walter Paulo”, disse Perillo.

O governador disse que só depois soube que Garcez não ficaria com a casa e que havia repassado o negócio para Walter Paulo Santiago. Em depoimento prestado no último dia 5 na CPI, Santiago apresentou uma nova versão para a compra do imóvel, dizendo que pagou pela casa em dinheiro, "em notas exclusivas de R$ 50 e R$ 100". A última versão de Garcez, porém, é de que a casa foi vendida por R$ 2 milhões (e não R$ 1,4 milhão) --o que foi negado hoje por Perillo.  “Recebi três cheques, o mais é fato que não existiu e ninguém nunca terá como provar algo que não existiu”, disse na CPI.

Também na CPI, o delegado da Polícia Federal Matheus Rodrigues, responsável  pela Operação Monte Carlo, afirmou que os cheques dados a Perillo eram de Leonardo Almeida Ramos, sobrinho de Cachoeira. Os cheques estão assinados em nome da empresa Excitant Indústria e Comércio de Confecções, de Anápolis (GO). A confecção é de propriedade de José Gomide Júnior e Rosane Puglise da Costa, citados no relatório da Polícia Federal. De acordo com a PF, a Excitant recebeu recursos da Alberto & Pantoja Construções, que seria uma das empresas de Carlinhos Cachoeira.

Perillo se mostrou indignado com a polêmica em torno da venda de um bem particular. “Não vendi qualquer bem do Estado, mas um imóvel de minha propriedade particular”. Ele fez questão de frisar que a versão é "única e verdadeira" ao mostrar aos integrantes da CPI os documentos referentes à escritura da casa, cópias do cheques e extratos de sua conta dos meses de março, abril e maio.

O governador ainda brincou com o fato. “Se eu soubesse que a venda dessa casa geraria tanta confusão, tanto desconforto, teria continuado a morar nela e jamais pensaria em vendê-la. Segundo Perillo, “a maior parte dos recursos que pagaram a casa foram oriundos de um empréstimo junto à Caixa Econômica Federal”, quitado apenas quando ele recebeu os cheques da venda do imóvel.

Proximidade com Cachoeira

O governador Marconi Perillo negou qualquer relação de proximidade com Cachoeira. "Em 30 mil horas de gravações de ligações telefônicas não houve nenhuma ligação do Carlos Cachoeira para mim, apenas uma ligação minha para cumprimentá-lo pelo seu aniversário”, disse. “Eu estava na casa de um amigo, em uma reunião social, quando algum dos presentes disse que era aniversário do sr. Carlos Cachoeira e me perguntou se eu aceitava lhe dar os parabéns, como é de meu costume. Eu não estava ligando para um contraventor, mas para um empresário que atuava no setor de medicamentos”, completou Perillo.

Ao admitir, porém, que seu nome consta em mais de 300 ligações entre o bicheiro e seus comparsas, o governador pediu que não fosse julgado ou “responsabilizado por diálogos de terceiros”. Durante todo o seu depoimento, Perillo não tratou Cachoeira como contraventor, mas como empresário do ramo de jogos e do setor farmacêutico.

Perillo também negou que o contraventor Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) tivessem qualquer tipo de influência no seu governo para indicar nomes para cargos públicos. O governador disse que ele próprio indicou para a presidência do Detran-GO Edivaldo Cardoso, que saiu do governo em meio a suspeitas levantadas pela Polícia Federal. "O Edivaldo, que era presidente do PT do B, foi fundamental para a minha eleição e achei que era justo colocá-lo no meu governo."

Delta

Sobre as suspeitas de irregularidades nos contratos de Goiás com a construtora Delta e com empresas ligadas a Cachoeira, Perillo disse que “não há propina” no Estado. “Eu desafio fazer auditoria nas obras do meu governo  para mostrar que a prática foi abolida do meu Estado”, completou. Em relação às suspeitas sobre o financiamento de sua campanha em 2010, Perillo negou qualquer relação com a construtora. “A Delta não fez doação a minha campanha. A Rossini fez. A Delta nunca teve relações comigo, ela teve relações com outros grupos, relações próximas, muito fortes”, disse Perillo sem dizer a que grupos se referia.

