Análise: clima é ruim, mas a democracia está preservada

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Luis Moura/Estadão Conteúdo

    PF vistoria sítio frequentado por Lula no interior de SP; ex-presidente foi principal alvo da 24ª fase da Lava Jato

    PF vistoria sítio frequentado por Lula no interior de SP; ex-presidente foi principal alvo da 24ª fase da Lava Jato

Num país já em turbilhão político e econômico, ver um ex-presidente da República ser tirado de casa para depor à polícia dificilmente contribui para que os ânimos se acalmem. Enquanto uns aguardam ansiosamente pela derrocada final do PT e do governo de Dilma Rousseff, outros consideram um abuso o fato de Luiz Inácio Lula da Silva ter sido alvo de condução coercitiva para falar na Operação Lava Jato esta sexta (4). Mas, concordam especialistas ouvidos pelo UOL, é notável o avanço dos controles institucionais e, com eles, a preservação da democracia mesmo no atual ambiente turbulento.

Para Cláudio Gonçalves Couto, professor de ciência política da FGV, a imagem de Lula sendo levado coercitivamente para depor é "simbolicamente muito forte", a ponto de mudar o ambiente político e impor mais uma derrota ao PT e ao governo. Ao mesmo tempo, Couto lembra que o Judiciário brasileiro tem um histórico de ser mais complacente com figuras da elite.

"Ou seja, a Justiça não era igual para todos. Isso começa a mudar. Isso é um efeito da nossa democratização. Não é um processo linear, mas cheio de idas e vindas", analisa. 

Já para Jairo Nicolau, professor de Ciência Política da UFRJ, o momento é de "perplexidade" e gera pessimismo, mas destaca que as soluções buscadas são constitucionais. Segundo ele, vivemos uma "crise da elite política" que tem como causa fundamental a investigação da corrupção política.

"Impeachment, se você tiver uma boa justificativa e votos no Parlamento, não é golpe", pondera. "É uma crise de governo, da elite política, mas não do regime democrático. Estamos longe disso."

Excessos do Estado

Diante dos protestos ao uso de condução coercitiva para o depoimento de Lula, Nicolau diz que medidas controversas são adotadas durante um momento como o do Brasil de hoje, mas o saldo é positivo.

"Tirando os exageros, é bom saber que um presidente não pode dizer que não quer depor", afirma.

Já para Couto, houve claro excesso.

"Lula já havia se prontificado a depor. Me pareceu muito mais uma demonstração de força da Operação Lava Jato diante da troca de guarda no Ministério da Justiça, de um receio que houvesse interferência na Polícia Federal ou que a investigação saísse da operação. O objetivo foi criar um fato consumado, como se não houvesse como voltar dali, o que não é totalmente verdade", diz.

Cautela entre políticos

Segundo o professor da FGV, é até possível que no futuro próximo haja acontecimentos favoráveis ao PT e ao governo -- as suspeitas sobre Lula, por exemplo, estão em fase de investigação e podem não ser confirmadas. 

"Mas o efeito imediato é de piora do clima, um reforço do movimento para o impeachment e pela cassação da presidente [Dilma Rousseff] no TSE (Tribunal Superior Eleitoral)", comenta. 

Nicolau, por sua vez, descreve o momento como "dramático", mas considera a radicalização política, por enquanto uma especulação. O que devemos ver mais adiante, diz o professor da UFRJ, são governantes "muito mais cautelosos".

"Já nesta eleição municipal, o nível de corrupção eleitoral deve ser muito menor. A gente deve entrar num ciclo de mais cuidado da elite política com as normas", aposta.

Como a Lava Jato chegou a Lula

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