Operação Lava Jato

Doleiros de Cabral se comunicavam por rascunho de e-mail e usavam criptografia

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Pawel Kopczynski/REUTERS

    Cabral foi preso no âmbito da Operação Lava Jato sob acusação de chefiar esquema de recebimento de propina

    Cabral foi preso no âmbito da Operação Lava Jato sob acusação de chefiar esquema de recebimento de propina

Os doleiros do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) utilizavam técnicas de segurança para evitar que as operações de lavagem de dinheiro fossem rastreadas, segundo o despacho do juiz da 7ª Vara Criminal Federal, Marcelo Bretas, que resultou na Operação Eficiência, realizada na quinta-feira (26) pela Polícia Federal.

Em delação premiada homologada pela Justiça, os irmãos Marcelo e Renato Chebar afirmam que, em vez de trocar e-mails com Carlos Miranda, um dos operadores de Cabral no esquema de propina descoberto no âmbito da Operação Lava Jato, os interlocutores utilizavam a pasta de rascunho.

Com isso, qualquer um que tivesse o login e a senha da conta de e-mail poderia acessar e visualizar o conteúdo de mensagens e arquivos, incluindo anexos de boletos e faturas. O método dificulta o rastreamento, já que, dessa forma, as mensagens não passam pelo servidor.

Além de Cabral e de Miranda, presos na Operação Calicute, um dos alvos da ação de quinta é o ex-bilionário Eike Batista, acusado de fazer repasses de dinheiro para o ex-governador. Contra ele há um mandado de prisão preventiva, que não foi cumprido porque o empresário, considerado foragido, está fora do país.

Na decisão, o MPF (Ministério Público Federal) narra que Carlos Miranda criou um correio eletrônico no serviço de e-mail do Google com objetivo específico de trocar informações sobre operações financeiras. No e-mail, eram deixadas na pasta de rascunho mensagens sobre os pagamentos que os doleiros deveriam fazer a mando de Cabral.

Toda a movimentação financeira era registrada em uma planilha de Excel, que foi deletada antes do acordo de colaboração. Os irmãos Chebar afirmaram ao MPF que não possuem cópias dos arquivos.

Além da precaução com o e-mail, os doleiros também se preocupavam em "nunca fazer download de arquivos para o HD", mantendo-os sempre em um pen drive. Dessa forma, seria mais fácil apagar rastros e evitar que elementos fossem encontrados na perícia digital --há softwares especializados que permitem uma varredura completa no disco rígido, ainda que ele tenha sido formatado.

Os arquivos salvos em pen drives eram então criptografados por meio de um programa chamado "Steganos". Com essa ferramenta, além de proteger a codificação e bloquear o acesso não autorizado, os doleiros conseguiam criar falso disco rígido --que ficava oculto no próprio dispositivo móvel.

Após a utilização, todos os pen drives eram destruídos. Antes disso, porém, eram impressas cópias das planilhas de Excel "de forma a permitir uma possível colaboração". Os delatores não esclarecem no depoimento se esses papéis foram conservados.

A reportagem tentou contato, por telefone, com o advogado de Cabral, Ary Bergher. Mas ele não atendeu e nem retornou aos telefonemas.

O esquema

Na Operação Eficiência, investigadores da PF e do Ministério Público Federal descobriram que Cabral e seus operadores financeiros, sobretudo Carlos Miranda e o ex-secretário de Estado do Rio Wilson Carlos, mantinham mais de cem milhões de dólares (cerca de R$ 340 milhões) em contas no exterior.

O esquema de corrupção e lavagem de dinheiro consistia em remessas destinadas a contas de doleiros e até mesmo compra de ações da Petrobras, da Vale e da Ambev na Bolsa de Nova York. Do montante total, 16,5 milhões de dólares foram pagos por Eike Batista, segundo despacho do juiz Marcelo Bretas. O MPF suspeita que o dinheiro seja fruto de propina.

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