Campanha

Perillo também negou que tenha pagado R$ 40 mil em dinheiro vivo ao jornalista Luiz Carlos Bordoni, que trabalhou para a sua campanha em 2010. “Ele terá oportunidade de prestar informação e esclarecimentos aqui na CPI e provar tudo isso na Justiça”, disse Perillo, que entrou com uma ação contra Bordoni por calúnia, injúria e difamação.

Segundo o governador, o jornalista prestou apenas serviços de comunicação, que constam em sua prestação de contas na Justiça eleitoral, no valor de R$ 33,3 mil. Depois da eleição, Jayme Rincon, tesoureiro da campanha, entregou mais R$ 10 mil em espécie.

Ele negou que tenha pagado em dinheiro para o jornalista ou para a filha dele, Bruna, outro valor e disse ainda que os pagamentos ficavam a cargo da coordenadoria de sua campanha. Bordoni disse ter recebido R$ 170 mil pelos seus serviços na campanha, mas apenas cerca de R$ 30 mil foram registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O jornalista afirmou também que Perillo retirou o envelope com o dinheiro de um frigobar no seu escritório. Indagado pela CPI, o governador disse que usava o seu escritório para reuniões, audiências individuais e coletivas de imprensa e que, portanto, muitas pessoas tinham acesso ao local e conseguiriam ver que existe um frigobar ali.

Ex-chefe de gabinete

Sobre a sua ex-chefe de gabinete, Eliane Gonçalves Pinheiro, Perillo afirmou que ela trabalhava havia mais de 20 anos para o governo do Estado de Goiás, mas que ele não sabia das relações dela com Cachoeira nem que possuía um telefone Nextel, com que o bicheiro presenteou pessoas próximas e que trabalhavam para ele.

A indicação dela fora feita pelo ex-deputado Fernando Cunha (PSDB). O tucano destacou que a função dela no governo era de tratar de assuntos partidários e da relação com senadores e deputados federais e estaduais. Ele afirmou que Eliane “trabalhava atendendo partidos e parlamentares e nunca pediu nada para favorecer qualquer" pessoa ligada aos negócios de Cachoeira.

Promoção de GO

Enquanto se defendia dizendo que “nunca teve relação próxima com Carlos Cachoeira” e sustentando a posição de “não houve negócio fraudulento” na venda de sua casa, Perillo aproveitou para promover seu governo à frente do Estado. Boa parte da mais de uma hora em que falou antes do início dos questionamentos dos parlamentares foi usada pelo governador para promoção própria. “Rompemos com o atraso, e em um pacto de confiança com o setor produtivo e os trabalhadores colocamos nosso Estado entre as nove maiores economias do país e a sétima mais competitiva”, disse Perillo no início do depoimento.

Esse discurso, aliado à ênfase que Perillo deu ao fato de que solicitou “de livre e espontânea” vontade” a abertura de investigação referente às citações de seu nome na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, arrancou aplausos de colegas parlamentares. Em determinado, por exemplo, o deputado Bruno Araújo (PSBD-PE) falou "o PSDB de Goiás tem na sua pessoa o maior líder da sua história".

Do lado de fora da CPI, porém, a recepção não foi a mesma.  Ao chegar ao Senado, o governador foi aplaudido por assessores e correligionários, mas vaiado por estudantes do Movimento Fora Marconi. Gritando palavras de ordem e usando nariz de palhaço, os estudantes acusavam os seguranças do governador de tê-los agredido. O clima ficou tenso e a Polícia do Senado colocou-se entre os dois grupos, para evitar o confronto. Os jovens, usando nariz de palhaço, entoaram gritos de "Fora, Marconi" e "Marconi, bicheiro, devolve meu dinheiro".

(*Com informações de Camila Campanerut)

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